Vítima da crueldade das fêmeas



Ele estava bêbado quando a conheceu, e curtia o pior momento de sua vida amorosa, ou do término traumatizante dela, e procurava esquecimento através de uísque, tequila, cerveja fosse lá o que fosse, esparramado no bar, parecendo um bagaço humano. E foi assim que a conheceu, oferecendo a pior primeira impressão que alguém pode dar de um homem com alguma dignidade.
Ela tinha aquele aspecto bondoso no olhar, e uma voz firme e tranquila, nada surpresa com o estado em que ele se encontrava quando puxou assunto e sentou-se com ele, aceitando um suco de laranja.
Bonita do seu jeito simples, cabelos escuros e lisos sem adornos e nada de maquiagem, a face real de quem não teme a chegada dos anos, impiedosa com mulheres e homens. Conversando banalidades até que eu tomasse coragem para falar do amor perdido que me causava tanto sofrimento, a ponto de morrer por coma alcoólico.
Resignada, não disse que não o fizesse, apenas ponderou sobre algumas coisas que poderiam ser importantes para ele manter, como a alegria de viver, o sol e a praia, refeições exóticas e sexo bom e sem compromisso, por que não?
O modo como ela colocou aquelas coisas, sem incutir responsabilidades nas minhas costas, sem julgar a minha franqueza, me sensibilizou enormemente. Os meus olhos começaram a enxerga-la, mesmo embaçados, como uma possível rampa de salvamento.
Olhou em seus olhos e tentou seduzi-la descaradamente. Estava bêbado, então parecia mais ridículo do que sedutor, mas ela nem se importou. Sorria de tempos em tempos, entre um gole e outro no suco de laranja.


O cara ainda não ainda não havia se dado conta de que estava tratando com uma freira, até que ela lhe disse, sem nenhuma mágoa ou surpresa por ter sido convidada para o apartamento dele para transar loucamente até afastar os fantasmas de sua vida desolada.
Agora fazia sentido o vestido preto sem decote, cobrindo até os pés, e o crucifixo no peito, além do colar de contas na mão direita. Além de triste ele era burro. Já ia iniciando o processo humilhante de implorar por desculpas quando ela o surpreendeu aceitando o convite, desde que ele permitisse que ela dirigisse até lá, devido ao seu estado deplorável.
Confuso e excitado pagou a conta e entregou a ela as chaves do carro. Comprou outra garrafa de vodca para viagem e a seguiu cambaleando, tentando descobrir algumas curvas no corpo completamente coberto da freira. Seria a sua primeira vez com uma noiva de outro, e o pior era que o outro era Jesus, o Próprio! Ele estava certo que o seu caminho seria o inferno por isso.
No caminho continuou a beber para sufocar perguntas adolescentes que poderiam ofendê-la: se era virgem e ele seria o primeiro homem dela, ou se costumava servir como marmita para os padres sacanas, pois sempre existe um.
Muito calma, quase indiferente, estacionou o carro fora do prédio e pegou a chave do apartamento. Quando ele indagou por que não usar a vaga que tinha no estacionamento, mencionou algo como praticidade e fazê-lo andar para recuperar a consciência e a condição física para possuí-la selvagemente. Ficou louco de alegria, não havia nada mais importante para ele do que conhecer no sentido bíblico aquela madre tão diferente e especial.
 


 No apartamento o levou para a cama e o ajudou a usar a garrafa de vodca como uma mamadeira. Só acordou no dia seguinte por volta do meio dia, sem saber por certo onde estava.
Aos poucos percebeu que estava em casa, e apesar da enorme dor de cabeça relembrou o xaveco na freira, que deu certo. Olhou em volta procurando por ela inutilmente. As roupas de freira jogadas no chão do banheiro lhe arrancaram um sorriso de felicidade, junto com uma dor lancinante. Ele ainda achava que havia se dado bem e teria história para contar aos amigos, gabando-se por ser um sedutor.
Então percebeu que estava na banheira, com muito gelo em torno de si. Será que enchera a banheira de uísque e fizera uma farra regada a bebidas?! Em seguida notou um curativo na região abdominal e um bilhete embaixo do celular no chão do banheiro.
“Ligue para um hospital imediatamente e solicite uma ambulância, diga que perdeu um rim e o fígado. Boa sorte”.
Na cozinha faltava a cafeteira, o fogão de seis bocas, o micro-ondas; na sala não havia mais televisão. A carteira continha os documentos, mas os cheques, o dinheiro, os cartões de crédito... Os relógios e as correntes de ouro, anéis haviam sumido.
Uma gigantesca sensação de perda se apossou dele. Não que estivesse apaixonado, mas enganado assim tão facilmente!
Quando os policiais chegaram junto com a ambulância, contaram da falsa freira que aplicava o boa noite cinderela nos trouxas e levava tudo o que pudesse carregar enquanto o idiota apagado achava estar no paraíso sem comer ninguém.
O delegado o aconselhou a deixar para lá e evitar a humilhação de ter caído no golpe; os paramédicos disseram que viveria com apenas um rim e que o fígado já não prestava para nada mesmo. Mais detonado do que antes fui para o hospital pensando em comprar mais quatro garrafas de vodca e quatro de uísque. Ter sido feito de bobo por uma mulher vestida de freira o enfio na mais profunda das depressões.
O golpe da freira foi marcante para um homem experiente como ele. As cicatrizes aumentaram e ela terá que se adaptar ao fato de que sou um eterno imbecil, destinado a ser vítima das mulheres cruéis pelo resto da vida.
  


Marcelo Gomes Melo
 

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