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Instruções exacerbadas:Medo de avião

 
 

 
         Era a primeira viagem do astro da música caipira do momento, vertente conhecida como punkpira, a um país diferente; a primeira vez em que o garoto, que só tinha viajado montando num jegue toda a sua vida estava em um avião.

          Com seu enorme chapéu de cowboy americano com o logo publicitário de um enorme veado estampado, o camarada flutuava de alegria entro do avião, hipnotizado com os cubos de gelo que via pela primeira vez na vida. Quando vira seu empresário colocando os cubos no copo, perguntara alarmado se ele iria comer vidro, mas logo se convencera de que era apenas pedra d’água.

          O cantor era um enorme clichê ambulante, bastante bem treinado como qualquer jogador de futebol. Se perguntado por qualquer repórter como estava se sentindo, responderia aos trancos, entre gaguejos e sorrisos que “um filme estava passando por sua cabeça e lembrava-se das plantações de cana nas quais trabalhava, na primeira botina de plástico vermelha que comprara a prazo para fazer um show em um rodeio de porcos...”

          O astuto empresário, experiente e viajado, cuidava de tudo e o astro punkpira não tinha que se preocupar com nada além de seguir todas as instruções sem pestanejar e colher os louros da fama, riqueza e felicidade. Ele sabia que estava na hora de passar as instruções ao pupilo antes que chegassem ao seu destino, local em que faria a sua primeira aparição estrangeira, difundindo a cultura diferenciada pelo mundo. O rapaz parecia tão confiante e tranquilo examinando os cubinhos de gelo antes de chupá-los que resolveu puxar o celular e registrar uma pequena brincadeira que faria com ele. Serviria para passar o tempo durante a viagem. Antes de descerem do aeroplano contaria a verdade e ririam juntos; por hora iria tirar um sarro de seu ingênuo e humilde superstar.



 
          - E então, “Cipó das candongas”, está tranquilo? -  Cipó das candongas era o apelido do astro nas redes sociais, por ser magrelo, alto e cercado de celebridades; ele costumava rabiscar isso em seus pôsteres a título de autógrafo para as fãs – Com medo de viajar de avião?
          - Ara, sô, filho de Maria mais eu! Lá sou homem de ter medo de nada! Isso é meio do que montar em touro brabo! – jamais havia montado em touro algum, mas fazia parte de seu personagem público, e ele acreditava piamente.
          - Por falar nisso, Kid, tenho pequenas instruções a lhe passar. Preciso que preste bastante atenção e não se esqueça de nenhuma, pois disso dependerá a sua vida quando chegarmos ao país dos outros.
          - Ara, então fala logo, que eu quero continuar vivo para as minhas fãs! – o sorriso bovino era claro e exalava confiança.
          - Pois bem. – o empresário, que ocupava a poltrona ao lado da janela vira-se para encarar o astro, sentado na poltrona do corredor, para iniciar os conselhos – Primeiramente jamais, por motivo algum acene para o público desse país com as mãos espalmadas, dedos separados, dando tchauzinho; isso é perigo mortal.
          - Mas é assim que aceno para as multidões em todo lugar! Por que não posso fazer?
         - Nesse país – explica seriamente o empresário – Considera-se uma ofensa inigualável esse tipo de aceno, Morenão! – era outro de seus apelidos, morenão – Se acenar na direção de um público masculino indicará que você quer transar com eles de forma selvagem, e se houver mulheres com eles, significará que está pedindo para fazer o mesmo com ambos!
          - Nossa mãe! – de olhos arregalados, o bom cantor acena com a cabeça, surpreso – Então não farei isso, sou besta não, rapaz! – depois de pequena pausa, pergunta – Mas, e se eu me esquecer, o que acontece?
          - Provavelmente os atiradores de elite do governo que estarão posicionados para nos proteger lhe transformem numa peneira humana, cheia de furos!
          - Meu santo canjerão! Quero morrer não, sô muito jovem! – a voz soara mais esganiçada do que o normal. Percebendo que a brincadeira estava colando, o empresário se anima em ir mais longe.
          - Mas pode ser pior. A noite você pode ser sequestrado em seu luxuoso quarto de hotel e levado a um porão, no qual será pendurado pelos polegares, sem roupa, cercado por mulheres de 1,80m, musculosas como lutadoras de MMA, sorrindo de modo lascivo, mascando chiclete, armadas com lâminas de barbear cegas e enferrujadas para arrancar os pelos de seu corpo com a pele junto.
          O astro aperta o braço da poltrona com força, instintivamente dando um sorriso amarelo e pedindo uma vodca dupla à comissária de bordo. Estava apavorado. Sério, o empresário conclui:
          - Não escutarão os seus gritos agonizantes pois todas estarão com fones de ouvido, com sua música nova tocando bem alto em seus ipods.
          - Pode estar certo de que não esquecerei isso! Vou descer desse avião com as mãos no bolso, não tiro nem para fazer xixi. Valha-me Deus!
          - Bom para você, Morenão, bom para você... Mas não é só isso. – a câmera do celular registrava a tudo. Tiques nervosos surgiam no rosto do rapaz.
          - Não?! PELAMORDEDEUS me diz que mais eu não posso fazer!
          - Não pode sorrir. – a cara que ele fez foi impagável, mas o empresário controlou o riso – Nesse país um meio sorriso pode ser tomado como uma ameaça. Significa que você quer sodomizar as mães de políticos enquanto eles são chicoteados por representantes das minorias, acorrentados pelos tornozelos a pesados cofres de metal cheios de pedra em vez de dinheiro.


          - Isso até seria divertido de ver –diz ele, pensativo – O povo me adoraria por isso!
          - Sim, mas antes que o povo lhe adore em vida, você descobrirá no meio da noite que o seu colchão foi recheado com dinamite. De início ouvirá um zumbido e depois as sensação de estar sendo arremessado ao céu; mas antes que o alcance retornará ao quarto em forma de uma tempestade sangrenta de gordura e entranhas. Terá que ser enterrado dentro de um liquidificador.
          Ofegante e branco, o rapaz pega a vodca dupla e entorna de um só gole, usando-a para engolir algumas pílulas para dor de cabeça junto com algumas pílulas azuis e outras para controle de ansiedade e epilepsia.
          - Nada de meio sorriso, então! – consegue dizer entre crises de tosse, ficando quase roxo.
          - Sorriso aberto muito menos, Morenão! – o empresário quase não podia mais engolir o riso. Já tencionava vender o vídeo com a brincadeira como item para fãs colecionadores de momentos íntimos do astro – O sorriso aberto em público é um acinte ainda maior! – vendo o desespero instalar-se no rosto de seu artista, branco como vômito de porco, com os lábios arroxeados e trêmulos e o olhar vidrado, finge não notar e continua a explanação – O sorriso largo e descontraído para esse povo equivale a dizer: “Vou usar as folhas de seu livro sagrado para enrolar uns baseados, seus trouxas!”.
          - Pela Nossa Senhora dos violinos quadrados! – ele se benze da forma que pode, religioso que era, por medo e imposição dos pais.
          - Se te pegarem sorrindo abertamente arrancarão o seu escalpo com um facão de açougueiro e lhe farão engolir a própria cabeleira cheia de gel. Enfiarão agulhas sob as suas unhas e lhe jogarão num cercado para ser abusado sexualmente por uma centena de antas (o animal de maior pênis no planeta) viciadas em crack.
          Nesse ponto o cantor punkpira já não conseguia falar, tomado pelo horror, dominado pelo terror, acachapado pelo medo. A mistura da vodca com os remédios também já causavam estragos. Seu empresário, espertamente gravando suas reações para a posteridade só pensava nos lucros. Programas de pegadinhas com famosos... A comissária de bordo aproxima-se, e com aquele sorriso de plástico profissional informa que chegaram.
          O artista punkpira se levanta, com as duas mãos em torno do próprio pescoço, ouvindo ao longe os sorrisos e palavras de incentivo de sua entourage. Dá dois ou três passos em direção à saída e cai. Seu corpo de contorce por alguns momentos e para. Estava morto.
          Foi uma confusão dos diabos! Ambulância, tentativa de reanimação, gritos, choro... Nada. Morreu mesmo.
          Nas páginas dos principais jornais e revistas o motivo alegado pelo empresário foi: morreu de infarto causado por medo de avião.
 
                       Marcelo Gomes Melo

              A hora é agora, Aurora!






          A hora é agora, Aurora!
          Que a noite longa não perdure nos empedernidos corações festeiros e os temores com os terrores escondidos nos cantos por trás das cortinas de amianto não desabrochem como lilases fúnebres nos observadores atrás das chamas.
          É agora, Aurora!
          Que os paladares dos paladinos da justiça se mantenham afiados; controladores no cinza escuro depois dos muros, milhares de zumbis eletrônicos zumbindo alucinados, opinando, seguindo, sendo guiados, consumidos, consumindo enquanto a noite se esvai e o dia vai surgindo...
 
          A hora é agora, Aurora!
          Vamos embora que a mudança aflora nos patamares inferiores da vida humana, lá fora.
          E os detratores, montados em seus tratores esmagarão flores, mas serão vencidos, e nos estertores, implorarão por favores daqueles a quem só impingiram dores, Dolores!
          Agora é a hora, com juros de mora, a taturana que chora também queima pele afora, num rastro de dor e agonia, Maria!
          Lá vem o dia!
          E o sol espalha magia, derretendo a fria cria do orvalho com a folia, desvanecendo cristais de qualquer coisa farta, Marta!
          A Aurora, passional e suave reage à noite permissiva, encantando pelo oposto, iluminando naturalmente o rosto que anteriormente, à sombra das luzes fluorescentes escondiam quem eram para encarnar novas personalidades, estalando de novas e desprovidas de medo, cultuando o estranho e transpirando prazeres.
          Que a vida não separe o que só a morte pôde unir. (verso de Adonais).
 
                            Marcelo Gomes Melo

Das luzes e das sombras que nos fazem imperfeitos



De todos os olhos do mundo, os seus, quando me tocam, me aquecem, me decifram, acariciam enquanto me percorrem, permanecem em mim e eu só consigo me infiltrar em você.
 De todos os lábios do mundo, os seus me hipnotizam quando se entreabrem, me falam, me pedem, me mandam, me querem e se mostram famintos.
 Eu só consigo saboreá-los, transformá-los em via para nossos desejos. De todos os corações, o seu se mistura ao meu, batendo em uníssono; o meu, baixo profundo e o seu, melodioso vai abrindo caminhos, desvendando os mistérios, mapeando a estrada dos nossos prazeres...
 

De todas as mãos do universo, as suas me seguram, se agarram em mim, se entrelaçam às minhas e nos unem como cabos de alta tensão, transportando energia vital transformada em amor, em paixão, em querer.
De todos os corpos do mundo, o seu é o meu, que me acende e me atrai, meu altar precioso, meu prazer infinito!
 Sem pensar, sem ousar, sem me dar qualquer opção, sei que lhe quero por completo, dos pés à cabeça, e me transformo em perfume para me impregnar em você!

 




                                   Marcelo Gomes Melo

    Selo de premiação do blog
           A indicação mais do que generosa da Jussara Tavares, “fera” do blog www.cantinhodajutavares.com muito nos honra com o selo de premiação “The Cracking Chrispmouse Bloggywog Award”, que é mais do que um incentivo aos blogueiros na atividade.

            A ideia do criador do selo é semear alegria, paz, esperança e amor com blog premiando blog e mantendo a corrente de reconhecimento e gentileza. As regras são:
          Mostrar o prêmio recebido.
1-    Divulgar a premiação do Blog com um Post linkando o Blog que o premiou.
2-    Nomear 15 outros blogs para receber o prêmio.
3-    Comentar em cada blog premiado colocando um link para a aquisição do mesmo.
Finalmente, eis os blogs que tenho a honra de indicar para receber o prêmio:
1-    http://www.gideoescangucu.com.br de Antonio Magnus;
2-    http://socuriosidadesedicas.blogspot.com.br de Marco Aurélio Müller;
3-    http://www.panoramamercantil.com.br de Eder Fonseca;
4-    http://www.emagrecerumdesafio.com de Rita de Lima;
6-    http://blogdabethmuniz.blogspot.com de Beth Muniz;
7-    http://rosasevinho.com/ de Aurélio Cesar Stupp;
8-    http://www.curtindoemcasa.blogspot.com.br/ de Alessandra Macedo Bispo;
9-    http://bhmulher.com.br de Lilian;
10- http://sopensandoemmoda.blogspot.com.br/ de Mari Angela Muller;
10-         http://www.ciceromattos.com/ de Cícero Mattos;
11-         http://www.aulasdenutricaoja.com.br/ de Rafael Teixeira;
12-         http://reducaocustos.blogspot.com.br de Ricardo Oliveira Guimarães;
13-         http://danysempre.blogspot.com.br/ de Janete Sales – Dany;
14-         http://maestroelias-cantor.blogspot.com.br de Elias Barboza;
15-         http://twitter.com/SylOficial de Syl.
A todos os indicados o meu agradecimento e honra em segui-los e partilhar notícias. Valeu!
                                Marcelo Gomes Melo

            “Pensar é estar doente dos olhos”


         Defendendo a simplicidade completa, afastando-se de todo e qualquer pensamento filosófico e proclamando-se um antimetafísico, Alberto Caeiro, poeta, heterônimo de Fernando Pessoa, defendia que pensar turva a visão, faz com que a beleza, por ser momentânea, perca-se em sua totalidade, visto que “o pensar” transporta o ser a um universo de difícil compreensão, carregado de metáforas e charadas cuja complexidade afeta a razão.
          Caeiro valoriza as sensações como a única realidade e foca-se na natureza em seus poemas de linguagem simples e familiar, construídos com versos simples. Seu interesse é retratar a realidade de forma visualmente objetiva e natural.
          Sendo um poeta do presente, não se importando com o que já passou ou com que possa vir, utiliza-se da natureza em seus poemas, aproximando-se do neoclassicismo pelo interesse pelo real e natural da vida.
          Como ideologia, o poeta valoriza o sentir, e isso faz com que consiga pregar o viver sem dor, envelhecer sem angústias e desespero no coração e na alma; não procura sentido algum para a vida nem para acontecimento algum no entorno, apenas sentindo, não raciocinando.
          Os versos abaixo de Fernando Pessoa sob o heterônimo de Alberto Caeiro exemplificam a arte e a capacidade do poeta de dissociar-se do que é fruto de pensamentos e filosofias vãs.
          Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
          Em que as cousas têm a realidade que podem ter,
          Pergunto a mim próprio devagar
          Por que sequer atribuo eu
          Beleza às cousas.
 
          Uma flor acaso tem beleza?
          Tem beleza acaso um fruto?
          Não: têm cor e forma
          E existência apenas.
          A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
          Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
          Não significa nada.
          Então por que digo eu das cousas: são belas?
 
          Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
          Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
          Perante as cousas,
          Perante as cousas que simplesmente existem.
 
          Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


                                       Marcelo Gomes Melo

Para você acreditar que é seu
O sono é inquieto quando penso nas horas, minutos e segundos em que fico acordado, lamentando a ausência de felicidade causada pelas brigas intensas, começadas por nada, continuadas pela capacidade incrível que os apaixonados demonstram de ferir a si próprios, por motivos sombrios que só eles enxergam. Ou por significados criados simplesmente para saber que é possível mexer com a sensibilidade do outro e certificar-se de que o amor é recíproco, quando deveria ser suficiente apenas olhar, no olhar, e perceber.
O sorriso é imenso, quando penso, e vejo coisas que só os apaixonados pensam e veem escondidos nos gestos, incertos, mas únicos, exclusivos, que jamais poderiam ser compartilhados com o mundo! Quase imperceptíveis, no entanto incontestes, personalizados, impossibilitados de ser divididos com as outras pessoas. Esses sim são expressão verdadeira, certeira, primeira, de que é possível acreditar, necessário acreditar, imprescindível acreditar!
Quem vive sem você? Quem sonha, sem você? Apesar da dor, um inevitável sentimento de amor.

 
        Marcelo Gomes Melo



      Luta febril pela supremacia no comércio informal



          A luta pela supremacia das vendas nos faróis está cada vez mais acirrada. A economia informal, antes dominada por garotos de pés sujos, aliciados ou não pelos pais e/ou responsáveis, fazendo pirâmides humanas e equilibrando bastões de madeira e bolas de tênis, como focas amestradas, em troca de algumas moedas, logo foi diversificando o espaço em frente aos automóveis parados, com seus motoristas impacientes para romper o tráfego e chegar ao seu destino. Vendedores de balas, chicletes, chocolates de procedência duvidosa e data de validade ultrapassada... Contratados do marketing inventivo segurando e chacoalhando bandeiras de candidatos a cargos políticos, entregando os mais variados panfletos, desde acupuntura sensorial à macumba para agarrar marido; de produtos sanitários a lançamentos imobiliários e entrega de naftalina em domicílio criaram uma nova paisagem geográfica pelas calçadas e praças das grandes cidades.

          Aos gritos, essas pessoas buscam de alguma forma sobreviver; uns honestamente, outros ingenuamente, outros tentando se aproveitar dos seus semelhantes, assaltando e tirando vidas como se fosse brincadeira.

          A nova classe profissional de catadores de lixo aperfeiçoa seus métodos construindo carrinhos enormes de madeira para juntar mais lixo reciclável e diminuir a sujeira das ruas, substituindo ao governo na responsabilidade e ao próprio povo, que, desprovido de educação colabora para as enchentes e proliferação de doenças.

A última atualização desse comércio informal, no qual não se paga imposto e não se tem décimo terceiro salário nem auxílio médico e dentário, ou possibilidade de frequentar uma escola, pois cada segundo faz a diferença na guerra pela sobrevivência, e a participação de novos atores nesse papel social: o profissional qualificado.

          Sim, senhores da diretoria! Profissionais qualificados, com diploma superior e formação específica em sua área, multilíngues, supostamente preparados para ocupar uma vaga no mercado formal de trabalho hoje enxergam maiores vantagens em se acotovelar lado a lado com crianças sem teto e deficientes físicos nos faróis, buscando o sustento da família!

          Engenheiros vendendo iogurte, jornalistas negociando sorvete, artistas sacoleiros, alfaiates vendendo capinhas de celulares, todos abandonados, e abandonando a área para a qual foram treinados com o intuito de fugir da humilhação do salário irrisório, dos horários torturantes e custo benefício inexistente. Médicos vendendo balas de goma e ervas medicinais, arquitetos instalando calhas e enfermeiras vendendo panos de prato são participantes comuns da informalidade financeira do país. Fugindo de impostos altos e ausência de retorno em melhorias para a população, tratam a qualquer custo manter a cabeça acima da linha d’água, não morrer afogados pela ineficiência do governo.

          São profissionais já experientes alijados de seus postos e jovens recém-saídos da universidade, diplomas à mão e desilusão garantida ou seu dinheiro de volta.

          Quem são os que exercem os empregos no lugar dessa gente? Pessoas desqualificadas, do tipo ex-jogadores de futebol que desconhecem os princípios do jornalismo, desconhecem os princípios da língua portuguesa culta e esbanjam o uso de palavrões em horário nobre, bem como a total falta de conhecimento histórico dos esportes, por exemplo. Seriam esses  os jornalistas esportivos do terceiro milênio?

          Há uma coisa, finalmente, que os une e categoriza, profissionais qualificados e largados à margem da informalidade, e pessoal desqualificado para qualquer coisa, mas apadrinhados, mão de obra barata, talvez; todos já tentaram, cogitam ou tentarão exercer a profissão-pérola do nosso tempo: político profissional.

 
                                Marcelo Gomes Melo

  O império dos lobisomens





 
         Eu sou quieto por natureza. Silencioso por opção. Raramente me envolvo em discussões. Minhas mulheres brigam e eu me calo. Perco sempre. Para a avó mando um beijo, para a mãe um meio sorriso e baixo a cabeça. Quando um sorriso me escapa por entre os lábios não é mais meu, pertence a quem o recebeu.

          Minhas emoções fluem muito bem numa luta de boxe, qualquer esporte na tevê, é quando se torna possível vê-las. Em outras ocasiões deslize a mão em meu braço e poderá percebê-las.

          Esmurro facas do meu jeito, diariamente converto os problemas do mundo numa taça de vinho. É assim que me vingo das dores. Seus lábios quentes e macios as aliviam pra mim constantemente, e procuro em seus olhos minha mortalidade, o saber do que acaba mas nunca esmorece. O que é imortal está contido nos movimentos de seus quadris, e eu não quero mais nada pela eternidade.





          Enquanto o dia clareia respiro fundo e me conformo, dou de ombros ao que é impossível domar. O ardor feminino e seus cabelos, por exemplo.
          Não sou de sonhos, mas caio como um bebê aprendendo a andar, em direção a você.
          Sua força seduz crocodilos, mas quem grita com o mundo através dos olhares, com ombros prontos a suportar desencantos sou eu! Meu coração é lycan, minhas garras pura pose e seu perfume inebria meu ceticismo galante.
          Me surpreenderam dizendo que hoje é “Dia do homem”. Para vender mais desodorante e mais cerveja gelada, talvez. Sussurraram com um ar  Monalisa à guisa de explicação, ou gozação, que todo 15 de julho, por razões filosóficas, religiosas, míticas, químicas ou científicas convencionou-se defender os direitos masculinos, iniciativa da Ordem Nacional dos Escritores, desde 1992. Marte representa a nós, homens, e na mitologia grega o seu símbolo traduz masculinidade.
          Eu lhe repito, entretanto, que só sei ser homem, nada mais. Seja meu prêmio, mulher, e a vida continuará, com perfume de flor.

 

 
 
            Marcelo Gomes Melo



           Beleza é passageira; feiura é perene!




         Tenha em sua mente que toda e qualquer manifestação de beleza é efêmera e leva a muitos de seus possuidores buscarem, de alguma maneira eternizá-la, reconstruí-la e aperfeiçoá-la permanentemente, escravizando a si mesmos por algo que não ficará para sempre. Não da maneira padronizada que esperam.
          Fazer da beleza padrão, aceita e difundida em sociedade como a ideal, a razão de viver e sobreviver profissionalmente, cavar espaços e adquirir status não é inteligente. Vive-se uma época sem consciência do que é pessoal, individual, para expor o individualismo material, trocando o particular pela fama superficial e dinheiro imediato no bolso. Depois angústia e tristeza.
          A beleza externa dita regras e muda conceitos, muitas vezes por obrigação, e pessoas deformam a si mesmas na intenção de se tornar um mero clone, uma casca desprovida de conteúdo, governadas pela mídia e iludidas por pesadelos travestidos de sonhos.
          Saiba, entretanto, caro adepto do espelho como norteador de seu tempo, que a beleza não morre, adapta-se. Transforma-se com o tempo, inexorável. Acrescenta nuvens aos cabelos, marcas à alma e cicatrizes ao corpo. Mas não some completamente, envolve-se em dignidade comovente, desde que se conquiste com glória e merecimento.
 
           Já a feiura é intrínseca. O feio já sabe que não vai mudar, permanecerá o mesmo para sempre. Em ocasiões especiais, à custa de acessórios conseguirá disfarçá-la, enganá-la de todos por momentos, antes de retornar à base do horripilante peculiar.
          O filhote de batida de trem com explosão nuclear é premiado com a felicidade pura, com as conquistas sinceras. Jamais duvidará do motivo de suas vitórias. A probabilidade de cultivar em si mesmo diversas outras qualidades como simpatia, inteligência, carisma e competência é maior, porque teoricamente a beleza hipnotiza seu dono e centraliza a energia, impedindo o recebimento de qualidades mais importantes.
          No decorrer da vida a feiura se transforma, como a beleza; mas, fiel, acompanha o seu carregador para sempre. Suaviza-se enquanto aprofunda-se criando marcas de expressão, arraiga-se na personalidade do horrível e lhe permite pensar em coisas melhores, fazer coisas mais importantes, viver em sua totalidade.
          Ser feio é distribuir a beleza em partes generosas pelo resto da humanidade com bondade e desprendimento.
          Ei, essa é apenas mais uma filosofia de mesa de bar, madrugada paulista regada a sorrisos e cervejas, enquanto a “gringaiada” circula com fogo nas entranhas. Não se apegue ao que não corresponde fielmente à realidade. Ainda mais porque a beleza está nos olhos de quem observa, e na quantidade de copos foi esvaziada.
 

                                              Marcelo Gomes Melo

As luzes


Ela sorri como se me conhecesse mais do que eu!

Por trás daquele sorriso há um mundo de inquietações

Que ela guarda consigo

Nunca me diz, e ainda assim, de vez em quando, eu sei...

Acho que sei, para no momento seguinte duvidar do que existe

Ah, a crueldade infinita que acomete aos que se defendem!

Ela me olha e eu penso, punhal enterrado no peito,

Será que ela me vê?

Alma feroz, pairando sobre a alma dela, a minha!

Será que ela sabe, será que tem paciência?

O olhar viaja mais rápido que a navalha.

Mas se ela se entrega, o mundo é perfeito.

 
Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Vandalismo emocional!

  Você diz ter medo de demônios E não hesita em agir como um deles Diz não concordar com alucinógenos E alucina com prazer E ao al...

Expandindo o pensamento