De natal a natal




           O fato é que morremos um pouco mais a cada dia sem nos darmos conta, cada um aferrado aos próprios conceitos, ou desprovidos de conceitos, comprando moda e vendendo hipocrisia, nos enganando enquanto o tempo passa e os acontecimentos nos distraem, como um ilusionista durante o truque.

           Durante o período de um ano quantas vezes paramos para cair na realidade, analisando o propósito do que fazemos a utilidade de nossas atitudes sem cairmos na mais profunda depressão?

          Sim, porque a doença do século XXI, a depressão acomete indiscriminadamente a qualquer pessoa, de qualquer idade ou credo, raça e status social. E muitos nem percebem ou desconfiam do mal que os incomoda, por causa da dificuldade de ser expresso em meras palavras. Trata-se de um mal silencioso.

          As pessoas enganam a si mesmas, ficam dormentes e perdem a capacidade de notar as catástrofes mundiais, regionais e até pessoais; isso as coloca à margem do próprio destino. Preferem ironizar, ignorar ou acreditar cegamente nos que detém o poder de influenciar a vida de cada um, criticando sem agir, se eximindo de culpa como se não participassem do mundo.

          O tempo, voraz, dissolve a matéria lenta e inexoravelmente, afetando a forma como os seres vivos interagem com o planeta. O planeta não morre. Os seres vivos, sim.

 
          Toda essa divagação serve apenas para sugerir que todos deveriam transpor a fase da hipocrisia, que faz com que nos manifestemos de acordo com o que a sociedade espera, nos moldes ditados pela mídia distribuidora de lixo, que devasta padrões morais e modificam o significado de ética, e passemos a agir de acordo com o coração; de verdade, não o fingimento padronizado e mentiroso.
          Que consigamos ir além das palavras repetidas de natal a natal, da falsa preocupação com os descamisados e mal arranjados quando somos todos desconsolados, frágeis de estrutura e pensamento. Poucos são os que realmente vão além da superficial preocupação e agem, sem saber que estão sendo observadas e sem segundas intenções, para se tornarem famosas e humildes profissionais. Presenciei um exemplo passando em frente a uma enorme igreja em que, na calçada jazia um farrapo humano, sujo, seminu e claramente alcoólatra, ignorado por todos os passantes, inclusive os que saíam da igreja. Entretanto, uma senhora que não vinha da igreja, alguém comum, parou e indagou ao homem como se sentia, se tinha família, qual era a razão para estar ali abandonado... Ela não tinha nada em mente a não ser ajudar. Estava se importando e não porque era fim de ano, mas porque era de sua natureza. Não precisava ser religiosa ou política ou nada, apenas uma pessoa tentando fazer algo para ajudar, nem que fosse conversar com a pessoa, dar-lhe atenção, fazê-la sentir-se humana.
          A conexão com Deus é mais simples do que se imagina e não requer intermediários, mas palavras vazias afastam; dissimuladores e dissimulados continuam no controle. O natural seria que as pessoas voltassem a confiar uma nas outras, que a ajuda fosse sempre recíproca, sem exigências, sem negociações, sem ilicitudes. Apenas o caminho comum. De natal a natal.
 
 
Marcelo Gomes Melo

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