Miseráveis atormentam idiotas II



          Ela se soltou da minha mão e foi para a pista sem dizer nada. Aceitou! Embriagado de alegria enlacei a cintura de Jacyra e senti o bafo de mortadela na cara, de tão próximos. O cheiro de mofo do moletom sem lavar impregnou minha mente. Dançamos as dez vezes em que Juvêncio Preá repetiu a mesma música, cada vez mais íntimos. No final da décima dança, suados e excitados, agarrei o seu rosto com as duas mãos em garra e tasquei-lhe um beijo na boca, daqueles de língua com sabor mortadela, cebola e cachaça. Naquela noite fomos para a minha casinha nova em folha e a cama de campanha para solteiros que eu tinha rangeu a madrugada toda como gatos no cio, as molas chorando embaixo de nós dois.

          Jacyra era a flor do pântano que revigorou a minha vida! No dia seguinte comprei uma cama de casal. Ela passou a receber uma mesada para o cigarro e a cachaça. Comecei a comprar mortadela em peças para ela comer à vontade e ensinei-a a tomar banho e escovar os dentes.

          Toda noite, ao voltar do trabalho passava pelo buraco do Inchado para pegá-la e irmos para casa juntos. O projeto era trazer à luz uns filhos para alegrar a casa.

          Jacyra engravidou três vezes, mas perdeu nas três por causa da vida perdulária, dos vícios mortais, da falta de cuidado pessoal; ela não estava nem aí. Quando tentei argumentar que ela deveria ter um comportamento mais adequado para manter uma gravidez, uma atitude mais saudável em nome da vida que se formava dentro dela, ou jamais teríamos crianças, ela se enfureceu. Partiu para cima de mim com um porrete e quebrou a cozinha inteira! Eu fiquei ali, em estado de choque, sem saber o que estava acontecendo. Depois disso Jacyra sumiu por duas semanas sem dar sinal de vida. Nem no buraco do Inchado ela apareceu.

          Percorri hospitais, dei queixa na polícia, imprimi panfletos e espalhei pela cidade sem obter resultado. No auge da dor, ela reapareceu na nossa casinha. Antes que eu manifestasse a minha extrema alegria por vê-la viva e aparentemente bem, me entregou uma carta de um advogado cujo conteúdo não entendi muito, a não ser que pedia separação e que ela ficaria com a casa e tudo o que houvesse dentro dela. Eu teria que sair imediatamente e sem reclamar, ou iria para a cadeia. Mais uma vez fiquei branco, apalermado, sem saber o que responder. Não entendia nada de leis, morria de medo da polícia e tinha pesadelos com advogados, aquilo pra mim era uma sentença de morte!
 

          Aquela degenerada a quem salvei de corpo e alma me traiu sem hesitação! Há um motivo para que os miseráveis sejam miseráveis eternamente! Eles sempre serão miseráveis sem sentimentos, egoístas que se agarram à beirada do precipício que os leva ao inferno até que algum imbecil, no caso eu, os venha a salvar. Então utilizam a mão piedosa como impulso, salvam a si mesmos enquanto atiram-nos ao inferno sem nenhum problema de consciência.

          Jacyra era uma miserável. Eu era um idiota. Idiotas são vítimas frequentes de miseráveis. Por mais que me esforçasse não sabia como me vingar dela. Era o derrotado de sempre, condenado a lamentar pela eternidade.

          O mundo evolui com catástrofes profundas, nas quais os miseráveis sobrevivem e os idiotas são sacrificados, numa troca contínua de modos de pensar, agir, viver e sobreviver. Populações inteiras deixam de existir de uma hora para outra, para que o equilíbrio se mantenha e os mais espertos continuem a viver. A natureza se recicla e o planeta permanece, sempre, com as configurações geográficas modificadas, muitas vezes, mas com novos seres para desfrutar das mudanças. E dentre eles sempre haverá miseráveis gélidos para traçar e realizar o serviço sujo, e idiotas para sofrer as consequências.

          Eis que uma condição antinatural surgiu, uma única vez em toda a minha vida para me favorecer. Sabe aqueles bilhetes de loteria em que eu costumava apostar? Faturei milhões! Continuava um idiota, mas agora com o bolso cheio!

          Minha vingança não foi lá essas coisas; afinal um idiota rico não vira uma miserável. Pelo contrário, adquire um sentimento de culpa por estar rico e tenta ajudar a todos com quem convivia, para aliviar a pressão em que se coloca naturalmente.

 
          Eu comprei o quarteirão inteiro, inclusive a minha antiga casinha roubada por ela, e mandei um bilhete dizendo a ela para apagar as luzes e deixar a chave no batente da porta.
         Meses depois ergui no local um prédio bonito no qual passou a funcionar um prostíbulo. 
Marcelo Gomes Melo
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Idiotas, vítimas frequentes dos miseráveis



          Jacyra tomou meu carro, minha casa, me mandou juntar minhas tralhas e “deitar o cabelo”, sem me esquecer de apagar a luz e deixar a chave no batente da porta.

          Justo aquela casa que eu conquistei com tanto esforço, dormindo no trabalho para ganhar hora extra e me candidatar ao financiamento. À época era solteiro, mas procurando desesperadamente por uma fêmea para procriar, e como indivíduo planejador, lutava por uma residência própria, pensando em dias melhores.

          Agora fazia o caminho de volta para a pensão de Nostradamus, carregando minhas trouxas, consciente de que todas as posses que juntei em minha vida estavam perdidas. O esforço físico despendido, as energias jamais seriam recuperadas; tudo estava acabado e sem volta, prejuízo total.

          Deixei as minhas coisas na pensão e desci para espairecer, aliviar o peso do nervosismo em minha mente apertada. Primeiro entrei em uma lotérica para fazer o jogo de sempre, minha única chance de conquistar uma nova casa. Em seguida voltei ao local em que tudo começou, o bar do Inchado, para tomar uma cervejinha e relembrar os acontecimentos da minha vida.

 
          O bar do Inchado era o point do bairro, com sua mesa de bilhar, umas mesinhas descascadas e uma televisão velha em um suporte na parede. As luzes fracas mal iluminavam o lugar, que ficava parecendo uma caverna. Todos os fregueses se referiam ao estabelecimento como “o buraco do Inchado”, coisa que o fazia praguejar com ódio genuíno, exigindo respeito. Em vão.
          Foi no buraco do Inchado que eu a conheci. A mulher desalmada a quem resgatei da sarjeta; a figura nojenta e alquebrada pela vida a quem puxei das profundezas dos infernos e trouxe à luz da vida honesta e recatada dos cidadãos comuns, complacentes; a falsa e mal agradecida vadia que usou a minha boa vontade para me esfaquear pelas costas, ficando com tudo o que juntei com esforço, todo o espólio conquistado a duras penas.
          Jacyra estava sempre lá, jogando baralho ou palitinho com Zé Carvão, Turuna, Tanajura, Véio, Ramira... E tomava pinga tatuzinho comendo mortadela, parecendo um urso panda com aquelas bolsas escuras ao redor dos olhos. Usava sempre a mesma blusa de moletom surrada em cima do que fora um vestido de formatura antigo, branco e cheio de rendas. Ou isso ou uma fantasia de baiana no carnaval.
 
          Eu ficava em um banco alto de madeira junto ao balcão, com minha cerveja e um potinho de amendoins, admirando aqueles cabelos ensebados, o rosto sem maquiagem e sem expressão, a pele esverdeada parecendo um pergaminho. A voz enrouquecida pelos cigarros sem filtro que fumava incessantemente, amarelando os dentes grandes e as pontas dos dedos de unhas quebradas e maltratadas. Quando Jacyra sorria apertava os olhos, e as rugas a faziam parecer uma sanfona. A boca encolhida lembrava uma uva passa. Bebia meia dúzia de cervejas, isolado, e ia para a pensão Nostradamus dormir pensando em Jacyra, a mulher dos meus sonhos.
          Em uma sexta-feira à noite cheguei ao bar decidido a dar rumo à minha triste vida. Estava feliz, com as chaves da minha residência no bolso e um tesão incontrolável que nenhuma rainha da noite poderia saciar em troca de duas notas de dez. Abalroei o meu corpo contra o balcão no lugar de sempre e pedi ao Inchado uma cachaça, além da costumeira cerveja com amendoins. Jamais havia trocado uma palavra sequer com Jacyra, mas estava decidido a ser romântico e elegante naquela noite; disposto a conquistar o coração murcho daquela bruxa a quem eu julgava uma santa.
          Após a décima cerveja, e consequentemente a décima pinga, eu já via o mundo rodar quando Juvêncio Preá, frequentador que estava acompanhado por uma dama da noite chamada Silvina, que usava um vestido vermelho da neta e uma rosa da mesma cor nos cabelos, se dirigiu à jukebox e inseriu uma moeda, escolhendo uma música romântica, ideal para dançar naquele chão de cimento no qual o Inchado, espertamente jogava talco, para facilitar aos casais o deslizamento na pista de dança improvisada. Como em toda sexta-feira, assim que alguém acionava a jukebox o Inchado acendia a lâmpada vermelha, tirada de uma árvore de natal, para criar um clima. Isso aumentava as vendas.
          Nesse momento emborquei o copo de cachaça e tomei a decisão. Em passos largos e incertos, cambaleei até a mesa em que Jacyra jogava cartas. Segurei o seu braço com firmeza e a puxei para cima, derrubando a cadeira com um estrondo, quase quebrando o braço dela, que me olhou impassível, com aqueles olhos mortiços, dando um trago no cigarro e soprando a fumaça na minha cara. Tentei resistir como macho e não tossir. Zé Carvão, Ramira e Véio, que estavam à mesa jogando com ela, me olhavam surpresos. Pareceu um grunhido para todos os presentes, mas foi a minha voz saindo do fundo da garganta e perguntando a ela, “quer dançar”? Ela não respondeu de imediato e eu pensei em me matar pela vergonha que iria passar...
Continua
 
Marcelo Gomes Melo

Conjugação da vida. Poço de falibilidades.
 

       Eu errei quando achei que as diferenças sociais de um povo não seriam pessoais, e que as necessidades de melhoria, por serem gerais, causaria uma mobilização conjunta, mesmo com visões opostas e acirramento natural dos ânimos. A compreensão do que significa ser democrático triunfaria, apesar dos pesares.

          Tu erraste quando, ao defender o ponto de vista do teu lado, exageraste nas ações difamatórias, violentas e reprováveis, quando o que estava em jogo era bem maior, e as prioridades de um todo superam em muito as vaidades de uma parte.

          Ele errou quando aceitou os termos da disputa, transformando-a em guerra e agindo como se o mundo fosse acabar caso a vitória não viesse; ou agindo como se fosse eliminar da face da terra os vencidos, caso eleito vencedor.

 
       Nós erramos ao evitarmos debater as falhas do país na totalidade, em vez de destacar a corrupção alheia de forma obsessiva, alijando os corruptores do processo, sem nos darmos conta de que tudo é corrupção e atitude danosa, que atinge a todos indiscriminadamente, então estamos cercados por corruptores e corruptos em todos os níveis e de todos os lados, o que é perigoso e fatal.
          Vós errastes quando esquecestes de que a corrupção envenena e prejudica a qualquer dos lados. Trocar acusações tentando varrer os próprios atos desonestos para debaixo do tapete, como se inexistissem, em nada ajudará a limpeza de que tanto o país precisa. Toda a excrescência precisa ser lavada para começarmos de novo, valorizando coisas que deveriam ser intrínsecas ao ser humano, principalmente àqueles que exercem atividades públicas: ética, honestidade, probidade, transparência, respeito às ideias contrárias...
          Eles erraram quando se permitiram afastar do mar de lama e observar do alto de suas torres de marfim, inatingíveis, sem querer se sujar nem se envolver, abdicando de participar do processo de mudança pelo qual todos bradam em uníssono, há tempos. Respingos da lama sobrarão aos que não se manifestaram, e todos no mesmo barco remando metade para cada lado apenas rachará o navio em dois, e o afogamento se tornará inevitável, sem sobrar ninguém para contar a história.
 
       Essa é a conjugação simples da vida no perfeito do indicativo, porque no princípio era o verbo, garantindo as ações que permitem uma comunicação perfeita, coesa, coerente, clara e eficiente.
          Uma comunicação perfeita, dentro das regras de convivência, diminui as chances da instalação do caos, que permitiria o surgimento de ditadores malucos prontos para devastar sociedades, destruir convicções e criar uma história obscura em uma derrocada infinita.
 
Marcelo Gomes Melo

Oportunidades perdidas pelo excesso de bom-mocismo



Focou no vale entre os seios e logo desviou o olhar, envergonhado. Ele em pé, ela sentada, no transporte público. Decote generoso, três botões da blusa branca abertos. Tratou de recordar todas as leis contra assédio sexual e situações envolvendo advogados e supostos tarados a quem assistia nos jornais policiais do início da noite na televisão, mas, desafortunadamente seus olhos adquiriram vida própria, retornando ao local do início de seus tormentos.

Uma olhada à sua volta, antes; as pessoas preocupadas com as próprias vidas, por enquanto. Verde. Musgo, se perguntasse à dona. Sutiã verde musgo em um vislumbre, indicando o caminho para os verdes campos de caça. O nirvana a poucos centímetros. Gelou! O sangue de seu corpo dividiu-se; metade concentrando-se em seu rosto, vermelho como o telefone do Comissário Gordon, e metade na região pélvica. Moveu-se, desconfortável. Alface! Alface, rúcula, salada de capim santo! Tentava limpar a mente do pecado, pensando em mato. Mas mato lembra floresta, e os olhos deslizaram suavemente os contornos da garota. Teria ela feito a combinação da mesma cor? Calcinha cor de musgo? Hoje em dia as mulheres fazem as combinações de cores mais inusitadas! O pensamento o fez tremer.

 
Pensou numa tática para se acalmar. Pensar em livros, filmes. Os livros que lhe vieram imediatamente ao cérebro foram Os sete minutos, de Irving Wallace, que relata os pensamentos que passam pela cabeça de uma mulher durante os sete minutos de uma relação sexual. E cinquenta tons de cinza, hit sado masoquista do momento. Isso lhe causou novo estremecimento e arrepios pelo corpo. Os joelhos! Os olhos chegaram aos joelhos à mostra, no final da saia preta. Macios, sem marcas, belos joelhos, caminho único de retorno ao pecado. Boca seca. Tentou passar a língua pelos próprios lábios, se imaginou parecendo uma cobra. Naja. Ahhhh! Controle-se homem! Compêndios legais, filosofia extrassensorial da rabanada em véspera de festas de fim de ano, vade mecum, memórias de um monge budista eunuco... Memórias de uma gueixa! Abana a cabeça de um lado para o outro, tentando espantar os maus pensamentos bons.
Filmes! É preciso pensar em filmes de guerra. Toshiro Mifune em Tora! Tora! Tora! Não, não é uma boa lembrança. Batatas da perna... Hummm! Melhor falar panturrilha, ele pensa, suado; nada menos excitante do que o uso de termos médicos. Que maravilha de canelas, protegidas por meias discretas, sensuais... Difíceis de arrancar. Passa a mão pelos cabelos, nervosamente, deixando escapar um suspiro dissimulado, chamando inadvertidamente a atenção da musa, que levanta os lindos olhos para ele, por trás dos longos cílios.
 
Teve certeza de que seu rosto parecia uma máscara de terror, contorcida pelo pavor de ser acusado de qualquer tipo de assédio. Tentou conter a tremedeira. Pigarreou sem som. Maravilha de mulher!
O camarada sorri interiormente pelo fato de seu pensamento ousado. Ainda não liam pensamentos, então não poderia ser preso. Conseguiu até dar uma relaxada, Nem tudo era tão patrulhado no mundo, afinal.
A moça se mexe no assento, inquieta, e ele esbugalha os olhos, trazido de volta à realidade. Ela abre o zíper da bolsa em seu colo com uma elegância inigualável, as mãos suaves de dedos longos, unhas coloridas como um arco-íris. Agora não podia mais ignorar a ação e manter-se apático. Deixar de olhar, nunca; disfarçar, jamais! Manteve os olhos esbugalhados, fixos na fenda escura que se entreabria ante a sua expressão incrédula, de boca aberta. Viu sair de dentro, entre os dedos bonitos dela, um objeto retangular, pequeno, de papel de boa qualidade.
Ela se ergueu, puxando a saia para baixo com naturalidade, ficando a centímetros dele, olhos nos olhos. A ponto de sofrer um ataque cardíaco percebeu que ela tinha um discreto sorriso naqueles lábios de perdição. Entregou o objeto a ele, que demorou a se tocar que a oferenda era sua! Com a mão mais trêmula do que alguém pelado no polo norte, recebeu. Era um cartão. Antes de se afastar, ela sussurrou em seu ouvido com voz aveludada, quase lhe provocando uma convulsão: “Não deixe de me ligar, querido”.          
 
Ele ficou lá, em pé, tremendo, com espasmos musculares pelo rosto, tiques nervosos jamais antes sentidos. O impensável, improvável, impossível acontecera. Assim que aquela delícia em forma de curvas desapareceu, tênue como num sonho, ele tomou coragem de olhar o conteúdo do cartão. Um número de telefone celular; um número fixo, comercial; o nome dela; o nome da empresa e sua profissão: advogada.
 
 
Marcelo Gomes Melo

Emoções baratas no banco de trás
 

          O som das harpas ininterruptamente açoita o meu pensamento com seus acordes perfeitos. E isso é magnificamente chato!

          Ninguém vive em êxtase 100% das horas, todos os dias de todas as semanas, invadindo os meses e completando os anos, desvairadamente, sem que isso o torne um desfocado mental. Há que equilibrar as forças do universo com um pouco de tristeza, de solidão, irritabilidade, mau comportamento e pensamentos impróprios, tudo isso em doses  suportáveis, para formar um ambiente palatável à sobrevivência.

          A nossa espécie é peculiar por causa da inquietude, da imprevisibilidade. Tudo o que é monótono foge às expectativas porque sempre se busca o improvável, se deseja o que não se tem, a mudança de postura, de ideias  e de atitudes é constante como a mudança das estações. Não compreender é o que move a humanidade constantemente, daí a facilidade em julgar sem conhecer, a tudo e a todos, o tempo todo. E a preferência pela crítica indiscriminada, pelo destaque aos defeitos em detrimento das virtudes é algo visível. Talvez porque as desgraças e os pecados rendam mais diversão, mais conteúdo para resenhas do que elogios e atitudes louváveis, mesmo porque as belas ações são esquecidas rapidamente por quem as realizam do que por quem as recebem. E muitos dos que as recebem odeiam lembrar e consequentemente passam a odiar a quem os ajudou, culpando-os por terem necessitado e por terem sido retirados da lama. Isso é mais comum do que se imagina.




           A vigília constante é necessária. Mas os indivíduos entendem essa instrução de maneira errada. Não se deve vigiar aos outros, mas a si mesmos! Vigiar as próprias atitudes e reconhecer as próprias fraquezas, pois isso tornará o autoconhecimento mais fácil, e com isso, a melhora na relação com o mundo.

          Uma jovem outro dia, sabiamente destilou: “preciso cuidar apenas da minha saúde, porque da minha vida a vizinha cuida”. É a definição perfeita de como se compõe a vida em sociedade. Não importa a classe social, o credo, a posição política; o que caracteriza o ser humano é a incerteza e a fragilidade. As gerações enfraquecem sucessivamente e se tornam cínicas ou crédulas, de acordo com o período em que existem. Por outro lado, algum tipo de ganho acontece em paralelo para equilibrar as coisas e tornar a vida suportável, até feliz, muitas vezes.

 

          Nenhum amor precisa ser eterno, nem a felicidade inacabável; nenhuma dor permanece para sempre. São constatações. De vez em quando é bom ter emoções baratas no banco de trás de um Fiat 147, parodiando a antiga canção.
 

Marcelo Gomes Melo


Demente!
 

          “Quando a demência não difere pobres de ricos, certos de errados, apenas se institucionaliza do asfalto às nuvens, das ruas aos aparelhos de televisão...”.

          - Tira o “zóio”! Tira o “zóio de bomba”! Falei. “Tá Ca zoreia tapada”? É essa “zunha” grande e suja que te “atrapaia” de dirigir!

          - Minha senhora, acalme-se. A senhora está errada, entrou na contramão.

          - Quê?! Contra a minha mão, tá maluco? Eu não fico contra minha mão nunca, só tenho duas, o senhor tá com “pobrema”! “Tô” sempre a favor “das minha mão”! E joga o “chicrete” fora pra falar com eu, “faifavô”!

          - Não é “ com eu”, é comigo.

          - Tá “veno”? É com você mesmo, até você concorda. Com esses “zoião” e “num sabe lê as praca”! Ninguém sai daqui até os “puliça chegá”. “Tá veno esse embrema na minha brusa”? Sou funcionária da “Ordi dos adevogado”, meu nome é Creusa, seu cretino.

          - Minha senhora, por favor, se acalme...

          - Como vou me acalmar? Sou “craustrofóbica” e estou com dor na “cravícola”! Vou querer indenização!

          - Indenização de quê? A senhora está errada, madame.

          - Madame, eu?! Como ousa me tratar assim?! O senhor não tem “dipromacia”! Não sou madame coisa nenhuma, sou “boadame” e muito! Meu “adevogado” vai colocar um “prano” em ação e vamos tomar o seu dinheiro.

          - Só me faltava essa! – olha o relógio, impaciente, embaraçado com aquela situação em que se metera com uma mulher escandalosa chamando a atenção e arrancando sorrisos da multidão que já se aglomerava. Deu graças quando a polícia chegou.

 

           - Boa tarde, estão todos bem? – cumprimenta o policial tranquilamente.

          - O senhor já chega preocupado com todos, “seu puliça”? O acidente não foi com todos, só com “nóis aqui”!
          - Minha senhora, mostre os documentos, por gentileza.
          - Quê? Tarado! Um “puliça” pedindo pra eu mostrar os “dicumento”, tá doido? Sou “muié”, não vou mostrar meus “dicumento” pro senhor, não!
          - Os documentos do carro, dona! – o policial troca um olhar com o homem, de cumplicidade, já imaginando o que ele estava passando.

          - Como assim, “dicumento” do carro?! É macho, “craro”! Se fosse fêmea seria “carra”. E eu sou dona dele, sim; você “tomem tem pobrema”, é?
          - A documentação, minha senhora, a papelada do carro e sua carteira de motorista!
          - Não sou do senhor, não, “seu puliça”! E tá aqui minha “cartera” do “selviço” na “Ordi dos Adevogado”.
          - Dona... Creusa, eu estou atrasado para pegar o meu filho no colégio, vou levá-lo para jogar baseball... – o homem resolve apelar para o bom senso da mulher, já trêmulo de nervoso – Vamos resolver como pessoas civilizadas, e...

          - Está dizendo que não sou civilizada?! Me “chamano” de “selvage” na frente do “puliça”, que não faz nada pra me defender!
          - A senhora entrou de ré na contramão e meteu a traseira no meu para-choque novo! – a paciência se esvaiu e o destempero tomou conta – Por que diabo está criando problemas, bruxa maldita?!

          - Me “arrespeite” que não sou desse tipo! Minha traseira é limpa e não faço essas coisas na rua com desconhecidos! – vira-se para o constrangido policial – O senhor não vai fazer nada?! Ele me desrespeitou e o “pobrema” sou eu? Exijo uma ação imediata contra esse cidadão!
          - Ele se referia ao carro, dona Creusa. A senhora não viu a placa?

 

           - É “craro que vi a praca”! Não sou cega. “Bisgoiei” pelo retrovisor; a “frecha tá apontano pra lá”!

          - Policial, não vou querer denunciar essa mulher, eu só quero ir embora. Por favor, peça que ela retire essa lata velha do caminho para que eu possa buscar meu filho. Eu mesmo vou mandar consertar o carro. Prefiro arcar com o prejuízo.
          - Prejuízo?! “Sou mim” que está no prejuízo, seu “puliça”! Ele vai ter que pagar. Meu adevogado vai pedir quarenta marmitex e cinquenta conto pelos “pobrema” que me causou.
          - O seu carro está intacto, dona! Foi o carro desse senhor que sofreu prejuízo, causado pela senhora! – o policial já estava nervoso com ela.

          - Como assim?! Eu sou a vítima aqui! Ninguém sai até o meu “adevogado” chegar. Estou nos “prenos” direitos!
          - Ah, é? Então o seu carro está avariado – o homem vai até o porta malas de seu Alfa Romeo e retira um taco de jogar baseball. Estava branco de ódio, tremendo, com dificuldades para pensar e para respirar. Antes que o policial pudesse reagir, começou a dar pauladas no carro da mulher – Se está avariado a senhora quer levar vantagem, não é? – os vidros das janelas destroçados pelas pancadas – Aí está, então, bruxa velha! – capô amassado, faróis quebrados, portas afundadas – Agora está satisfeita, hein? – espelhos retrovisores destruídos, calotas amassadas.

          A mulher o fitava calmamente, sem reagir. O policial o desarmou e algemou, colocando-o no banco de trás da viatura, pedindo calma a um homem transtornado, que espumava pela boca, lábios arroxeados e olhos vermelhos.
          Uma equipe de jornalismo “caça-baixaria” chegou a tempo de registrar a viatura se afastando com o cidadão bem vestido algemado no banco traseiro. A repórter mal ajeitou as madeixas loiras e já teve que entrar ao vivo, sem noção alguma do que havia acontecido, e já foi informando com um sorriso radiante:



           - Desgraça maravilhosa em plena hora do rush! A polícia levou o cidadão violento que atentou contra o patrimônio de uma inocente senhora, vítima de sua ira venenosa. O milionário achou que subornaria a polícia e sairia livre contra uma humilde representante do povo, mas, como vimos, nossa bem preparada polícia agiu corretamente e levou o infrator para a delegacia de polícia, liberando a avenida e garantindo o bem sem olhar a quem. Uma palavrinha ao vivo da vítima, salva da fúria dos ricos!

          E dona Creusa, embasbacada, com uma expressão angelical no rosto, falou, olhando fixamente para o microfone:

          - Nossa, como o povo anda “nelvoso” no trânsito, moça! “Grória a deus”!


                                  Marcelo Gomes Melo

Os errados são os outros



          Essa é uma época de emoções à flor da pele. Como o futebol, a política atiça diversos sentimentos e causa debates acalorados, através dos quais as opiniões são expostas nem sempre com tranquilidade e respeito. Deveria ser apenas um choque de ideias diferentes em busca de um bem comum, mas resvala no mau gosto e ataques pessoais, acusações e ações hiperbólicas visando destacar defeitos em vez de qualidades suficientes para lidar com os problemas imediatos de toda uma população.

          As sensibilidades afloradas pelo mundo vêm de uns... Vinte anos a esta parte, talvez? Agora há divisões por cor da pele, opção sexual, tipo de humor realizado... Não que antes isso não acontecesse, sempre foi assim. A intolerância entre os seres humanos sempre foi absurda e não existem pessoas perfeitas. Nem aquelas que fazem apologia ao politicamente correto, sorriem falsamente e defendem atitudes radicais em favor da moral e dos bons costumes. Todos cometem erros. Os hipócritas são piores.

 
          Hoje em dia tudo pode ser ofensivo. Se um homem sorri para uma mulher, ou demonstra o quanto a acha bonita pode correr um risco de ser acusado de assédio sexual. Logo um advogado surgirá para convencer à suposta vítima de que ela vai ganhar muito dinheiro, e ele também, consequentemente. Se uma criança é vista de mãos dadas pelas ruas com um homem adulto, o primeiro pensamento comum é que se trata de algum pedófilo e não apenas um pai amoroso a caminho da escola.
          O medo e a desconfiança é a serventia da casa; ninguém confia mais em ninguém e em nada, tudo parece ser feito com segundas intenções. Observando a mídia diariamente é possível perceber os destaques para o que é ruim numa proporção de mil para um. Fica parecendo que a maioria das pessoas são más, corruptas e degeneradas.
 
          É por isso que precisamos pensar (e agir) urgentemente sobre a forma como os assuntos polêmicos são tratados. Diversidade de pensamento não significa que um deles seja superior ao outro, e para suplantar as ideias alheias é necessário enxovalhá-los, fugir ao senso comum da boa educação e respeito... Ninguém precisa ser inimigo por ter visões diferentes sobre o mesmo fato.
          Se não houver conscientização por parte de todos só haverá uma vencedora: a intolerância. Todo mundo se julga maravilhoso, todo mundo se julga bondoso e honesto, todo mundo se acha o dono da razão. Mas, quem são os errados, então? Os errados são os outros.
 
 
Marcelo Gomes Melo
 
 

Da ironia das coisas (música para velórios)


 

          Era linda, a danada. Elogiada por toda a família desde bebê, deixava a mãe enlouquecida de felicidade. A mamãe representava o tipo que, reprimido, não alcançara êxito em realizar os próprios sonhos; casara cedo e logo tivera filhos, então elegera a mais nova como a joia da coroa. Decidira realizar tudo o que não conseguira na pele da filha maravilhosa e linda que tivera, e nada nem ninguém a impediria.
          Desde pequena alardeava aos quatro ventos que a criança seria bailarina. Na missa de domingo ficava com a menina, de mãos dadas em pé à porta da igreja, com todos os dentes à mostra exibindo a filha como animalzinho, toda inflada de orgulho com os elogios, até que o padre a tocava pra casa. O marido nada dizia; de vez em quando a olhava de esguelha, fungava e voltava a atenção aos seus afazeres.

          A mãe sem noção logo decidiu que, além de bailarina, a filha teria que ser pianista, obrigando-a a estudar desde muito cedo. A menina foi crescendo sem direito a brincar como as outras crianças; a mãe a obrigando a estudar canto, dança, piano e se apresentar nas quermesses da igreja, na escola e em casa, para as visitas.
          Logo passou a ser levada a programas de calouros, palanques de candidatos políticos, concursos de misses... Com dezesseis anos fez o teste do sofá para conseguir um lugar de figurante em uma novela. A mãe quase a doou para o diretor de elencos, esperando que fosse um pequeno preço a pagar pela fama.

 

          Deu tudo errado. A garota participou como figurante. No meio de umas das cem mil pessoas em um massacre de um filme de época. A mãe mostrava a cena para todos, mas nem ela conseguia enxergar a filha no meio do pó, do sangue e dos gritos daquela gente. Isso não foi o pior. A filha da velha engravidou. Quando soube, o pai teve um infarto. A mãe correu para o estúdio em busca do diretor de elencos, suposto pai, mas o homem havia viajado para o Quirguistão sem plano de volta.

          A moça, agora grávida, deixou aflorar o ódio que carregava encubado desde pequena quando a mãe surgiu com umas ervas malditas e uma folha de instruções de como agir para praticar o aborto. Com o pai internado, aproveitou para colocar um plano em ação: colocou veneno de rato na comida da mãe e livrou-se do tormento de toda uma vida.
          Quando soube da morte da esposa, o pai deu um arremedo de sorriso, um suspiro longo, e em seguida enfartou novamente, dessa vez foi fatal. O seu último pensamento foi se iria encontrá-la no inferno ou ainda teria chances no céu.

          No velório dos pais ela cantou. Tocou piano e cantou. Todos se emocionaram e aplaudiram tresloucadamente, no final. Ela fora a estrela do velório. Todos os presentes se esqueceram dos mortos e passaram a homenageá-la, pedindo até autógrafos. Nunca se sentira tão contente e confiante! Agora sim, se achava uma estrela. Sozinha, esperando um bebê, mas uma estrela!
          Ela teve que vender a casa dos pais para sustentar-se, e ao filho, enquanto tentava conseguir emprego como artista. Nada. Tudo o que conseguia era dançar em shows de forró universitário e fazer coreografia em bailes de peão de boiadeiro em troca de cachês que variavam de meio a um salário mínimo.

 

          O menino foi crescendo nesses ambientes, vendo a mãe desesperada em busca da fama, sem conseguir, e prometeu a ela que seria famoso e rico para comprar uma mansão e viverem em festa. Emocionada, comprou para o rapaz um tênis de basquete americano, uma camiseta regata dois tamanhos maiores do que ele, uma calça de cintura baixa tão larga que o fazia desaparecer dentro dela e ficava caindo, deixando a cueca à mostra. Para completar, uns óculos escuros e garoto sentiu-se pronto para tentar a vida como rapper.

          O que a mãe não contava é que nesse caminho o garoto se envolveu com gangues, adquiriu vício em drogas e virou assaltante, batedor de carteiras, político principiante. Alucinado, o garoto roubou todas as economias da mãe, que eram para colocar silicone e aplicar botox. Gastou tudo com drogas e, vítima de overdose, morreu.

          Novamente apavorada, ela se culpava pela morte do filho, achando que era castigo por ter assassinado a própria mãe. Agora, em plena meia idade, sem ter alcançado sucesso algum decidira enterrar o filho e trabalhar como garçonete ou auxiliar de limpeza. O sucesso não era para todos, ficara óbvio finalmente.
          O enterro do filho foi tão lindo quanto o dos pais. Ela resolveu cantar pela última vez em homenagem ao filho. E o fez de maneira brilhante, misturando guaranias com rimas de rap, música sacra com sertanejo, forró com funk carioca. Foi uma apresentação fenomenal! Um dos amigos do filho morto gravou a tudo no celular; as pessoas chorando, aplaudindo, dançando... Na hora do reggae caipira até acenderam cigarros de maconha. Era o enterro que entraria para a história!

 

          O vídeo postado no youtube tornou-se viral, e a mãe do morto, ainda de vestido preto e com a maquiagem borrada foi contactada pelo diretor de uma gravadora internacional com a oferta para lançar imediatamente um disco chamado “Até os mortos dançam”. Ao chegar em casa o telefone tocou. Um convite para estrelar a novela das onze da noite “O defunto palrador”. E empresas funerárias aos montes oferecendo cachês de seis dígitos para que ela se apresentasse em velórios de famosos, com vídeo clipe e divulgação.

          A outrora menina prodígio da mãe, assassina problemática e sem sorte agora era capa de revistas de celebridades, com seu vestido roxo agarradinho combinando com a Ferrari da mesma cor; saiu nua em revistas masculinas com poses fantásticas em cemitérios. Gravou vídeos para a internet nos quais saía nua de um caixão, com o corpo coberto por mel de abelhas, cantando o hit do momento “veneno de mãe”.

 

          Esse caso fantástico foi eternizado em uma autobiografia intitulada “Da tragédia à glória”. Em seu túmulo nas profundezas dos infernos, a mãe dela se revirava, tentando mostrar os dentes de felicidade para o capeta.

 
Marcelo Gomes Melo

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