Manter funcionando a roleta da paixão

 

Na estrada da vida, meu amor, o amor me autuou várias vezes, me encaminhou a uma prisão encantada e realizou o julgamento sem que eu tivesse direito a advogado de defesa. Eu era o réu, e as donas acusavam livremente, com os melhores advogados, paixão e crueldade, amigos da meritíssima juíza, que sempre agia parcial e ostensivamente.

O meu couro é de crocodilo, agora aguento as pancadas e não faço menção de me defender, derrotado antecipadamente pelos rumos que escolhi, seduzido, acalentado, usado e destruído completamente.

Não posso julgar injustiça, porque recebi diversos prêmios que a maioria dos homens sequer sonharia; tive coragem para ir além, baixei a minha guarda e entreguei corpo e alma, em um ringue perfumado no qual já entrava derrotado pelos prazeres que acumularia, enquanto aguentasse física e mentalmente.

As cicatrizes das minhas derrotas carrego em meu corpo, orgulhoso, machucados que guardam histórias inesquecíveis. A minha capacidade de amar se resume a sacrifícios e que enfrento sempre que sou fisgado como um peixe inocente que só pensa em saciar o desejo, assumindo possíveis perdas com dignidade, porque o ciclo nunca termina. Perde-se algo, recebe-se outro prêmio tão valioso quanto, e o caminho segue com o seu próprio tempo.

A minha carteira da paixão está corroída, sem mais espaços para multas, e sempre sou julgado culpado, à revelia ou não. Enfim, pago a minha dívida, devasto algumas garrafas de vinho do porto, durmo por dias, deprimido, e quando alguém abre a janela e o sol invade o meu quarto, o oxigênio novo e um café reforçado repõe as minhas forças e a vida recomeça. Troca a minha roupa, coloco os meus óculos de sol e passeio pelo parque com as mãos nos bolsos olhando a beleza da vida, descansando e tranquilo, sem pressa de cruzar o olhar com a próxima razão de viver com quem terei momentos incríveis enquanto durarem, e novamente crucificado, manterei funcionando a roda viva da paixão.

 

 Marcelo Gomes Melo

Os piores entre os sobreviventes


       Há um filtro entre a vida que se quer e a vida que se tem. Ele é responsável por afastar os pensamentos poluídos que permitem alcançar o patamar que se quer, mantendo a dosagem de falta de indignação correta para que a manutenção do status inferior permaneça sem maiores problemas.

O que acontece quando esse filtro anda descalibrado é o resultado de uma sociedade enlouquecida, sem parâmetros, sem um norte a seguir e muito menos alternativas criativas para suportar a própria mediocridade.

Cruzando as avenidas apressadamente, imersos em seus pensamentos devassos ou fanáticos, muitas vezes conversam sozinhos em voz alta pela rua, sem notar os outros seres que caminham na mesma ou em outra direção, como aliens, estranhos uns aos outros. Os seus olhares só se cruzam quando os objetivos se parecem, e trocam caretas estranhas como se fossem sorrisos desonestos, e a mente formiga em busca de uma brecha para passar o outro para trás e usá-lo como degrau invisível em tresloucada subida em atmosfera cinzenta.

O filtro descalibrado requer ajustes, mas esses são feitos com inexperiência, afundando-os cada vez mais em um poço de incompetência sangrenta. Todos ficam dispostos a tudo, e isso é perigoso. A cada esquina, a cada palavra trocada.

A opção atual é agir covardemente, rastejar para alcançar um lugar privilegiado sobrepujando aos outros, preparando-se para o salto final, no vazio e escuridão, alcançando a tudo ou perdendo-se para sempre. Vale o risco. Muitos perdem. Os que conseguem experimentam a sensação de prazer típica dos vencedores. Inebriados, não fazem ideia do quão pouco durará o seu reino, com boas intenções ou não.

No final o filtro falha e todos se transformam em Nero, tocando a lira enquanto a cidade queima, presos em sua loucura, sufocando na fumaça das notas altas de papel moeda, enviados para o inferno sem parada no purgatório.

A pior morte de todas. E nas profundezas enquanto ardem em sofrimento sem fim, produzem os novos filtros que regerão a humanidade até as novas catástrofes. Os escolhidos do mal, os imperdoáveis, os gananciosos sem saída...

Na superfície a poluição visual e sonora, as regras estúpidas fabricadas por hipócritas farão com que um novo começo estabeleça novas formas de autodestruição, híbridos dos seres anteriores com mais maldade e incertezas. Como em O Inferno de Dante, descem em círculos sem perceber, pagando pelos pecados que criaram, usaram e espalharam por um mundo sem culpas, um planeta sem culpas. Apenas os piores dentre os seres viventes.


 

                    Marcelo Gomes Melo

Par de orelhas com garota no centro

 

Os brincos de ouro enormes eram pauta de discussão no trabalho, em casa, na rua em que morava e adjacências. Ela virou a garota mais importante da vila por causa daqueles brincos enormes. Dourados. Estaria namorando algum camarada rico? Os brincos eram mesmo de ouro? Seria fruto do trabalho da vida amarga, a prostituição?

Não, contra-argumentaram uns. Ela era moça direita, frequentadora da igreja aos fins de semana. Tímida e prestativa, só mudava quando os colocava. Aí virava uma rainha!

Pode ter ganhado uns trocos no jogo do bicho, por que não? Dera veado e o ex-namorado dela fora desmascarado há pouco tempo!

Os brincos hipnotizavam. Outras meninas fotografavam para postar no Facebook, senhoras a cercavam ostensivamente para admirar. Pacientemente ela deixava, sorria e agradecia os elogios. Ficava intrigada por que simples brincos hipnotizavam assim as pessoas! Logo ela que jamais chamara a atenção por nada.

Imaginava quando isso iria acabar, se acostumariam com os brincos, que eram, na verdade, bijuteria, embora ninguém acreditasse.

Um dia, reunidos na farmácia, vários vizinhos a cercaram quando entrou para comprar uma aspirina e puseram-se a filosofar sobre a razão de aqueles brincos chamarem tanta atenção de todos. De quase todos. O rapaz que trabalhava na limpeza da farmácia nunca demonstrara interesse. Era o único.

Finalmente alguém percebeu isso e o intimou. Por que não estava impressionado com os brincos, era cego? Invejoso? Burro?

Não, ele respondeu, incrédulo. O que vocês não perceberam ainda é que o que lhes chama a atenção não é o par de brincos!

Não? Então o que era? Pelo amor de Deus desvenda esse mistério!

E o garoto devolveu, sem parar de esfregar o chão:

- Sério?! Acham que o impressionante são os brincos? Não se tocavam de que o que realmente chamava a atenção são as enormes orelhas separadas da moça, que a transformavam em uma árvore de natal ambulante?! Francamente!

 
Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

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