As verdadeiras rainhas das pistas de dança e as lagartixas




          Já dançou, nos áureos tempos, com aquele tipo de garota que te mantém afastado na pista de dança, parecendo que tem nojo de você, só que é ela quem parece uma lagartixa nojenta e pegajosa, fria e distante, que não sente a canção e não demonstra nenhum tesão por você, pela música, diversão e muito menos pela vida? Um cadáver ambulante assombrando os bailes juvenis.
          Aquela monstruosidade com quem só se dança se perder o sorteio, e ainda assim fica-se resmungando internamente, torcendo para que a música acabe ou iniciem a dança da vassoura naquele instante, tirando de você o desprazer que é circular com aquela boneca de plástico pelo salão, ficando com a vassoura que, pelo menos não se importa de varrer o chão.
          Esse tipo estranho frequentou todos os bailes do final dos anos oitenta, acredite. Geralmente eram bonitas e inexpressivas. Apostavam que a beleza decantada pelos pais e parentes era suficiente, e gostavam de servir de inspiração platônica para os garotos tímidos que apenas observavam. Gostavam de ser olhadas, não tocadas; eram incapazes de dar ou sentir qualquer tipo de prazer. Amavam a si mesmas, mas à distância.

          Mal sabiam esses fantasmas das pistas durante a seleção de músicas românticas é que não bastava a beleza; o que valia era o calor. O amor pela dança, pela diversão. Saber se encaixar entre os braços, coxa entre coxas, os movimentos fluidos, o olhar de promessa cínica que dificilmente se concretizaria... As mãos no peito, a respiração suave sentindo intensamente a música. Era com esse tipo de garota que a dança se tornava inesquecível. E anos depois ainda é possível fechar os olhos e sentir o perfume e o leve tremor nos lábios que ela se permitia mostrar para completar o encantamento.



Marcelo Gomes Melo



Para ler e refletir

À procura de mim          Estou sempre me procurando para argumentar comigo mesmo, mas nunca me encontro. Estou sempre e...

Expandindo o pensamento