Histórias de casais II: Anaconda
 

          Uma rodada de saquê. Foi a deixa para Arlindo Brown, assim chamado pelos amigos por ser considerado um sósia e descendente de James Brown e antecedente de Mano Brown. Principalmente pelo corte de cabelo. De verdade, de verdade, ele jamais penteara os cabelos como James Brown, era pura sacanagem dos amigões. Mas dançava como James Brown.

          - Como podem atestar meus fãs – começou Arlindo, sem modéstia – O módulo humano de mais sucesso entre as fêmeas do universo, ou seja, eu mesmo, ajudou a sorte dessa linda moça conhecida por Nanda a me encontrar enquanto fazia a feira da semana com a gárgula.

          - Gárgula?! – indagaram as outras duas

          - Não fala mal da minha mãe! – protestou Nanda dando-lhe uma tapinha.

          - Ela atropelava as pessoas com aquele carrinho cheio, amassando pés e fraturando dedões sem condescendência! – insiste Arlindo – A velha é uma anaconda! Vai comprar um cacho de uvas e experimenta dois, de graça. Vai comprar um quarto de uma jaca e devora os outros três sem pagar, como teste! – risos gerais – Imaginem aquela cobra que engole um hipopótamo e depois hiberna por  meses! Só que os meses dela duram apenas uma semana!

          - Quem hiberna é urso, tonto! – retruca Nanda, sorrindo

          - Vocês se conheceram em uma feira?

 
          - Sim, Linda, sim! Na banca do abacate, enquanto a mãe dela amassava as frutas, comia com casca e cuspia os caroços. Cheguei discretamente e elogiei os melões.
          - Na banca do abacate?!
          - Discretamente mesmo, com aquele paletó de lantejoulas e purpurina dourada – lembrei, cruelmente.
          - Você, discreto? – rebateu Nanda – Olhando meu decote ostensivamente e sorrindo como um lobo mau, com aqueles cabelos...
          -... Escorridos e divididos ao meio, como James Brown. Ele usava alisabel – Crescêncio completa, maldoso.
          - A mãe dele confirmou que ele passava o cabelo a ferro – informei, e caímos na gargalhada.
          - Aliás – rebateu Arlindo – Quem fornecia o alisabel e o ferro de passar roupa eram suas amadas mães. – Arlindo não perdoava. – Continuando... Quando me viu em todo esplendor ela não resistiu e ficou caidinha por esse servo de Deus que vos fala.
          - Caidinha? Foi você quem caiu! – Nanda tem uma crise de riso ao lembrar.
          - Eu estava lá! – gritei entre a risadaria – A Nanda tem razão! Você meteu a testa na quina de madeira da cobertura da barraca e se esparramou no chão, desmaiado.
          - Minha nossa! – as meninas estavam pasmas
          - Parecia uma enorme lichia dourada com um galo gigantesco na testa! – Nanda se divertia ao contar – E minha mãe, a anaconda, foi quem socorreu o desgraçado, colocando gelo da banca de peixe na testa dele.
          - Eu e o Crescêncio o carregamos para o apartamento da mãe da Nanda, ali perto – contribuí com a história – Com a tinta da cabeleira escorrendo por causa do gelo na cabeça...
 
          - Ele usava tablete Santo Antonio para tingir – Crescêncio informa calmamente – A gente perguntava: “Quem é você”? E ele respondia: John Lennon!
          - Só não lhe digo quem é que tinge os cabelos e em que local específico por respeito às moças e ao ambiente, Crescêncio, seu traíra! – era Arlindo, falsamente indignado.
          - Foi assim mesmo – afirmou Nanda – Ficou três dias lá em casa, elogiando a comida da minha mãe e jogando damas com meu pai. Depois o flagrei dançando funk usando o pijama do meu pai e aquele paletó horrível por cima.
          - Os cabelos sem o ferro de passar ficaram a La Tony Tornado... – complementei, erguendo o copo.
          - O que você não diz é que dançou lambada na horizontal comigo lá mesmo, no quarto hóspedes, não é? – acusou Arlindo mordazmente, fazendo Nanda sorrir sem jeito. – Conversa vai, conversa vem... Me dei bem! – beija a namorada carinhosamente – Agora o mundo está melhor!
          - Vamos pedir? – falei, fazendo um gesto para o garçom.
          - Não pense que não irão contar como se conheceram! Ainda falta vocês dois! – Linda e Nanda cobraram.
          - Quem conta, eu ou você? – perguntei, olhando para ela com um sorriso malandro.
          - Você conta! – Crescêncio e Arlindo uniram as vozes para decidir com veemência – Não pense que vai escapar dessa!
          Esfreguei as mãos e bati palmas uma vez, para restaurar a memória e iniciar o registro da minha história de amor... Risos.
 
Continua...
 
Marcelo Gomes Melo

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