O Papa é seu pai!



           E foi naquela sala sem janelas da delegacia de polícia, que continha uma mesa, duas cadeiras, um espelho falso e uma câmera no alto, em um dos cantos, que ele confessou.
          Estava nervoso, torcendo as mãos, olhos assustados como os de um animal selvagem encurralado, o suor na testa e os tiques nervosos denunciavam um homem fora de si, determinaram os detetives encarregados do caso, apenas por observá-lo.
          A denúncia anônima dera conta de um assassinato na avenida tal, número tal e desligara. Quando uma viatura chegou ao local encontrou o morto esticado no meio da sala do suposto assassino, vítima de cento e setenta e duas facadas e doze tiros, enquanto o homem, sentado em uma poltrona junto ao presunto, coberto pelo sangue do cadáver olhava o além, completamente em choque.
          Não foram encontrados os instrumentos que causaram a morte; nem a faca, nem a arma de fogo. Crime motivado por ódio, sem dúvidas. O suposto assassino não ofereceu resistência, acompanhou os policiais até a chefatura sem dizer uma palavra sequer. Aquele era um indivíduo transtornado.
          Quando os interrogadores entraram na sala, ele admitiu, sem ser perguntado, sem fazer contato visual com os detetives, ter assassinado o miserável.
          Os detetives apenas pediram detalhes do assassinato, e ele contou, com voz nervosa, parando de tempos em tempos para conter os soluços. 



         Era viciado em álcool desde os 20 anos, dissera. Aos 30 ingressara em um programa dos alcoólicos anônimos e passara a frequentar o salão dos fundos de uma igreja. A partir daquele instante a sua vida melhorou, porque encontrou forças para abandonar a bebida e partilhou suas desventuras com pessoas que apresentavam os mesmos problemas. Enquanto era ajudado podia ajudar, em contrapartida. Tudo ia muito bem até que um cara (a vítima) apareceu na rua em que as reuniões se realizavam. Ficava bem em frente ao salão, só que do outro lado da rua, com uma carrocinha dessas de vender pipoca; mas, em vez de pipoca vendia todos os tipos de cachaça existentes, e groselha, inclusive, para misturar.
          A partir dessa noite o terror se instalou na vida daquele homem que estava em plena recuperação, e passou a ser atormentado gratuitamente. Um dos detetives quis saber se o problema fora a tentação de voltar a beber, se o vendedor oferecia cachaça a ele por pura maldade, já que se instalara justo em um local de reuniões.
          A resposta foi negativa. O vendedor não oferecera nada a nenhum dos participantes das reuniões e apenas se dirigia a ele, insistentemente, repetindo sempre a mesma frase enigmática:
          - Ei! O Papa é seu pai!
          Os detetives trocaram olhares, surpresos, tentando conter o riso a todo custo. Indiferente a eles, o detido continuou a falar. Essa ladainha se repetiu diariamente pelos próximos cinco anos; sempre a mesma frase seguida de um sorriso irônico, de zombaria, que foi se tornando uma acusação. Isso o fez passar a ter pesadelos horríveis; suores noturnos; a vontade de beber voltou com tudo. As mãos tremiam incessantemente.


        Trouxeram-lhe água. Ele bebeu avidamente e depois continuou a falar. Finalmente, sem aguentar a pressão, resolveu confrontar o vendedor. Ao sair da reunião no domingo à noite foi direto para a carrocinha de bebidas. Embora surpreso, o vendedor repetiu a frase, sorrindo debochadamente:
             - Ei! O Papa é seu pai!
           Ele não respondeu; pediu um trago. Bebeu de uma vez. Mandou descer outra. Quando estava quase detonando uma garrafa inteira de pinga com groselha, o vendedor comentou, assoviando:
          - Eita, que esse filho do Papa bebe bem! – e soltou uma gargalhada gutural.
          Foi o gatilho que deflagrou o ódio reprimido. O cérebro inebriado e a raiva comprimida em todo o seu ser já não podia mais ser contida. Sacou o revólver e apontou para o cínico, que deixou a gargalhada morrer no fundo da garganta, arregalando os olhos, temeroso. Uma coronhada na cabeça o convenceu rapidinho a largar a carroça e seguir o seu algoz até a residência em que se deu o crime.
          Ele queria saber a razão. Que papo era aquele de filho do Papa? Era algum código? Ou desembuchava ou morria! Estava determinado a arrancar uma retratação do maldito, um pedido de perdão que expurgaria suas mágoas. O que veio o surpreendeu além da conta! O difamador tinha uma explicação, não um pedido de desculpas!
          - Como assim?! – os detetives se espantaram e estavam curiosos como uma dupla de Candinhas à janela.
          Começou a contar sobre um jovem padre de uma pequena paróquia na América do Sul que conheceu uma jovem ovelha brasileira, linda de morrer, passeando pelos Andes, e fez uma amizade maior com ela. E nos fundos da igrejinha, em um quarto simples e pobre, se conheceram biblicamente.



          E concluiu me indagando se eu não sabia por que meu nome era Ângelo. Foi a risada. Foi a gargalhada tétrica que ele deu que me impulsionou para a desgraça! Meti bala no desgraçado e perdi a noção do tempo e lugar. Só me lembro de recobrar a consciência horas depois, com uma faca de cozinha ensanguentada na mão e a voz dele sussurrando alguma coisa em meu ouvido...
          - E onde estão as armas do crime? – perguntou um dos detetives.
          Ângelo balançou a cabeça negativamente Após o silêncio que se seguiu entre eles alguém bateu à porta e entregou um papel ao detetive que estivera em pé o tempo todo. Ele leu por um momento e informou ao colega e ao assassino em voz alta:
          - O legista encontrou as armas do crime. Dentro do morto.
          Ambos se entreolharam novamente e aguardaram uma reação de Ângelo, mas não houve nenhuma. O detetive que estava sentado buscou concluir o interrogatório:
          - O que ele murmurava em seu ouvido enquanto estava morrendo? Que o Papa era seu pai?
          - Não... – e ele finalmente ergueu os olhos vermelhos, fitando os policiais – Dizia que era meu irmão.



Marcelo Gomes Melo

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