Amores distintos, inegociáveis



Se me amar não faça escândalo. Arrume o futon, aqueça o quarto, coloque snacks em uma mesinha de madeira e algumas cervejas, vinho de arroz, soju...
O ambiente silencioso, em comunhão com os deuses nos permitirão meditar lado a lado, de mãos dadas e olhares furtivos.
Logo mais, com as luzes apagadas, trocaremos carícias não totalmente despidos, contendo os gemidos, prendendo a respiração, transparecendo os sabores através dos olhares agoniados e respiração entrecortada.
Com a lua cheia iluminando nosso quarto através da janela, testemunhando momentos secretos que jamais serão discutidos, porque menos é mais, e não ousamos sequer pensar entre as outras pessoas.
Me ama, então cuide dos meus silêncios e aceite os meus sorrisos e toques tímidos com prova do amor inesgotável que surge depois, muito depois, porque nos conhecemos e convivemos no princípio como totais estranhos, e nem sempre a sorte sorri unindo o casal ajustado, que se entenda sem que um se sobreponha ao outro em termos de status.
A bebida nos deixará relaxados, menos tímidos, o que facilitará nosso amor discreto, escondido do mundo, para um sono tranquilo, abraçados, casados com a vida.
Difícil se acostumar com culturas diferentes, encontrar um meio-termo que garanta honra e dignidade sem perder a lascívia justa para qualquer casal verdadeiro.
Me ama, não diga em palavras, eu sei. Aprendi a conter a minha volúpia de gritar aos quatro cantos e guardar para nós dois apenas entre as quatro paredes.
Amores distintos, inabaláveis, impossíveis de entender por quem reconhece apenas o que é imediato.



Marcelo Gomes Melo

Entre a esperança e o ódio



Parta-se do pressuposto de que não há mudança em larga escala sem revolução, e que não existe revolução sem sangue derramado, sem mártires forjados em batalha e heróis que se sacrifiquem pela causa.
Em uma democracia, há que ficar claro a obrigatoriedade de que as decisões da maioria serão as acolhidas, e que as minorias têm o direito de exercer a sua cidadania tendo em mente o cumprimento dos deveres e a preservação de todos os direitos.
Caso seja essa a ideia de uma sociedade, minorias não dominam, opinam, e caso a sua reivindicação seja rejeitada pela ampla maioria, agir como crianças birrentas desrespeitando as regras e as leis não funcionará, apenas criará balbúrdia e focos de violência.
A política não é compreendida pela maioria do povo; isso acontece porque deve ser assim para que uma maioria comande milhões e roubem, legislem em causa própria, vendam a própria alma para manter o poder. Não existe lado bom! Todos são corruptos, todos agirão para acobertar uns aos outros e fingir para que a grande maioria se divida entre a esperança e o ódio.
Jamais essa imensa maioria exercerá poder algum, se formarão em grupos para ser comprados e dividir o espólio com outros que se conformarão com um quinhão ainda menor, e a vida continua a mesma, com a mídia reivindicando o quarto poder, trabalhando para o lado que lhes ofereça mais vantagens, assim como os sindicalistas, os artistas e outros corruptos em potencial.
Essa é uma razão consciente para que os partidos políticos se revezem no poder, que nenhum consiga instalar um esquema perfeito para perpetuar-se no poder doando migalhas, esmolas, distribuindo humilhações e morte contabilizada matematicamente para manter o poder através do número de viventes que forma a população.



Mudar periodicamente de ideologia atua como um bálsamo para as costas chicoteadas, a ausência de cultura cultivada para evitar o entendimento do que está acontecendo. Então forma-se mais acadêmicos diminuindo as exigências, criando profissionais despreparados com um diploma superior, que funciona nas estatísticas, mas destrói o núcleo social mais necessitado com falsa pompa, e arrogantes, destroem o ensinamento do idioma, matam pacientes receitando remédio para virose quando não sabem que se trata de câncer...
A política sempre será assim, os que estiverem no comando negociarão com os adversários atrás das cortinas e todos sairão beneficiados. O povo? O povo é dispensável, gente para levar a culpa, sofrer, acreditar ingenuamente, receber trocados e bater palmas, se tornando violentos uns contra os outros em nome dos seus donos e morrer sem nada.
Sempre foi assim e sempre será. Sem revolução radical não há mudança; sem o sacrifício impiedoso dos líderes, as coisas se ajeitam, e os pseudo-adversários discursam odiosamente, e bebem champagne do alto dos seus edifícios.



Marcelo Gomes Melo
 

 

Para ler e refletir

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Expandindo o pensamento