Em busca de lírios







           Cavoucando em busca de lírios encontrei terrores que me enlamearam as mãos.

          Descobri segredos dourados que me enriqueceram materialmente e me puxaram de uma vida torpe para outra vida torpe, fantástica, além do cemitério.
          A visão que se tem do palácio é miserável de horizonte a horizonte. Enfiado em sedas respirando o ar dos jardins, chega a ser inacreditável o horror que causa toda a natureza morta espalhada à distância das mãos, mas intrínseca ao coração.

          Quem vive como escolhido perde a noção do que acontece sob a triste realidade, protegido em seus castelos dourados e torres de marfim, filosofam a respeito de jogadas que jamais fizeram, por serem apenas mecenas dos verdadeiros enxadristas, os manipuladores que desenvolvem as queimas e controlam o caos friamente, sem lamentar os efeitos colaterais, as vítimas, a matéria prima para a produção de benefícios e delícias.
          O prazer dos nascidos em berços marcados não atinge todos os sentidos, pois não conseguem afastar a escuridão quando miram, inocentes, as amplas janelas. É isso que lhes gela o sangue e os obriga a pensar num futuro sombrio. Só essa possibilidade já os envelhece em mil anos!

          O que se enxerga dos campos vermelhos é promessa de amor e imortalidade, vitalidade sem escrúpulos e sorrisos constantes. Mas sempre há um ponto em que todos descobrem inapelavelmente que só os lírios vivem para sempre.




Marcelo Gomes Melo


O Rouxinol e a Rosa (Um conto selvagem)




“The Nightingale and the Rose”, conto de fadas escrito pelo poeta e dramaturgo inglês de origem irlandesa Oscar Wilde, um homem além de seu tempo na forma de enxergar o mundo e a vida, diz muito a respeito das desilusões amorosas que acompanham a cada um durante o período de existência, longa ou breve.

No conto de Wilde, um rouxinol sacrifica a si mesma contra um espinho para produzir uma bela rosa vermelha para um estudante apaixonado que gostaria de presentear à amada. Depois que o objeto de seu amor rejeita a flor por preferir as joias oferecidas pelo concorrente, o estudante a atira na estrada, e ela é esmagada pelas rodas que passavam, após concluir: “Que coisa tola é o amor! Fica o tempo todo a nos dizer coisas que não irão acontecer e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade”.

A ferocidade com que as pessoas encaram as desilusões é o que as distingue entre si, e nada como um conto de fadas para, desde muito cedo ensinar sobre a vida e o amor, paradoxos inevitáveis e transparentes, impossíveis de evitar contando apenas a parte suave e maravilhosa, excluindo a crueldade e frieza que os acompanha do outro lado da moeda, gêmeos inseparáveis por toda a vida.



Há quem se compatibilize com o lado romântico, triste, que gera sofrimento e decepção; e há quem escolha o lado objetivo, frio e controlador, direcionado para a matéria, o que pode se transformar visivelmente em benefícios visíveis, adquiridos através da pose financeira, não importando nada além; alimento para o espírito não fortalecerá os partidários do segundo tipo, assim como alimento material apenas serve para manter vivos os participantes do primeiro grupo, não lhes causando nenhum tipo de excitação e prazer.

O intuito não é julgar quem está certo, ou se existe alguém errado nas escolhas; é firmar o conceito intransponível de que nada no mundo sobrevive unilateralmente. Ação e reação nunca foi uma lei natural tão viável e o equilíbrio é o verdadeiro Graal para quem busca qualidade de vida.
 
Marcelo Gomes Melo
 

Habitat das múltiplas belezas


    A visão que se tem do espaço em que se vive é intensamente pessoal. Ainda mais quando o espaço é amplamente povoado, uma metrópole composta por diversos tipos de pessoas com variadas histórias de vida e culturas peculiares.
          Trata-se de um amor diferente do que o amor que os nascidos em cidades pequenas nutrem, carregam no coração; aquele apego à terra natal que não os abandona de maneira alguma. Os nascidos em grandes cidades cultivam uma essência nômade, um desapego típico de quem vive se movimentando e procurando se adequar aos lugares como eles o são. Verdadeiros camaleões camuflando-se ao concreto e relacionando-se superficialmente com o restante da população.. Nada de tradições ou relacionamentos que se estendam além do exigido pelo ambiente profissional. Nada de conhecimento profundo das dores e alegrias alheias, a não ser o estresse repartido diariamente em muitos níveis.
          Isso não exclui a faixa etária, não poupa os mais jovens, pelo contrário; são eles, os mais jovens que crescem sob tal égide; desconhecem o amor à terra, o nacionalismo e a percepção do conforto dos locais pequenos, com gente que convive e forma grupos leais.


            A visão social da vida e do lugar no qual se vive difere de pessoa para pessoa, e o conjunto de tudo o que se enxerga forma a metrópole em si. E esse quebra-cabeça imenso é o retrato real da cidade. Do mundo em que vivemos.
          Como formar a visão através de imagens que retratem a forma como o habita natural é visto? Como o fazer em um minuto? Condensado objetivamente, poeticamente, tradicionalmente? Não importa. O que importa é a criatividade com que é realizado.
          Mostrar o mundo através da lente da câmera, registrando através da máquina o que os olhos enxergam. A beleza é subjetiva e tem diversos rostos e modos de se manifestar. Cabe a cada um enxergar e cultuar tais belezas eternamente.


Marcelo Gomes Melo
Um lugar além do amor



         Você não sabe o que a outra pessoa mais ama, não seja arrogante! Ninguém jamais saberá algo assim, profundamente pessoal. Afirmar algo parecido é ingenuidade e egoísmo a um só tempo.
     Ninguém jamais consegue se expor a tal ponto. E só é possível contar superficialmente o amor que se tem. O amor declarado.
          Não pode pensar em estar certo a respeito do que a outra pessoa realmente mais ama, isso está entre ela e Deus. O que unicamente se alcança é a primeira camada, baseado em atitudes e palavras. Mas o que está guardado no fundo do cofre do coração, trancafiado com segredos intransponíveis na mente jamais será alcançado por quem quer que seja.
         O amor é o nível mais alto de alcance e compreensão entre as pessoas, o que nem de longe garante sequer arranhar a couraça que protege o lado denso do querer humano, porque esse estará para sempre guardado por cada um durante toda a existência; talvez até após.
        Então, antes de declarar que alguém morreu fazendo o que mais amava, ou que sempre realizou  todos os próprios desejos vivendo uma vida plena, lembre-se de que é apenas baboseira sentimental e mentirosa. São palavras atiradas ao vento hipocritamente, sem nenhum valor.
      O alcance máximo de uma pessoa à outra de maneira irrestrita durante a vida chama-se amor. E o amor verdadeiro não ultrapassa os limites dos pântanos escuros do coração e do pensamento, pois é onde se dá o encontro com o Criador, e nesse momento não há outros participantes ou intermediários.
      Tudo o que você sabe a respeito de quem ama, ou quem lhe ama sabe a seu respeito é ínfimo para poder afirmar com certeza algo tão profundo quanto se quer acreditar.
       Há algo além do amor, e beira o divino. Até os apaixonados mais loucos têm limites.


Marcelo Gomes Melo
Debilidade moral em paralelo à evolução social


           A evolução acontece velozmente, basta percebermos quando nos permitimos uma incursão no passado através de conversas, fotos e fatos dos quais participamos ou observamos in loco. A isso chamamos saudosismo, e não resistimos à vontade de comparar a época vivida com a atual, sempre com desvantagem para o momento presente. É comum acontecer, geração após geração.
            Esses momentos propiciam com clareza pontuar a evolução ocorrida através dos anos, com citações do tempo em que automóvel era coisa de gente rica, tal como a tevê a cores; refrigerante era chamado de gasosa e terno e gravata a vestimenta oficial masculina para o trabalho, acompanhada de acessórios como chapéu e guarda-chuva.
          A formação clássica familiar era composta pelo marido e pai, tido como o provedor por ser o único da casa a trabalhar fora em busca de um salário que sustentasse a esposa, responsável pela criação dos filhos e administração do lar, e os filhos, cuja educação era recebida desde a mais tenra idade, assim como cuidados médicos e cultura, a qual adquiriam na escola.
            Hoje há vários tipos de formação familiar; os pais trabalham, as mães idem; não sobra tempo para o cuidado com os filhos, que ficam à mercê da mídia e do governo para receber cuidados físicos, psicológicos, educacionais e culturais. Há modelos de família, inclusive, em que os filhos são os principais responsáveis por prover as necessidades básicas da família, não importa a idade que tenham.

          Pais de jogador de futebol e mães de modelos e atrizes não hesitam em cafetinar os filhos à procura da glória, causando um desequilíbrio social feroz, que machuca a todos indiscriminadamente.



        Quem antes queria estudar, aprender, aprimorar as habilidades naturais para o uso social, se firmando no mercado de trabalho encontrava as maiores dificuldades por falta de espaço, vagas e recursos tecnológicos; hoje que tais recursos sobram e facilidades brotam de todos os lados são ignorados e desdenhados por quem poderia utilizar de maneira correta para alavancar os próprios conhecimentos e o status no mundo.
          Os valores continuam lá, no mesmo lugar, prontos para ser utilizados, colocados em prática; o que parece ter mudado foram as pessoas, que andam sem estímulo, desejando facilidades em vez de conhecimento prático, utilizável para a melhoria constante.
          Mesmo assim a vida não para. O tempo parece acelerado e benefícios surgem cada vez mais rápido, sem, no entanto, fazer a diferença para a grande maioria do povo. Seria por que a base, primordial para consolidar o ser humano socialmente, o alicerce formado a partir do nascimento esteja faltando? A fraqueza moral não permite que os avanços sejam desfrutados com coerência pela humanidade inteira?


Marcelo Gomes Melo
Um homem de rimas pobres 


         Ele era um homem de rimas pobres. Desses com talento inigualável para apregoar o óbvio com tanta voracidade que, ao interlocutor desavisado pareceria estar diante do criador das frases mais hipócritas e desbotadas, o pai dos ditados mais cafonas e politicamente corretos, o dono das expressões mais tolas e descaradamente falsas do universo.

        E não era por maldade que ele era assim. Repetia uma frase dita por alguém no mesmo momento como se fosse ideia sua! O fazia por pura incapacidade intelectual mesmo. Era um cara rasteiro, sem condições de formar opinião própria; se deixava levar pela multidão, querendo estar com a maioria sempre.


          O cordão dos “Maria-vai-com-as-outras”, queiram ou não, são os que decidem as grandes situações, porque seguem ao líder mais astuto, à propaganda mais elaborada, por mais fanfarronice que contenha, e habitam constantemente uma bolha de hipocrisia que serve para empanar-lhes a visão e manter o cabresto apertado. É a partir daí que soltam as bobagens mais sem nexo e fazem os comentários mais bobos como se fossem sabedoria em estado sólido.


         É possível que, estando sólidos, esses comentários caíssem sobre suas cabeças vazias e causasse um estrago considerável.


Marcelo Gomes Melo
               Restituindo os pilares da convivência social

      Talvez o ensino brasileiro devesse ser oferecido obrigatoriamente a jovens e adolescentes até o ensino médio; mas apenas para os que demonstrassem estar dispostos a submeter-se às regras e à hierarquia, que estariam por vontade própria em busca do saber acadêmico, preparo para a vida em sociedade e inserção com qualidade no mercado de trabalho.
          Tal medida restituiria o senso de dever à juventude que hoje se encontra confusa pela ausência de limites e propagação em massa dos direitos, omitindo os deveres e a necessidade de respeito aos pais, aos idosos, aos mestres e às autoridades em geral, como a polícia. Todos, hoje em dia foram destituídos de função, pois o governo quer extinguir instituições importantes para a evolução social, tornando a vida dos jovens e adultos num caos sem fim.

          Aos resistentes em seguir as normas que norteiam o convívio social, atenção diferenciada visando descobrir os motivos da resistência e, caso seja necessário punir exemplarmente, de acordo com a infração cometida, e não passar a mão pela cabeça, criando mais um monstro para destruir a sociedade de maneiras inimagináveis.


          Uma sociedade que relega a autoridade dos pais e de mestres, que proclama aos quatro ventos a filosofia da juventude eterna, faz com que adultos se tornem reféns de jovens marginais sem educação, sem cultura e sem religiosidade e implanta medidas paliativas falsas e enganosas nada terá a ganhar em longo prazo, muito pelo contrário; gerações degeneradas procriando cada vez mais jovens e largando os filhos para os pais ou avós, ou para a vida cuidar, sem nenhuma noção de regras importantes que protegem da barbárie. Uma fábrica de assassinos cada vez mais jovens e governantes cada vez mais incompetentes, legisladores inúteis e uma mídia enlouquecida procurando lucro com a desgraça alheia.
          As Instituições brasileiras perderam o poder e a importância, inclusive a igreja, responsável antigamente por incutir limites e respeito divino, evitando que crianças cresçam sem acreditar em nada, a não ser no caos; parecem se curvar às vontades nocivas de uma juventude preguiçosa, alienada e fútil, não por vontade própria, mas por acreditar no lixo que consomem desde recém-nascidos, manipulados por uma mídia irresponsável e políticos sem capacidade nem competência, muito menos moral.
          Como agir para retomar às rédeas da educação nacional sem apenas realizar palestras hipócritas, concessões patéticas e resultados pífios, mas oferecer valores morais, éticos e religiosos imprescindíveis à sobrevivência e formação de bons adultos?
          A população se rebela aos poucos já há anos, culpando uns aos outros pelos desmandos e falhas, cegos para o sistema mal administrado e balela distribuída como bala em vez de honestidade. Agora parece demonstrar mais conhecimento empírico, mas eficiente a respeito do que está causando tal desespero social; as cobranças ao excesso de permissividade aumentam e  os resultados da política de concessão total aos direitos e ausência completa de deveres, que são relevados e ignorados saltam aos olhos, revelando uma iminente desgraça de gigantescas proporções.
          Unir modernidade com valores morais, individualidade a respeito ao próximo, trabalho em grupo e consciência social, urge! Discutir a educação com base honesta e real é a saída, esquecendo essa conversa covarde e improdutiva que destrói os novos esquemas familiares pela raiz e provoca racismo e intolerância por causa da falta de firmeza de propósito e baboseira intelecutalóide é a saída.



          A eficiência da educação vendida pelos “psycho-pensadores” está em cheque. A educação antiga, excludente, precisa acompanhar a evolução, mas algumas colunas precisam continuar vigentes: respeito à experiência adquirida, fé nas pessoas e crédito às instituições para reativar o bom senso, a capacidade e a boa vontade dos responsáveis pelo futuro do país, antes que a selvageria destrua os pilares da convivência de uma vez por todas.


Marcelo Gomes Melo


Para ler e refletir

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Expandindo o pensamento