O que você quer ser quando crescer? Ladrão!
 

- Meu filho, o que você quer ser quando crescer?

- Ladrão.

- O quê?! Ladrão por quê?

E assim começou a conversa que provou que o garoto estava se adequando a todos os requisitos sociais que o incluiriam no rol dos jovens com chances de serem bem sucedidos profissionalmente, preocupação de qualquer pai de hoje em dia, nesse mundo em caos.

O menino se adaptara facilmente a todas as ferramentas tecnológicas que adquiri pensando em auxiliar o seu desenvolvimento como ser humano; demonstrou enorme destreza manuseando computadores e celulares, surfando à vontade, livre e espertamente pelas redes sociais de todos os tipos, interagindo com seus pares e aprendendo truques lícitos e ilícitos para se dar bem burlando leis, driblando regras e levando vantagem em tudo, atropelando a tudo e a todos indiscriminadamente.

Ainda assim, a resposta fria, clara e cristalina a respeito da profissão escolhida me surpreendera. Um golpe no fígado de quem perdera noites de sono traçando metas e planos para transformá-lo em um homem de bem, responsável de seus deveres e consciente de seus direitos. Bem, pelo menos pensando em oferecer todas as alternativas para solidificá-lo como um homem honesto e cumpridor de seus deveres. E agora essa! Mas, isso merecia uma explicação imediata.

- Ladrão. Por que ladrão, meu rapaz?

A resposta foi de bate pronto, sem receios nem dúvidas. Apenas argumentação simples, real, acompanhada de fatos comprováveis. Apenas constatação dos motivos para a escolha.

Um ladrão não paga imposto. Não vota, portanto, não compactua com os bandidos de alto coturno que dizimam o país e seus cofres sem remorso ou piedade. Um ladrão não é hipócrita de criticar aos outros quando na verdade deseja estar no lugar deles, fazendo ainda pior em proveito próprio. Pode roubar de volta, dar o troco em vez de sofrer a frustração extrema de não ter a quem recorrer quando desprovido de seus bens, visto que são assaltados oficialmente, portanto equivaleria a se quebrar aos ladrões superiores.

Um ladrão não precisa demonstrar conhecimentos formais para aumentar o status pessoal; ao contrário, prefere esconder seus talentos para si mesmo.

Meu rosto estava cor de vinho e um nó na garganta me impedia de falar. Será que todas as ferramentas que ofereci para aperfeiçoar seus conhecimentos só serviram para transformá-lo em um cínico que aprendera a ver o mundo exatamente como ele é, e tomara uma posição completamente contrária ao que eu esperava? E além disso, os fatos me estrangulavam a ponto de não ter coragem, ou fatos melhores para contra argumentar e desconstruir esse desejo vil demonstrado por meu filho bom?

Ainda assim, suado e de olhos vermelhos, eu tinha a obrigação de tentar, em nome da honestidade, da civilidade e decência. Com o cérebro trabalhando a mil, murmurei com a voz distorcida, meio em câmera lenta:

- Meu filho... – ao que ele interrompeu automaticamente, pensativo, mais consigo mesmo do que comigo.

- Quem é que poderia me julgar, pai? É a escolha óbvia! – e me abraçando, concluiu suavemente, mas com firmeza.

- Pensando bem, essa profissão não me serve, pai. Deus poderia me julgar. E eu teria que prestar contas a ele...

 

                                Marcelo Gomes Melo
 

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