O Programa do amor perfeito


          Esse tipo de programa em canal aberto, em que repórteres sorridentes e despojados correm atrás de matérias leves, divertidas, apaixonantes; ou exatamente o contrário. Tudo depende do público  a quem desejam atingir. E esse programa específico entrevista casais comuns para que contem suas experiências pessoais, deleite a audiência com suas histórias românticas e comoventes, entremeadas com peças de marketing bem encaixadas e um singelo prêmio aos participantes no final da entrevista.
          Nesse episódio, as luzes se acenderam, a produção conferiu os detalhes e o diretor deu o aviso. Pronto, estavam no ar! Um cidadão de terno era só dentes pra fora, tentando imitar Silvio Santos e parecer inteligente e engraçado enquanto mandava o primeiro comercial da noite; na sequência, a moça loira com batom destacado chacoalhava as madeixas de um lado para o outro, segurando outro produto imprescindível para as donas de casa de todo o país.
          Logo veio a introdução do programa, apresentando as atrações que desfilariam pelas duas horas dali em diante, a atração musical, uma banda com uma mulher vestindo o short da filha de doze anos e quinze caras vestidos de roupa vermelha e quilos de joias, anéis, correntinhas espalhados pelo corpo. A plateia urrava quando um camarada erguia uma placa lhes dizendo o que fazer; na primeira fileira, jovens de minissaia tentando sorrir, gritar e cruzar as pernas ao mesmo tempo, aplaudir e manter a compostura.
          Foi quando o apresentador de paletó, com cabelos bem penteados e esculpidos pelo gel que patrocinava o programa empostou a voz e chamou o primeiro casal da noite. Eles entraram aplaudidos por todos, um tanto envergonhados. O rapaz simples, com roupas de ir à igreja no domingo, e a garota com a roupa da moda nas feiras livres do bairro, sorrindo timidamente, mas extremamente feliz com os seus quinze minutos de fama. Colocados exatamente na marca em que foram instruídos nos ensaios, ela já adiantou um dos pezinhos e colocou as mãos cruzadas atrás das costas, do jeito que lhe ensinaram no curso de modelo de uma semana que fizera quando era adolescente. O rapaz não sabia para que lugar olhar nem o que fazer com as mãos, até conseguir enfiá-las no bolso do jeans como dava, encolhendo os ombros e olhando por baixo das sobrancelhas, como uma tartaruga, diriam alguns.


        A apresentadora loira, balançando os cabelos e sorrindo como um tubarão de desenho animado fez as apresentações à plateia e já começou a entrevista, concentrando-se na mulher:
          - Então essa linda história de amor de vocês já dura três anos, é isso?
          - Sim. – respondeu a moça, sorrindo. O rapaz apenas concordou com a cabeça, mudo.
          - E segundo a produção nos avisou, vocês se conheceram em uma situação diferente, não é mesmo? – novo balanço de cabeça, aquiescendo – Foi amor à primeira vista?
          - Sim... A primeira vista. – sorriu a moça, repetindo as palavras da apresentadora.
          - Foi uma sorte vocês estarem no mesmo lugar, no mesmo dia e na mesma hora, não é mesmo? – a loira do sorriso de tubarão insistia em tentar tirar alguma informação dela.
          - Foi, sim, muita sorte. – mais sorrisos e nenhum conteúdo.


        Percebendo que daquele mato não sairia coelho, o diretor ordenara ao apresentador que entrasse na conversa e falasse com o homem, para ver se dele conseguiriam informações interessantes que chamasse a atenção e mantivesse a audiência. Então, após mais uma rodada de comerciais, o aprendiz de Silvio Santos entrou de sola no rapaz, posicionando o microfone entre o nariz e o queixo dele, mandando logo uma pergunta fatal:
          - Vou falar com a parte masculina dessa relação tão maravilhosa, que com homem é pouco papo. Homem, vocês sabem, fala pouco, mas fala bonito; as mulheres ficam dando voltas, mas o homem, não. O homem, quando perguntado já manda logo a resposta sem mais delongas, não é isso?!
          A plateia aplaudiu como se ele houvesse proferido as palavras mais interessantes do mundo em mil anos! E caíram na gargalhada, como o cartaz os instruía a fazer. Então o apresentador continuou, os dentes brilhantes quase encobrindo o microfone.
          - Me diga lá, meu camarada, sem medo de errar! Em que lugar vocês se conheceram? Em que lugar sensacional vocês tiveram a sorte de encontrar o amor pela primeira vez e para sempre,meu caro? Fale para o povo que deseja saber da sorte de vocês. – e sem esperar a resposta – É verdade que entraram em contato em  uma das lojas de automóveis mais barateiras do mundo? A loja que patrocina nosso humilde programa e tem o prazer de prestigiar nossos telespectadores? A loja que além de descontos oferece sorte no amor? É isso, meu caro, fale que o povo quer lhe ouvir!
          - Sim... Foi nessa loja de automóveis multimarcas. – respondeu o rapaz; claramente havia decorado a frase com dificuldade,mas saíra.


            - Ah, que lindo! – sorri a loira tubarão – E como foi que tudo deu certo entre vocês assim, tão sensacionalmente?
          - Bom, dona... – respondeu o rapaz – Estávamos lá quase que pelo mesmo motivo... – pausa. A tubarão e o aprendiz de Silvio sorriam esperando que ele completasse - Ela queria um Picasso e eu queria uma Besta, então...


Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Relato poético de um detetive de homicídios             Desmaiou ao ver aquela compilação de vidas extintas exposta no mesmo loca...

Expandindo o pensamento