Bang! Bang! Bang! Está morto!


          Eu agarro a minha arma e saio atirando a esmo, até ser detido por armas maiores que me atingem o peito diversas vezes.

          Saio de peito aberto como Butch Cassidy e Sundance Kid, disposto a tudo, sem temor algum, para me tornar vítima de um grupo de heróis do dia, que em seguida comemorarão com pizza grátis terem livrado a sociedade de mais um malfeitor que não merecia viver.


          Na sarjeta, o sangue que antes corria por minhas veias agora escorre lentamente bueiro abaixo. Vai alimentar os ratos que ali habitam, e tornam seu domínio tão escuro e fétido quanto a mente dos que se consideram superiores.
          O corpo, largado, sem vida, perfurado como um queijo suíço; os olhos vidrados fitam a lugar nenhum. Enxergam os seres diáfanos que observam misturados à multidão sedenta por morte que cercam o meu cadáver, felizes, murmurando teorias, dando graças por não estar no meu lugar.

          Tragam os abutres! Deixem que comam. Que façam o seu trabalho de livrar a natureza dos que são por ela excluídos, gratuitamente.


        Ah! Mas que ingenuidade, a minha. Isso não será possível, pois afetará o mercado oficial dos coletores de mortos que movimenta fortunas, mantém milhares empregados e alguns milionários. Não é possível  esquecer-se do valioso mercado dos cemitérios e seus acessórios, que torna uns poucos influentes muito cheios da grana, gerando impostos e, com isso, mais vida.
         O conhecido mercado do entretenimento também não pode ser

esquecido; sim, hoje informação, jornalismo e notícias são sinônimos de entretenimento! A ideia é faturar horrores reproduzindo a desgraça alheia enquanto vendem creme contra rugas, rejuvenescedores, nos intervalos.

       Todos precisam ver, ouvir, comentar, bradar contra o mundo em nome uma suposta melhora social, patrocinados pelos melhores produtos de limpeza.


          O que eu fiz? Pouco importa! Eu não matei, nem feri a ninguém, isso é certo. Não usei drogas, não bebi. Eu só peguei a minha arma e saí atirando a esmo, num dia nublado e frio, para provar um ponto de vista.


Marcelo Gomes Melo


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