As verdadeiras rainhas das pistas de dança e as
lagartixas
Já dançou, nos áureos
tempos, com aquele tipo de garota que te mantém afastado na pista de dança,
parecendo que tem nojo de você, só que é ela quem parece uma lagartixa nojenta
e pegajosa, fria e distante, que não sente a canção e não demonstra nenhum
tesão por você, pela música, diversão e muito menos pela vida? Um cadáver
ambulante assombrando os bailes juvenis.
Aquela monstruosidade com quem só se dança se perder o
sorteio, e ainda assim fica-se resmungando internamente, torcendo para que a
música acabe ou iniciem a dança da vassoura naquele instante, tirando de você o
desprazer que é circular com aquela boneca de plástico pelo salão, ficando com
a vassoura que, pelo menos não se importa de varrer o chão.
Esse tipo estranho frequentou todos os bailes do final dos
anos oitenta, acredite. Geralmente eram bonitas e inexpressivas. Apostavam que
a beleza decantada pelos pais e parentes era suficiente, e gostavam de servir
de inspiração platônica para os garotos tímidos que apenas observavam. Gostavam
de ser olhadas, não tocadas; eram incapazes de dar ou sentir qualquer tipo de
prazer. Amavam a si mesmas, mas à distância.
Mal sabiam esses fantasmas das pistas durante a seleção de
músicas românticas é que não bastava a beleza; o que valia era o calor. O amor
pela dança, pela diversão. Saber se encaixar entre os braços, coxa entre coxas,
os movimentos fluidos, o olhar de promessa cínica que dificilmente se
concretizaria... As mãos no peito, a respiração suave sentindo intensamente a
música. Era com esse tipo de garota que a dança se tornava inesquecível. E anos
depois ainda é possível fechar os olhos e sentir o perfume e o leve tremor nos
lábios que ela se permitia mostrar para completar o encantamento.
Marcelo
Gomes Melo
Eu
poderia até lhe contar, mas então teria que...
As mulheres querem
sempre saber de tudo, e sempre querem saber a verdade. Será que não imaginam o
quão perigoso isso é?
Um homem pode guardar para si grande parte das maldades do
mundo sem pestanejar, sem falar por horas reclamando, praguejando e se
lamentando. Chorar à toa é deprimente, desconfortável e indigno para um homem.
Não se trata de machismo, de forma alguma! Nas cavernas em que habito isso não
existe. O problema é atitude e percepção diferente de mundo.
As
mulheres querem sempre estar entre os que sabem de tudo. Mesmo que não tenha nenhuma importância
e não vá afetar suas vidas, preferem estar por dentro. “Como assim seu amigo
bêbado e fumante está com o fígado e os pulmões avariados e você nem me
contou”? Eu sempre disse para você não se envolver com ele, que era má pessoa!
Como permitem que ele jogue futebol e baralho com vocês?!
É
ele quem está doente, não eu! Eu não fumo e só bebo socialmente, como é que o
homem pode ser má influência, você pergunta timidamente, temendo produzir uma
série de sermões e brigas desnecessárias.
O
melhor exemplo de tudo isso é o daquela mulher que namorou o cara por anos e
anos, ficaram noivos e ela sempre insistia em saber o que ele tinha que fazer
todas as quartas-feiras entre 21h00 e 24h00, chovesse ou nevasse, desde que se
conheceram. Ele, sério, sempre respondia que poderia até contar, mas então
teria que matá-la. A moça sorria amarelo, mas não se conformava. Como o noivo
podia sumir toda quarta por três horas sem contar a ela, ou pelo menos levá-la
como companhia? Afinal esse mundo era tão perigoso... Como se ela fosse uma
guarda costas eficiente. Mas não haviam nem se casado ainda; melhor garantir-se
primeiro antes de infernizar a vida do rapaz.
Só
que o casamento veio. E com ele todas as garantias financeiras, afetivas e
legais que cobriam o seu direito à cobrança sobre os atos do marido. Então
começou a aterrorizar logo na lua de mel, insistindo para que ele contasse o
que ia fazer todas as quartas sozinho e aonde ia. A resposta, gentil, mas fria
era a mesma: até podia contar, só que teria que matá-la.
Com
o passar dos tempos o sorriso amarelo de conformismo e aceitação foi se
tornando um rosnado ameaçador, mostrando unhas e dentes, acelerando a voz
esganiçada sem parar n os ouvidos do homem, cuja calma estava sendo minada e a
tolerância abalada.
Até
que, em uma quarta-feira, ao chegar do compromisso noturno foi abordado pela
esposa de forma mais insistente e desagradável, repetindo as mesmas cobranças e
perguntas, cada vez mais agressivas e difíceis de suportar. A madrugada já ia
alta quando a resistência estoica do marido ruiu. Sentando-se na cama,
curvou-se e com os lábios alcançou a orelha da esposa. Atenta, ela sorveu cada
palavra que ele contou em voz baixa e tranquila. Arregalou os olhos, abriu a
boca em forma de zero, demonstrou todas as características femininas de
satisfação por descobrir um segredo alheio. Fez expressões de reprovação,
balançou a cabeça positiva e negativamente a seu tempo, até que suspirou por
longos minutos, ciente de tudo, de cabo a rabo. Quase um orgasmo; não, melhor
do que um orgasmo! Logo viriam os questionamentos intermináveis, a pressão para
saber mais detalhes...
O
marido vestiu o roupão, impassível, e foi até a cozinha, deixando-a na cama,
pensativa, vitoriosa, degustando o segredo. Quando ele retornou ao quarto ela
já estava preparada para iniciar o terror pelos detalhes. Abriu a boca e olhou
para o marido em pé ao lado da cama. Deparou-se com o cano escuro de uma arma
de fogo apontada para ela. A voz sumiu de sua boca e o sangue de seu rosto. Só
teve tempo para lembrar o que ele sempre lhe dissera desde o tempo de namoro.
A
polícia a encontrou morta com dois tiros no peito e um na cabeça, execução
profissional. Assassinato limpo, rápido e frio. O marido havia sumido sem
deixar vestígios ou impressões digitais em lugar algum. Jamais o encontrariam.
No
inferno, o diabo já pensava em transferi-la para a solitária, pois não
aguentava mais tanta pergunta sobre o marido que a detonara!
Marcelo Gomes Melo
É
tétrico. E continua.
Morreram.
Felizes e ignorando o valor das informações que carregaram em seus cérebros
tortuosos.
Faleceram.
Não sem antes espalhar pelo mundo os dogmas fúteis que lhes instigaram a crer
como um zumbido constante em seus ouvidos que logo ficaram moucos. E os fez
aprender a comunicação não verbal mesmo que estivessem de costas, comandados
pelo tremor da terra quando se aproximavam sorrateiramente. Um trem
descarrilado abalando as estruturas de aço dos grandes edifícios que guardam carneiros
vestidos como lobos, agindo como lobos, destroçando a carne uns dos outros e
massacrando ovelhas, fazendo-as acreditar que um dia chegariam ao status de
lobos.
Daí
a traição. A falsidade explícita e as atitudes covardes proliferaram por culpa
deles, e assim continua até hoje. Lucrar com a desgraça é mais importante do
que acabar com a desgraça. Uma multidão de desgraçados nojentos caminhando a
esmo, ouvindo e multiplicando bobagens e canalhices, deixando um rastro
inacabável de sangue por onde suas teorias nocivas e informações malditas
passam.
Lugares
inóspitos, hospitais sem médicos e sem macas, salas de aula vazias, sem alunos
e sem professores, igrejas destruídas e cultos inexistentes por falta de fiéis
e de guias espirituais verdadeiros... Apenas os shows de axé e sertanejo
americanizado lotados por tolos que expõem seus corpos enquanto se distanciam
cada vez mais de suas almas escuras.
Morreram.
Isso nada significa. Logo surgirão outros, piores dos que os que se foram
porque sabem ainda menos e creem ainda mais. Há uma névoa escura em torno do
planeta. A culpa não é do planeta.
Não
há espaço para reles destruidores, não há como salvar miseráveis nem com toda a
expiação que os acometesse em três vidas!
Tudo
é tétrico. E continua.
Marcelo Gomes Melo
As
luminárias que clareiam o caos
Há países que idolatram
cheiradores de cocaína, burladores do imposto de renda, vagabundos mimados,
manipulados fruto de uma imprensa corrupta desprovida de opinião, muito menos o
poder de formá-la com qualidade.
Por isso séries sobre zumbis fazem tanto sucesso, e Érico
Veríssimo previa há tempos que a ira dos
cadáveres insepultos acabarão por tomar o poder, visto tantas ratazanas
covardes atirando migalhas para formar subservientes aos montes, até que não
haja razão para que o mundo se salve.
Explosões fanáticas
matando inocentes, idiotas sem consolo se encolhendo ante a maldita corja que
cria a maldade que assola os países.
A chance de ser subjugado pelo universo, escravos de quem
viaja entre as estrelas pode ser a última ilusão de salvação. E ainda assim
acaba em derrota.
Marcelo
Gomes Melo
A
Era das paixões além da eternidade
Reza a lenda que a
princesa Yoko Sama
Caminhou por todo o Japão, anos a fio
Descalço, sem jamais tirar os olhos
Do deslumbrante Monte Fuji
Local
em que residiria o seu amor verdadeiro
Desprovido
de dor, desconfiança e tristeza
Enriquecido
pelos séculos
Imóvel
em suave resistência aguardando a sua chegada
E
a princesa jamais esmoreceu
Caminhou,
caminhou sem cansar
Tornou-se
rainha sem jamais renunciar ou desviar o olhar
Eis
que seus olhos cansaram, mas resistiram à luz e ao tempo
E
o seu corpo, de aço, jamais desistiu ou deixou de se curar
Até
o momento em que o monte se deixará derrotar
E
o seu amor eterno se transformará em pérolas
Que
encherão o outono japonês de perfume e beleza
E
de mãos dadas com seu amor
E
um sorriso terno em seus semblantes satisfeitos
Observarão
o surgimento de uma nova Era
Não
mais serão protagonistas, apenas parte dos desejos humanos
Dos
casais apaixonados ao redor do planeta
E
gotas de frescor molharão as manhãs renovando a esperança
Como
o tempo se move lenta e constantemente.
Marcelo Gomes Melo
Ignomínia: produtores de duplas caipiras
São como mães de misses,
cafetinando os molequinhos desde o berço, incentivando, até obrigando aos “bocas
abertas” a afinarem as vozes enquanto plantam tomates ou cortam cana de açúcar
sob o sol furioso com as injustiças da vida e com a ganância de pais que usam
as crianças como única moeda de troca com o mundo para enriquecer e passar a
possuir plantações como aquelas, com a intenção de expandir aescravatura de
mais e mais jovens.
Fazer com que os filhos frequentem a escola é absolutamente
secundário, afinal as duplas que hoje em dia nadam em dinheiro e dirigem
automóveis cujos painéis em inglês são impossíveis de compreender por quem
desconhece até o básico do próprio idioma. O truque é carregar no sotaque e
fingir que estão falando errado daquela maneira por puro charme, e não por
ignorância completa, fruto de escolha própria, pois dinheiro é mais importante
do que conhecimento.
Após serem treinados desde pequenos, como passarinhos em
gaiolas de mato, curtindo o couro e derretendo os miolos, tentam a sorte com os
caça talentos do interior, que proliferam como chuchu em busca de garotos com
nomes horríveis e coragem para cantar jingles de caldo de carne e embalar o
país com versos simplórios que produzem moedas. Então, ao escolher os novos
sucessos do mato, iniciam a estrangeirização comprando jeans importados estilo
pula brejo, tão apertados que os cabelos dos garotos se arrepiam e a voz fica
ainda mais fina e esganiçada; chapéu Stetson para texanos, cinturão com fivela
do tamanho da cabeça do incauto, geralmente um cavalo ou um boi; botinas de
salto alto, couro de cobra, bico fino com ponteira de aço e liberdade para
beber energético com uísque, virando um caipirão estrangeiro falso, visual
totalmente diferente do verdadeiro capiau do Brasil.
Realizadas tais ações,
vendem sem dor de consciência ao resto do país algo que nada tem a ver com a
cultura interiorana brasileira. Trata-se apenas de imitação barata e irrisória
da cultura alheia diluída para facilitar a aceitação e render dividendos.
Os pais ficam orgulhosos por terem vendido os próprios
filhos e apregoam a si mesmos como salvadores da pátria. As mães de misses
perderam terreno, visto que hoje há inúmeras outras maneiras de se negociar as
filhas, investindo inclusive em acessórios internos para o corpo, como silicone
e treinamento intensivo em exposição da vida íntima e pessoal.
A real canção de raiz brasileira, Cantada no interior,
valorizando a verdadeira cultura nacional restringe-se aos confins, nos
serviços de alto falante, escondidos das grandes metrópoles que desaprendem a
destacar o que lhe pertence em nome de consumir lixo comercial e industrial
realizados por inocentes que não sabem de nada.
Marcelo
Gomes Melo
Formas de amor do terceiro milênio
Uma garota gostosa,
linda, deslumbrante e sensual. Top model de primeira linha que fazia corações
parar apenas com sua caminhada letal. Abria talões de cheque apenas com o
balançar dos cabelos e valia cada cartão preto sacado nos bons restaurantes e
hotéis do mundo.
Para ganhar um simples oi dessa figura icônica e imponente
o cabra macho precisa vestir Armani, calçar sapatos italianosconfeccionados à mão, usar produtos
metrossexuais como cremes antienvelhecimento, fazer as unhas das mãos e dos
pés... Resumindo, não era prato principal para qualquer um.
Os empresários, jogadores de futebol ricos, especuladores
da bolsa de valores, seres ávidos por status e desejosos por penetrar no mundo
das grandes figuras dignas de sair com uma sereia encantadora como ela, a incluíam
nas orações todas as noites e ofereceriam a mãe como parte do pagamento para
tê-la por uma noite, acreditando ser a moça a verdadeira chave mestra para
invadir o mundo dos mega multimilionários possuidores do poder mundial
irrestrito.
Desejá-la desesperadamente foi a sina desse cidadão, rico,
mas apenas mais um no mercado de valores; tinha dinheiro mas não influência
suficiente para chamar a atenção da moça. Anos a fio comprou todas as revistas
em que ela saiu nua, cobriu de pôsteres as paredes de seu quarto e a reverenciou
por todo o período da flor da idade, com uma pontinha de esperança de, um dia
sair com ela.
Agora que a idade da profissional avançava e já não estava
no radar dos reis do petróleo e políticos de ponta, resolveu arriscar e,
através do contato com o empresário da diva deu um lance por um jantar
nababesco seguido de uma noite maravilhosa em um resort de luxo.
A resposta veio horas depois. Com alguns acertos
financeiros seria possível agendar o encontro e premiar o sonho do abastado
homem de negócios que frequentava o limbo dos endinheirados e alcançaria pelo
menos a fila para a antessala do inferno dos extremamente trilionários.
Um sorriso largo com
mais dentes do que juízo estabilizou-se
na face maltratada pelo tempo do homem, que imediatamente trancou-as no
escritório particular munido de calculadora científica e todas as aplicações
financeiras que tinha, inclusive nos paraísos fiscais. Estava determinado a
conseguir o encontro de qualquer maneira.
Oito horas de cálculos depois ele soube que para agendar
com a beldade uma noite de prazer teria que vender um rim. Nem titubeou.
Acionou seus asseclas no submundo e colocou o rim à venda para, após meses de
recuperação obter a noitada de amor mais sensacional do planeta.
Na noite perolada, com um rim a menos e um sonho a mais, o
homem desfilou com a delícia humana pela estrada do arco-íris. De braços dados
com a moça distribuiu sorrisos, brindou com champagne, ofereceu morangos com chantilly
e uvas suculentas. Não se importou com a ausência de conversa pela falta de
cérebro por parte da profissional; ela sabia fazer cara de inteligente como
ninguém.
Quando subiram para a suíte presidencial com intenção de
concretizar a noite de amor, ele flutuava de alegria. O que de mais maravilhoso
poderia acontecer com ele? Um homem que viera de baixo e que agora estaria por
baixo da mais desejada atriz e modelo de todos os tempos. Seu nome faria agora
parte do panteão de poderosos que a possuíram completamente. E se ela
resolvesse engravidar e tomar 80% de sua fortuna para criar o filho? Isso seria
sensacional, ele estaria eternizado!
O que mais, perguntava-se, o que mais poderia lhe acontecer
depois de tudo isso?! Não era religioso, mas agora acreditava que Deus existia.
Foi descoberto de manhã mergulhado em uma banheira recheada
de gelo, sem um pulmão e o fígado, mas com o mesmo sorriso fixo de prazer e
felicidade.
Marcelo
Gomes Melo
Aranha!
A noite ferve. A
temperatura é tão densa que eu poderia mordê-la. Recostado a um travesseiro
macio, na semiescuridão, mantenho o corpo esticado, os músculos tensos, os
olhos semicerrados. Gotas de suor deslizam por minha fronte, causando arrepios.
Mantenho a respiração lenta o quanto posso. Ofegante quando não dá mais para
controlar. No silêncio que antecede ao trovão, o meu respirar é como o vento
através das frestas nas cavernas pedregosas, desviando de estalactites.
O roçar no lençol me desestabiliza a ponto de meus olhos se
desviarem do ponto qualquer no teto e buscar, no reduzido campo de visão
horizontal a sua chegada iminente. Nada. Lábios secos, pensamentos
embaralhados. Posso molhar os pensamentos e desembaralhar a língua. Ou ao
contrário. Tanto faz.
Imagino suas formas anatômicas, eficientes e econômicas nos
movimentos, lindas de ver, melhores de tocar, apavorante de sentir! Adrenalina
pura sendo contida pela vontade férrea, como um dique prestes a explodir e
inundar toda uma cidade, tranquilizando uma civilização inteira no fim,
ansiedades destruídas pelo prazer irrevogável que encaminha à outra dimensão.
Enfim o toque. Sedoso,
no peito do meu pé; lentamente subindo, saboreando toda a área. Macia, algo
aveludada, eu sinto. Mordo os lábios por instantes, mas não irei reagir, como
prometi. Os pelos, sedosos em minha pele, se esfregam, molhados. Meu pé molhado.
Uma textura em camadas se encaixando em meus poros...
Agora subindo, alternando minhas pernas, num zigue-zague
erótico para a mente, que envia sinais intermitentes ao corpo, intensos. Minhas
mãos se fecham e se apertam, contrariando a vontade de reagir e tocar, pegar,
dominar. À altura dos joelhos uma curvatura sexy e uma leve pressão que
enrijece meus pés. Respiração presa em flagrante e contida em regime de
solitária. Um esgar de luz na janela fechada não permite descobrir o horário.
Tampouco importa.
Sobre minhas coxas. Sinto os sensores atentos,
experimentando o calor, se apoiando com leveza, roçando e conquistando. Espalhando
os odores de sua presença sem pudor, como se carregasse uma placa de “cuidado,
em altas doses posso matar”. Os movimentos sugerem sorrisos de degustação em
minha mente inóspita de pensamentos comuns!
No meu colo, como um balanço, sobe e desce oferecendo todo
o perigo que o mais corajoso homem poderia aguentar, cortando o meu silêncio
treinado com um gemido atormentado, interrompido pelos estertores inquietos de
um corpo quase em convulsão.
No umbigo mergulha, me molha, se esfrega e continua,
indolente e constante, sem se importar com o estômago que se contorce. Sobe
mais, pelo meu peito e pelos meus braços. Nos meus ombros, em busca de
encaixar-se em meu pescoço. Vai-se todo o ar. Permanece toda a expectativa.
Estou sobrevivendo! Sobrevivendo para requisitar o meu prêmio! Alcança o meu
queixo, meus lábios, que já não param, se recusam a manter o selo. Fecho os
olhos e o tempo congela, as sensações perdem qualquer adjetivo, somos sujeito e
verbo.
Não
tenho como pensar em nada e não existo sozinho nesse momento. É medo, é querer,
é o quê? Desespero que leva à morte! Sobrevida que dá aos fortes. Penso em não
me afogar, em subir para respirar sem sair da caverna que me mantém sob
estreita vigilância. Sobrevivo! Eu sei que é agora que começa o caminho que
leva ao paraíso!
Marcelo
Gomes Melo
Sobre amor e ódio
“A ação de odiar
equivale a tomar veneno e esperar que o alvo do seu ódio morra”, disse um
personagem de um filme cujo nome já não me lembro citando a algum filósofo de
quem já não sei o nome. O que importa é o conteúdo dessas palavras, que
transcende décadas e permanece atual, aguardando análise e reação.
O ódio parece ser o mais desnecessário dos sentimentos,
estúpido até, já que magoa a quem o sente bem mais do que à vitima. Isso nos
leva à tênue linha que separa ódio e amor.
O amor requer altas doses de grandiosidade e desprendimento,
porque também machuca a quem o sente, invariavelmente. A diferença é que
provoca belas expectativas, ás vezes até irreais, inalcançáveis, mas que no
caminho causam excelentes sensações, as quais alimentam e maravilham
independente de qual seja o final da jornada.
Importante lembrar que, em caso de amor não correspondido,
o sentimento pode transformar-se facilmente em decepção, tristeza e
impaciência, que juntos equivalem a uma indesejável mistura: ódio.
O apaixonado não correspondido pode se tornar um chato, um
inconveniente que atormentará a quem pensa amar demonstrando todo o seu
egoísmo, pois não se importa se é ou não correspondido. O amor faz bem a quem
ama, muito mais do que quem é, nesse caso, amado. O amor egoísta também
envenena e tende a virar ódio de ambas as partes, por não ser correspondido. A
vítima da paixão pode passar a odiar aquela atenção melosa, cega e excessiva,
repudiando até a simples presença da outra no mesmo recinto.
E o enlouquecido de amor, ao ser rechaçado transforma
facilmente o seu sentimento inútil em crescente e interminável ódio. Nas duas
alternativas estará envenenando-se, magoando-se e determinando para a sua vida
um lote permanente nas sombras, incapaz de se realizar e virar um ser humano
melhor.
O amor verdadeiro
carece de grandiosidade, por isso, quando não correspondido é imperativo
permanecer discreto, individual, platônico. Ele deve existir para admirar,
exaltar e apoiar, não dando chances para que a escuridão o atinja. É a forma de
permanecer puro e verdadeiro; mas não é fácil. E qualquer um o experimentaria.
O fato é que a forma de amor mais utilizada hoje em dia é o
amor volátil, o amor das celebridades, definido pela exposição de mídia que
oferecerá, lucro financeiro que possibilitará e polêmica que causará. Amor
genérico, que começa por causa das câmeras e termina por causa dos jornais e
revistas de fofoca. E quando for conveniente transforma-se em ódio.
Essas considerações são vãs, porque sofrem a influência de
inúmeras variáveis, mas acontecem de uma forma ou de outra, espalhando pelo
mundo falsas ilusões, cinismo e necessidade de proteção além dos limites, como
muitos o fazem, trancando-se para a alegria, desconfiando da própria sombra.
Tudo é insignificante quando se caminha no fio da navalha. Dependendo
do lado que se escolhe, instintivamente. É possível obter amor ou ódio. Há quem
pule de um lado para o outro, como pipoca.
Marcelo
Gomes Melo
Amaldiçoando
o ano novo
Ele decidiu uma vez que
todas as novidades causam uma sequência de coisas: primeiro o medo do
desconhecido, a tensão causada pela insegurança; em seguida a adrenalina quase
feroz da decisão, a imposição da vontade sobre o medo; o ardor da descoberta
vem depois. A delícia da utilização, o surgimento de novos parâmetros, a
vitória sobre a mesmice rotineira...
As novidades causam furor e exercem a falsa ilusão de
felicidade eterna, mas desgasta-se. Acontece não por ela em si mesma, mas pela
sede que causa em seus caçadores. Os novidadeiros não conseguem manter o foco
por tempo suficiente para desfrutar completamente, porque é um vício imediato,
que satisfaz tempo suficiente para ser descartado em nome de novas doses de
adrenalina e medo, coragem e satisfação finita.
O ano novo, dentro do que ele podia enxergar era assim. Ilusão
imediata para quem deseja corrigir falhas, chance de evolução pessoal e
profissional, até mudança no campo amoroso, por que não? Mas ele era um
opositor atroz ao modo como o ano novo era vendido. Não se descarta amores
antigos, perpétuos; não se modifica situações cronológicas apenas com o gesto
simbólico envolto em fogos de artifício.
Ele quis firmar em si mesmo a convicção de que era uma
ilha. Sim, uma ilha a ser habitada por todos os que compartilhassem suas
ideias, os seus temores e capacidades, só assim seria possível chegar à
felicidade. Só assim a ilha se conectaria aos continentes da alma e realizariam
projetos verdadeiros, centrados na realidade e não em promessas tão necessárias
quanto ópio para carneiros.
Então se recusou a beber e a olhar o relógio. Não respondeu
às felicitações e não felicitou. Não sorriu para o ano que viria. Não
cumprimentou as paredes e vetou seus ouvidos às canções populares sem sentido e
à visão dos fantasmas de branco com sorrisos atoleimados e ridiculamente
inseridos ao ambiente colorido, às conversas fúteis e ao vazio iminente.
A vida tinha que ir
além dos modismos. O mundo tinha que acolher os seus inquilinos de modo
igualitário, no que concerne a divisão de ar puro, água potável e soluções
diagnósticas benéficas. A hipocrisia tinha que ser menos do que acessório de
fábrica. Talvez extirpada para sempre dos meios humanos, já que não existe no
meio animal, de forma alguma.
Ele queria novas sensações, como qualquer outro ser humano,
mas preferia as sensações renováveis, como amor para sempre em cápsulas
imaginárias na corrente sanguínea, refazendo momentos maravilhosos e
oportunizando correções de rota, transformando desconfiança em mero ciúme e
mantendo as marcas das fases tristes como experiência eterna, para resistir
mais e suplantar sempre.
Não há ano novo, chegou à conclusão. Não existem listas
novas do que fazer para melhorar; não é possível recomeçar do zero sem carregar
as cicatrizes, nem todos são bonecos de plástico, só os que têm dinheiro e
disposição para sê-lo. É importante se conscientizar disso para transpor as
linhas invisíveis, soltar as amarras suaves que acorrentam o cérebro e soltar o
urro silencioso dos inconformados sem alterar o rumo constante dos inertes. Os
zumbis barulhentos das convenções sociais devem seguir seu rumo circular,
inacabável, até que os que rompam as linhas sejam maioria, aí a coisa será
diferente. E o ano deixará de ser novo para ser mais.
O mundo comemoraria então um ano mais. Mais pleno, mais
justo, mais, civilizado, mais pacífico, mais bem conservado, mais feliz...
Depois de decidir, ele bateu a poeira do jeans com certa
força, colocou seus óculos escuros e seguiu em frente, sem saber o que havia à
frente.