Aranha!
 



          A noite ferve. A temperatura é tão densa que eu poderia mordê-la. Recostado a um travesseiro macio, na semiescuridão, mantenho o corpo esticado, os músculos tensos, os olhos semicerrados. Gotas de suor deslizam por minha fronte, causando arrepios. Mantenho a respiração lenta o quanto posso. Ofegante quando não dá mais para controlar. No silêncio que antecede ao trovão, o meu respirar é como o vento através das frestas nas cavernas pedregosas, desviando de estalactites.

          O roçar no lençol me desestabiliza a ponto de meus olhos se desviarem do ponto qualquer no teto e buscar, no reduzido campo de visão horizontal a sua chegada iminente. Nada. Lábios secos, pensamentos embaralhados. Posso molhar os pensamentos e desembaralhar a língua. Ou ao contrário. Tanto faz.

          Imagino suas formas anatômicas, eficientes e econômicas nos movimentos, lindas de ver, melhores de tocar, apavorante de sentir! Adrenalina pura sendo contida pela vontade férrea, como um dique prestes a explodir e inundar toda uma cidade, tranquilizando uma civilização inteira no fim, ansiedades destruídas pelo prazer irrevogável que encaminha à outra dimensão.

 

          Enfim o toque. Sedoso, no peito do meu pé; lentamente subindo, saboreando toda a área. Macia, algo aveludada, eu sinto. Mordo os lábios por instantes, mas não irei reagir, como prometi. Os pelos, sedosos em minha pele, se esfregam, molhados. Meu pé molhado. Uma textura em camadas se encaixando em meus poros...

          Agora subindo, alternando minhas pernas, num zigue-zague erótico para a mente, que envia sinais intermitentes ao corpo, intensos. Minhas mãos se fecham e se apertam, contrariando a vontade de reagir e tocar, pegar, dominar. À altura dos joelhos uma curvatura sexy e uma leve pressão que enrijece meus pés. Respiração presa em flagrante e contida em regime de solitária. Um esgar de luz na janela fechada não permite descobrir o horário. Tampouco importa.

          Sobre minhas coxas. Sinto os sensores atentos, experimentando o calor, se apoiando com leveza, roçando e conquistando. Espalhando os odores de sua presença sem pudor, como se carregasse uma placa de “cuidado, em altas doses posso matar”. Os movimentos sugerem sorrisos de degustação em minha mente inóspita de pensamentos comuns!

          No meu colo, como um balanço, sobe e desce oferecendo todo o perigo que o mais corajoso homem poderia aguentar, cortando o meu silêncio treinado com um gemido atormentado, interrompido pelos estertores inquietos de um corpo quase em convulsão.

          No umbigo mergulha, me molha, se esfrega e continua, indolente e constante, sem se importar com o estômago que se contorce. Sobe mais, pelo meu peito e pelos meus braços. Nos meus ombros, em busca de encaixar-se em meu pescoço. Vai-se todo o ar. Permanece toda a expectativa. Estou sobrevivendo! Sobrevivendo para requisitar o meu prêmio! Alcança o meu queixo, meus lábios, que já não param, se recusam a manter o selo. Fecho os olhos e o tempo congela, as sensações perdem qualquer adjetivo, somos sujeito e verbo.

 
          Não tenho como pensar em nada e não existo sozinho nesse momento. É medo, é querer, é o quê? Desespero que leva à morte! Sobrevida que dá aos fortes. Penso em não me afogar, em subir para respirar sem sair da caverna que me mantém sob estreita vigilância. Sobrevivo! Eu sei que é agora que começa o caminho que leva ao paraíso!
 
 
Marcelo Gomes Melo

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Expandindo o pensamento