“Da arte de lamber botas”

 

          Os círculos acadêmicos teoricamente existem para abrigar um seleto grupo de pensadores que, banhados pelo saber teórico adquirido através de muitos estudos obtêm uma autorização especial para “passar de fase” e filosofar livremente, criando regras que ajudem a melhorar a vida dos desfavorecidos.

          Pense em uma pirâmide, na qual a base é repleta de “comuns”; pessoas sem qualquer dom especial que as diferencie das outras, sem acesso a uma cultura que as permita galgar novos e mais fechados círculos, cada vez menores, com maior qualificação para discutir rumos e rearranjar políticas que decidam a vida dos outros.

          Agora imagine que a cada círculo pequeno ao qual se tenha acesso, ganhe com ele maior arrogância e um distanciamento gigantesco em relação à base da pirâmide. Os tais pensadores criam fórmulas sensacionais tendo como ponto de partida o que “acham” que a base deseja, ou o que acreditam que a base quer; se arvoram de leitores do pensamento alheio, afinal adquiriram tais direitos através dos títulos!

          Finalmente atingem o topo da pirâmide, e por lá se fecham em suas torres de marfim, o Olimpo dos diferenciados à custa de muita “citação” de superiores que devem ser adorados indiscutivelmente, incondicionalmente como requisito primordial para ser aceito naquele mundinho dos privilegiados intelectuais: para que suas ideias sejam aceitas e sua voz seja ouvida, lamba as botas dos maiorais, adquira apoio através da aquiescência completa e subserviência plena, ajuste o seu modo de ser e de pensar aos moldes do círculo acadêmico principal e só então poderá ditar regras, olhando de binóculos para os seguidores de suas regras, ignorando as necessidades e a realidade em que vivem, e ainda demonstre a certeza plena de que seus moldes funcionarão, mesmo presenciando um caos permanente que apenas dificultará novos membros da base da pirâmide a alcançar espaço em um novo círculo acadêmico.

          E a história se repete ad eternum: ditar normas sem conhecer as necessidades de quem irá segui-los, sem presenciar suas dores e seus anseios é como acrescentar pimenta malagueta em doses cavalares ao conteúdo de um caldeirão fervente do qual jamais experimentarão.

 

                                                 Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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