Façamos a evolução, senhores!

 
        Vamos liderar a evolução, homens de luta! Não hesitemos em distorcer normas e burlar regras, desconsiderar a ética em nome dos prêmios que poderemos ganhar, no presente e no futuro, cidadãos conscientes da necessidade de exercermos o poder nesse círculo privilegiado de semideuses inatacáveis!
       Nós precisamos esgotar todos os recursos naturais em nome da evolução, tramando pela diminuição dos seres viventes do planeta com toda a frieza necessária aos mandatários superlativos da humanidade, habitantes do topo da cadeia alimentar.
       Levantem-se, companheiros de fé e de ação! Reconheçamos que somos o lobo do lobo do homem e não pensemos duas vezes em devorar nossos semelhantes abaixo de nós com firmeza de propósito em nome da evolução. Dominar o universo em todos os aspectos, corroer os pilares da razão com voracidade, substituindo por mantras produzidos sob a égide do caos, controlado por nós, donos das rédeas do tempo, insaciáveis guerreiros comandantes da reconfiguração planetária, da condução da maioria das cobaias para o recanto apropriado às suas insignificâncias, submetidas ao destino implacável com o qual nasceram.
      Pela limpeza do habitat que incitamos ser sujos e destruídos, agora convenceremos à maioria inerte através do hipnotismo e da cantilena rasteira suficiente para obriga-los a caminhar como gado, zumbis errantes prontos a crer em qualquer palavra e a aceitar a qualquer comando sem raciocinar, porque a incapacidade de pensar os faz inferiores, inabilitados a participar da evolução iluminada, a não ser como lenha para ajudar a queimar a honra, transformar a razão em cinzas e empilhar a civilização em declínio em um abismo irrevogável, criando uma nova sociedade sob o signo do imponderável, da irracionalidade e suscetibilidade superficiais, tornando um “todo” em centenas de “minorias” que batalhem entre si, e que percam sempre, subjugados pelos nossos desejos; nós, os donos da Nova Era; nós, os cirurgiões da modernidade, os líderes supremos e eternos, dirigentes do planeta no qual vivemos e de todo o espaço que nos cerquem sob, sobre a Terra e em torno dela.
          Façamos a evolução, senhores! Irretocavelmente sejamos cruéis e mortais, porque não há revolução sem sangue... Desde que se trate de sangue alheio.



Marcelo Gomes Melo

 
 

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