A crise de meia idade do tiozão rico acontece em níveis
mais elevados, embora ridículos da mesma forma que os níveis do tiozinho
paupérrimo. Classe alta começa comprando um carrão importado, geralmente
vermelho, faróis xênon, teto solar, GPS com voz feminina com sotaque inglês,
bancos de couro e, no porta luvas, inúmeras caixinhas contendo bijuterias
compradas no atacado em lojas da 25 de março, prêmio para as garotinhas
deslumbradas quem conseguirem atrair ao carro-hotel do amor.
O tiozão rico vai ao cabeleireiro ajustar as pontas dos escassos
fios de cabelo em um penteado que disfarce a calvície; pinta os cabelos de acaju,
faz as sobrancelhas e as unhas, retoca as rugas em torno dos olhos e da boca e
na testa com botox, ficando com aquele sorriso permanente do coringa,
adversário do Batman. Em seguida compra suas roupas importadas, certificando-se
de que as marcas fiquem visíveis; a camisa polo cor de rosa justinha ao corpo
com um brasão no peito e uma bermuda xadrez com meias brancas e sapatos sociais
completa o visual, com um boné estilo Neymar, aba virada para trás. Chicletes
importados, uma pochete em torno da cintura contendo pente, enxaguante bucal e
camisinhas são obrigatórios.
Ele dirige aos domingos
a tarde com o cotovelo esquerdo para fora da janela do carro para mostrar a
tatuagem de um gavião colorido com uma inscrição abaixo:”Eu sou o homem do
amor!”. Costuma frequentar as boates da moda, pedindo o uísque mais caro e
tenta impressionar as meninas da faculdade recitando seu currículo e posses
como forma de sedução. Apregoa com aquele falso sorriso fixo que tem o melhor,
mais bonito e mais caro automóvel, garante que pode proporcionar os prazeres
jamais sentidos, as viagens mais sensacionais e a vida de celebridade de
televisão, fazendo com que cifrões brilhem nos olhos das moças.
Hipnotiza suas vítimas através do contracheque. Suas
presas são consideradas pela beleza e pela idade, então, passando dos 23 anos é
anciã. As considera como troféus e as compra com facilidade, então consegue,
diferente do tiozinho pobre, dobrar a diferença de idade, que vai para 40 anos
ou mais.
O tiozão rico não tem senso do ridículo, mas pode, porque o
dinheiro compra qualquer coisa, até esse direito. Não tem sentimentos, mas
acaba casando com elas, que em três meses se separam e garantem a sorte grande
recebendo por mês uma pensão que jamais receberiam em cem anos de trabalho
duro.
Por causa do excesso de dinheiro são capazes de esgotar as
experiências possíveis para qualquer ser humano e terminam buscando coisas que
vão além do imaginável, para se divertir. Intitulam a si mesmos reis de
camarotes e se julgam acima do bem e do mal.
A diferença entre o tiozinho pobre e o tiozão rico é que o
último consegue transformar o ridículo em moda.
Marcelo
Gomes Melo
O aparelho destruidor de burros
O gênio da cidade, após
anos e anos de cálculos avançados de matemática, testes químicos e físicos
altamente perigosos e clarividentes, observação empírica e sistemática dos
moradores, anotando suas rotinas, maneirismos, aspirações e dogmas, finalizou
seu compêndio histórico regenerativo astral da fatia da humanidade que habitava
a localidade, fruto de encomenda dos altos mandatários do governo.
O estudo visava dar uma noção das atitudes necessárias para
aumentar a qualidade de vida de todos, economizando água, poupando recursos
naturais, aumentando a expectativa de vida, educando melhor e criando um
cenário de local ideal para que seus cidadãos passassem o resto de seus dias em
paz.
Ao apresentar o
resultado, o gênio expôs detalhadamente para o corpo governante tudo o que
acontecia de bom e de ruim em todos os aspectos. Não foi interrompido por um
bom par de horas, até que o governador lhe fez a pergunta fatal: qual era a
solução?
O gênio, antes de apresentar a solução, valorizou a si
mesmo, claro, mas, dramaticamente declarou o que deveria ser feito. Para conter
a seca, economizando mais água, manter os pastos verdes, as ruas limpas, sem
aglomerações que atrapalhassem o trânsito de vez em quando, obrigando a polícia
a entrar em ação para desobstruir as ruas, deter os eventuais roubos de
alimentos e a necessidade de cuidar gratuitamente, fazendo escoar grande parte
do dinheiro dos impostos com quem não dá retorno algum além de trabalho pesado,
era imperioso tomar uma decisão, embora polêmica: eliminar os burros!
Homem de determinação,
o governador sequer piscou. Mandou convocar os chefes de polícia,
representantes dos sindicatos dos trabalhadores, líderes dos movimentos GLS,
padres, pastores, pais de santo, movimentos sem teto, sem terra, sem nada,
presidentes dos partidos políticos adversários, comentaristas esportivos,
milionários influentes, banqueiros, fazendeiros, sindicato dos proprietários de
jegues e jumentos, charreteiros...
Com toda a população influente reunida, o gênio explanou
orgulhosamente tudo o que havia contado aos mandatários, causando expressões de
horror, nojo, medo, e ódio, dependendo da classe ali representada. Entre urros
e uivos, protestos e discursos, possibilidades foram aventadas.. Fuzilamento dos
burros; mas houve críticas. Não havia local para enterrar tanto burro;
gastariam muito dinheiro em munição; o sangue mancharia a terra do estádio de
futebol, local das execuções...
O representante dos açougueiros sugeriu eliminá-los a
facadas. Novas discordâncias. O sindicato das lojas de material para construção
defendeu o enforcamento dos burros, mas a associação de mães achou que ver um
monte de burros pendurados pela cidade iria traumatizar e deteriorar
psicologicamente às crianças. No meio do debate acalorado, o sindicato
farmacêutico concordou com o chefe do turbilhão gay em envenená-los com drogas
psicóticas, pois assim seria menos cruel e eles não morreriam, virariam
purpurina! Todos os outros rejeitaram.
Foi então que o gênio, que esperara o ápice da confusão
para se apresentar como o salvador, informou a todos que havia construído uma
máquina infalível. O aparelho destruidor de burros! O aparelho mandaria os
burros para o além de forma rápida, limpa, indolor, sem problema algum. Bastava
programar os drones para localizar os burros, disparar o laser abdutor e
pronto!
Fez-se um silêncio sepulcral, que logo foi se transformando
em murmúrios de aprovação. O gênio sorria com falsa modéstia, já imaginando uma
estátua sua na praça principal, quando adentrou ao local a comissão dos
direitos humanos, a quem haviam se esquecido de convidar. Aos brados exigiram a
chance dese manifestar em nome dos
direitos dos burros, que, em nome do politicamente correto nem deveriam ser
assim denominados! O nome do animal deveria ser “pouco inteligente”. Após breve
confusão adquiriram o direito,e o líder
empunhou o microfone, ouvindo do governador uma pergunta óbvia: “por que os
burros deveriam ser poupados?”.
E respondeu, após dramática pausa argumentativa. Os burros
são seres humanos como quaisquer outros!
Marcelo
Gomes Melo
Metrossexuais nacionais I: Tiozinho
pobre
A famosa crise da meia
idade masculina. As mulheres alegam ser fantasia, servir até como desculpa por
diversos espertos para camuflar ou desculpar atitudes pueris, mas ela existe.
Ninguém, senão os homens poderiam explicá-la melhor, mas, jamais acontecerá
pois raros são os que se dão conta das próprias atitudes ridículas.
Mesmo assim, o poder de observação, aquele que usamos
naturalmente, sem sequer pensar nele, nos possibilita registrar centenas de
comportamentos sui generis das vítimas dessa crise nos machos do terceiro
milênio.
Por volta dos quarenta anos, em média, inicia-se a fase um,
que com o passar dos próximos anos irá se acelerando até um ponto em que será
superada, ou não haverá retorno. A transformação masculina se dá para deleite
de quem ainda não chegou à mesma situação e nem imagina que chegará; e para as
mulheres, que escolhem entre suportar estoicamente até que eles superem,
aproveitar-se do surto que os acomete, criticar mortalmente e recriminá-los de
maneira impiedosa, ou apenas divertir-se com as esquisitices proporcionadas
pelo sexo oposto.
Partamos, então, aos indícios da crise de meia idade
masculina; logo relacionarão a vários exemplos à sua volta, ou a si mesmo, com
sorte (ou falta dela. Rs).
O tiozinho pobre não
costuma dar atenção aos cuidados pessoais; se esquece de cortar o cabelo e de
fazer a barba, e quando o faz, de quando em quando, prefere ir ao CETREM, local
em que consegue um corte máquina um e uma sopa de graça. Esse tipo de cara
costuma ter mãos ásperas como lixas e unhas compridas e amareladas. Como se dá
a crise de meia idade nesses tipos?
No começo, passam óleo de comida nas mãos para amaciá-las e
procuram comprar vistosas camisas coloridas e tênis falsificado na feira. É a
vontade de aparentar uma juventude descolada. Logo descobrem que há cremes para
amaciar as mãos e começam até a escovar os dentes! Realmente preocupados com a
aparência passam a tomar banho mais vezes por mês e compram desodorante Axe em
profusão, que usam exageradamente, causando náuseas até no cachorro. Os botões
da exuberante camisa vermelha ficam abertos no peito, mostrando que são
concorrentes do Tony Ramos. Diminuem a ida às casas de saliência e passam a
frequentar parques de diversão, festas de axé e rodeios, tentando se misturar
com os jovens e atrair meninas com vinte anos menos para namorar. Isso os faz
sentir mais jovens.
O tiozinho pobre que
não tem carro enche sua bicicleta de acessórios legais: antenas traseiras com a
bandeira do Brasil, espelhos retrovisores com fotos da Rita Cadilac e da
Gretchen, fitas coloridas amarradas ao guidão e enfeites de plástico nos raios
dos pneus da magrela.
As cantadas mais elaboradas que costumam usar com as estudantes
são “coisa maravilhosa!”, “um dia gatinha manhosa eu prendo você no meu coração”,
“os botões da blusa que você usava, e meio confusa desabotoava...”, e ficam
orgulhosos, de peito estufado quando as moças sorriem, achando que os sorrisos
são para eles e não deles.
A ideia principal do homem durante a crise de meia idade é
parecer mais jovem e antenado com a juventude atual, reviver seus melhores dias
de garotões sem preocupação com a vida. É para isso que frequentam baladas
trance e dance music, mas se esquecem e cometem pequenas gafes, como esconder
as gírias de tempos atrás, que denunciam malfadadamente a idade real, e soltam
muitos “paz e amor, bicho”, “é uma brasa, mora”, fazendo o V da vitória como
cumprimento ao tirar selfies com a garotada.
Um tiozinho pobre consegue pegar mulheres mais jovens, sim;
levam a moça a uma pizzaria, pagam cerveja e sorvete, presenteiam com
chocolate, que compram dos ambulantes no trem e terminam a noite num hotelzinho
familiar com preço razoável. Sua conversa pegajosa às vezes funciona, e isso
lhe faz sentir o rei do mundo! Mas quando se dá mal precisa catar os pedaços da
humilhação e da tristeza e retornar à casa em que largou a mulher e os filhos
remelentos pedindo perdão por existir e prometendo não cometer mais deslizes.
Vão até à igreja!
Já o tiozão rico...
Marcelo Gomes Melo
Conversas em madrugadas
diferenciadas, e vice-versa.
Eu não sou um cara
legal. Não acredite nisso sequer por um momento, não idealize tal possibilidade
nem em seus mais secretos sonhos Não espere de mim atitudes politicamente
corretas, ou falsas gentilezas com pessoas as quais nada significam para mim.
Sou desprovido do humor acatado por todos como tolerável,
não tenho palavras de incentivo inútil e não perco o meu tempo com amenidades
fúteis. É quem eu sou. Não há outro eu para ocasiões especiais, que gaste
sorrisos falsos e faça comentários mentirosos com intenções subreptícias.
Não olhe para mim como a um homem capaz de amar como todos
os outros, comprando flores, ursinhos de pelúcias e usando palavras que
desandem suas pernas mas não são reais o suficiente para mantê-las firmes,
vívidas, em pé por si só.
Pode ser que eu seja a
origem do termo antissocial, pouco me importa. Asseguro-lhe que a utilização
dos neurônios para o tipo de trabalho que exerço ficam bem mais sensíveis, em
um nível de excelência e aptidão plenos.
A razão para que eu não seja assim, gelado, com você? Isso
não muda o que sou, repito. Considero que você seja alguém excepcional. Uma
mulher única. E por isso faço um esforço excepcional para me acomodar a você.
Só a você e a seus desejos.
Não me envolvo da maneira tola que as pessoas consideram
normal, saudável e inspirador.
O fato é que, enquanto estivermos juntos, navegando na
mesma onda, sintonizados no mesmo ritmo, você irá se incomodar com o meu
comportamento fora dos padrões, dolorosamente lúcido. Eu não tenho companhia,
amizades ou colegas porque não as considero úteis. Minha luxúria é
condicionada, meus conselhos, inexistentes.
Mulheres se preocupam
em pensar em como vai ser, jamais como está; muito menos em como é.
Seu olhar está me dizendo que seu cérebro calcula, nesse
momento, intermitentemente, de maneira quase insana, até onde isso poderia
durar. Não se incomode com minhas palavras medíocres; palavras são
descartáveis, entendimentos são imortais.
Eu não consigo dimensionar a eternidade!
Marcelo
Gomes Melo
O amor que é de gelo
Como
é o amor que é de gelo?
Aquece
o núcleo sob a neve, sob o toque solar
E
derrete, doce, úmido e... Morno? Pelas pernas
E
se espalha pelos pés, alastrando-se pelo chão
À
sua volta até voltar a congelar-se, imobilizando
A
contragosto, enrijecendo-lhe as plantas e subindo
Por
entre os ossos, tomando conta, queimando
Enquanto
gela, preservando...
De
tempos em tempos estilhaçando sob os pés
Perigoso,
permitindo caminhar, sem firmeza, e
A
qualquer passo mal dado, o fundo, o fim, a escuridão
Ou
firme, endurecido, permitir deslizar
Alcançar
distâncias inigualáveis, patinar por regiões
Jamais
alcançadas
O
amor é de gelo? O amor que é de gelo é eterno?
Marcelo
Gomes Melo
A
paz mundial não é da sua conta
Astro da banda inglesa The Smiths, ícone do rock dos anos 80
que liderou a invasão britânica no mundo, Morrissey
lança novo cd e, ao mesmo tempo tem o seu contrato com a gravadora
cancelado por conta de comentários feitos por ele contra o estabilishment, além
de uma canção que retrata o seu pensamento quanto à dominação sofrida pelo povo
por parte dos governantes que os trata como tolos e decidem todos os destinos
fria e completamente.
Na letra de “World
Peace Is None of Your Business” (A Paz mundial não é problema seu),
Morrissey cita o Brasil entre os países em que as pessoas estão sofrendo,
vítimas dos governantes que os conduzem como uma manada, usando a força
policial para reprimir e a mídia para emburrecer.
Paz Mundial é balela! Seu voto serve apenas para apoiar o
processo de dominação; pague seus impostos, não se envolva no esquema dos
poderosos; saiba que os ricos ficarão ainda mais ricos, mas não pense que os
pobres serão extintos; eles são necessários para o massacre diário que enche os
dominadores de prazer.
Abaixo a letra traduzida da nova canção de Morrissey:
“A Paz Mundial não é da sua conta”
A paz mundial não é da sua conta
Você não deve mexer com o esquema
Trabalhe duro e docemente pague seus impostos
Nunca perguntando o porquê
Oh, oh, pobre tolo
A paz mundial não é da sua conta
A polícia irá paralisá-lo com suas armas de choque
Ou irão te desabilitar com suas armas
É pra isso que o governo serve
Oh, oh, pobre idiota
A paz mundial não é problema seu
Então você, por favor fique fora disso
Os ricos devem lucrar e ficar mais ricos
E o pobre deve ficar mais pobre
Oh,oh, pobre tolo
Cada vez que você vota, você apoia o processo
Brasil, Bahrein, Egito, Ucrânia
Tantas pessoas sofrendo
(Morrissey)
Marcelo Gomes Melo
Zoológico
humano, a disposição para a degradação.
Há alguns anos uma rede
de televisão inglesa, a BBC, talvez, realizou um documentário interessante
denominado “zoológico humano”, no qual reuniam diversas pessoas de diferentes
níveis sociais, intelectuais, com visões de mundo completamente antagônicas, de
gerações diferentes e expectativas individuais totalmente diversificadas,
colocando-as juntas para que convivessem durante um período de tempo e
respondessem a testes e competições em grupo, sendo estudadas psicológica,
filosófica e socialmente por cientistas dessas respectivas áreas. A ideia era
descobrir as reações individuais e coletivas de cada participante, registrando
as alterações causadas pelas convicções trazidas do berço, fossem religiosas,
políticas ou morais para a adaptação na vida em comum.
Cabe ressaltar que esse estudo aconteceu antes da “chegada
salvadora” dos reality shows estilo big brother, e que não tinha qualquer
recompensa financeira nem prometia fama e status de celebridade. Não requeriam
talentos específicos ou especiais como desinibição, sensualidade, beleza e
exibicionismo, ausência de caráter, disposição para se vender e realizar
qualquer coisa em troca de reconhecimento financeiro ou agrado material como
automóveis e premiação de consolo como participação em orgias usando fantasias
esquisitas, fartura de bebidas e comida.
O comportamento das pessoas era o mais natural possível,
porque o ambiente preparado para que convivessem refletia a rotina diária de
pessoas normais e não uma imensa boate dos prazeres na qual os
candidatos/concorrentes fingem ser quem não são a todo momento, apregoam o ócio
como qualidade e objetivo de vida, o culto ao corpo em detrimento do cérebro, e
maquinações sórdidas em que a capacidade de mentir, trair e enganar parecem ser
requisitos primordiais para vencer e encher o bolso de dinheiro.
Anos depois, a
descrição acima denota qualquer reality show no Brasil, e o espanto que causa é
o interesse que desperta em grande parte dos telespectadores em assistir esse
espetáculo de degradação moral e social.
Os escolhidos para esses espetáculos são espécimes
peneirados em locais considerados a “fina flor” da sociedade brasileira,
frequentadores jovens de beleza comprovada, verdadeira ou artificiais,
desinibição latente, dispostos a qualquer coisa sem culpa ou pudor; reis da
degeneração humana que vivem por uma foto num grande portal ou uma linha em
qualquer revista de fofocas como o ápice de suas “carreiras”.
Paradoxalmente, esses seres, colocados na televisão atraem
aos que não têm nada disso e jamais terão; são como as lâmpadas para as
mariposas, já afirmava Adoniran Barbosa, e assistindo a esse circo de horrores
hipnotizados, sonham em ser como eles. Julgam a si mesmos capazes de ter a
mesma beleza e disposição para a degradação, vislumbrando uma vida melhor e
mais colorida do que a tediosa e cinzenta que vivem.
É incrível como creem
que aquilo a que assistem no programa é a definição de felicidade, desejando
para eles mesmos comportamentos nocivos e perniciosos!
Nesse quadro escolhem seus preferidos e torcem
desesperadamente, debatem e tomam partido como na política e no futebol. Alguns
chegam a se candidatar, produzindo vídeos caseiros dos mais horrendos e
causadores de vergonha alheia possíveis; vídeos esses explorados pelas tevês
para escancarar a miséria, ingenuidade e credulidade humana, o que os humilha e
rende audiência, mas não fama ou dinheiro. São meras vítimas.
Esse zoológico é formado por candidatos a celebridade,
misturados a subcelebridades rasteiras, galãs de feira livre, garotas de conduta
liberal... E o circo, a cada ano acrescenta mais polêmica para garantir a
audiência, como “amor entre pessoas do mesmo gênero”, traição instantânea e
arrependimento pré-programado, mentiras vis, predisposição ao roubo, fúria
radical provocando brigas e agressões físicas e psicológicas...
Restam perguntas, estupefatas: como tanta desgraça e falta
de caráter pode chamar tanto a atenção? Como alguém pode desejar ser alguém
assim, ou participar de um antro como esse? Essa é a verdadeira cara da
sociedade?
Finalmente, será que um reality que reunisse seres com
senso moral e ético, inteligência, cultura, boas atitudes e maneiras, que
vendesse a ideia de trabalho coletivo, respeito e amor ao próximo, reconhecesse
falhas e as corrigissem em vez de exaltá-las como armas para conseguir o que se
quer faria sucesso e despertaria nas pessoas o desejo de agir corretamente e se
tornarem indivíduos melhores em uma sociedade melhor?
Vai saber...
Marcelo
Gomes Melo
Cobaias humanas do dia-a-dia
Não é novidade o
descaso com que são tratados os pacientes sem condições financeiras para
frequentar os hospitais e clínicas particulares, das celebridades, o mercado de
cura em alto nível com medicina especializada e doutores astros da televisão e
reality shows, e dependem da rede governamental de saúde.
O que vemos, portanto, para a alegria suprema dos programas
mundo cão da tevê que se esbaldam em faturar alto mostrando a desgraça alheia
ao vivo e em cores, com doentes habitando macas nos corredores dos hospitais,
semimortos aguardando atendimento dias a fio com esperança de que algum médico
apareça; médico esse extremamente mal pago e maltratado, mas que supera as
dificuldades para cumprir, apressado e quase indiferente o seu horário
destinado aos miseráveis.
Esse atendimento superficial não parece destinado a curar
as mazelas; apenas aliviar as dores momentâneas e tornar o horror da vida do
paciente um pouco mais leve, sem resolver o problema.
Partindo desse princípio, se aprofundarmos um pouco mais a
análise e mergulharmos no ambiente da vítima, quero dizer, do paciente que
consegue um quarto para ser internado e enfermeiras para ministrar o
tratamento, com médicos residentes para ler o prontuário com as prescrições
feitas pelo médico titular. Isso causa alguns pensamentos pertinentes: o modo como essas pessoas são tratadas visam a sua
melhora ou prioritariamente o treino dos residentes? Querem tratar e curar o
paciente ou testar métodos e remédios novos em cobaias humanas sem alternativa,
as quais, caso pereçam entrarão nas estatísticas geladas dos indigentes sem
nenhum tipo de importância?
O apoio religioso, a fé que aumenta instintivamente em
qualquer cético ateu nesses casos graves em que a pessoa se depara com a
própria fragilidade e ausência de opções será suficiente para sustentar ao
doente e ao desespero dos familiares ante a inutilidade de quaisquer atitudes
por eles tomadas ante a inutilidade e ineficiência do governo e seus programas
de apoio, cujos impostos se diluem desviados sem preocupações para contas em
paraísos fiscais?
O que é mais importante? Tratar e curar esses pacientes
pobres cuja outra opção é entregar-se a Deus, ou utilizá-los como cobaias para
aperfeiçoar novos médicos, que podem errar e sacrificar seres humanos sem
importância, sem nenhum problema de consciência, porque há muitos à beira da
morte todos os dias, o que talvez os desvalorize como pessoas e justifique o
atendimento mal dado.
Resta-nos afirmar sem medo de erro: o povo está num mato
sem cachorro!
Marcelo
Gomes Melo
Instruções exacerbadas:Medo de
avião
Era a primeira viagem
do astro da música caipira do momento, vertente conhecida como punkpira, a um
país diferente; a primeira vez em que o garoto, que só tinha viajado montando
num jegue toda a sua vida estava em um avião.
Com seu enorme chapéu de cowboy americano com o logo
publicitário de um enorme veado estampado, o camarada flutuava de alegria entro
do avião, hipnotizado com os cubos de gelo que via pela primeira vez na vida.
Quando vira seu empresário colocando os cubos no copo, perguntara alarmado se
ele iria comer vidro, mas logo se convencera de que era apenas pedra d’água.
O cantor era um enorme clichê ambulante, bastante bem
treinado como qualquer jogador de futebol. Se perguntado por qualquer repórter
como estava se sentindo, responderia aos trancos, entre gaguejos e sorrisos que
“um filme estava passando por sua cabeça e lembrava-se das plantações de cana
nas quais trabalhava, na primeira botina de plástico vermelha que comprara a
prazo para fazer um show em um rodeio de porcos...”
O astuto empresário, experiente e viajado, cuidava de tudo
e o astro punkpira não tinha que se preocupar com nada além de seguir todas as
instruções sem pestanejar e colher os louros da fama, riqueza e felicidade. Ele
sabia que estava na hora de passar as instruções ao pupilo antes que chegassem
ao seu destino, local em que faria a sua primeira aparição estrangeira,
difundindo a cultura diferenciada pelo mundo. O rapaz parecia tão confiante e
tranquilo examinando os cubinhos de gelo antes de chupá-los que resolveu puxar
o celular e registrar uma pequena brincadeira que faria com ele. Serviria para
passar o tempo durante a viagem. Antes de descerem do aeroplano contaria a
verdade e ririam juntos; por hora iria tirar um sarro de seu ingênuo e humilde
superstar.
- E então, “Cipó das
candongas”, está tranquilo? -Cipó das
candongas era o apelido do astro nas redes sociais, por ser magrelo, alto e
cercado de celebridades; ele costumava rabiscar isso em seus pôsteres a título
de autógrafo para as fãs – Com medo de viajar de avião?
- Ara, sô, filho de Maria mais eu! Lá sou homem de ter medo
de nada! Isso é meio do que montar em touro brabo! – jamais havia montado em
touro algum, mas fazia parte de seu personagem público, e ele acreditava
piamente.
- Por falar nisso, Kid, tenho pequenas instruções a lhe
passar. Preciso que preste bastante atenção e não se esqueça de nenhuma, pois
disso dependerá a sua vida quando chegarmos ao país dos outros.
- Ara, então fala logo, que eu quero continuar vivo para as
minhas fãs! – o sorriso bovino era claro e exalava confiança.
- Pois bem. – o empresário, que ocupava a poltrona ao lado
da janela vira-se para encarar o astro, sentado na poltrona do corredor, para
iniciar os conselhos – Primeiramente jamais, por motivo algum acene para o
público desse país com as mãos espalmadas, dedos separados, dando tchauzinho;
isso é perigo mortal.
- Mas é assim que aceno para as multidões em todo lugar!
Por que não posso fazer?
- Nesse país – explica seriamente
o empresário – Considera-se uma ofensa inigualável esse tipo de aceno, Morenão!
– era outro de seus apelidos, morenão – Se acenar na direção de um público
masculino indicará que você quer transar com eles de forma selvagem, e se
houver mulheres com eles, significará que está pedindo para fazer o mesmo com
ambos!
- Nossa mãe! – de olhos arregalados, o bom cantor acena com
a cabeça, surpreso – Então não farei isso, sou besta não, rapaz! – depois de
pequena pausa, pergunta – Mas, e se eu me esquecer, o que acontece?
- Provavelmente os atiradores de elite do governo que
estarão posicionados para nos proteger lhe transformem numa peneira humana,
cheia de furos!
- Meu santo canjerão! Quero morrer não, sô muito jovem! – a
voz soara mais esganiçada do que o normal. Percebendo que a brincadeira estava
colando, o empresário se anima em ir mais longe.
- Mas pode ser pior. A noite você pode ser sequestrado em
seu luxuoso quarto de hotel e levado a um porão, no qual será pendurado pelos
polegares, sem roupa, cercado por mulheres de 1,80m, musculosas como lutadoras
de MMA, sorrindo de modo lascivo, mascando chiclete, armadas com lâminas de
barbear cegas e enferrujadas para arrancar os pelos de seu corpo com a pele
junto.
O astro aperta o braço da poltrona com força,
instintivamente dando um sorriso amarelo e pedindo uma vodca dupla à comissária
de bordo. Estava apavorado. Sério, o empresário conclui:
- Não escutarão os seus gritos agonizantes pois todas
estarão com fones de ouvido, com sua música nova tocando bem alto em seus
ipods.
- Pode estar certo de que não esquecerei isso! Vou descer
desse avião com as mãos no bolso, não tiro nem para fazer xixi. Valha-me Deus!
- Bom para você, Morenão, bom para você... Mas não é só
isso. – a câmera do celular registrava a tudo. Tiques nervosos surgiam no rosto
do rapaz.
- Não?! PELAMORDEDEUS me diz que mais eu não posso fazer!
- Não pode sorrir. – a cara que ele fez foi impagável, mas
o empresário controlou o riso – Nesse país um meio sorriso pode ser tomado como
uma ameaça. Significa que você quer sodomizar as mães de políticos enquanto
eles são chicoteados por representantes das minorias, acorrentados pelos
tornozelos a pesados cofres de metal cheios de pedra em vez de dinheiro.
- Isso até seria
divertido de ver –diz ele, pensativo – O povo me adoraria por isso!
- Sim, mas antes que o povo lhe adore em vida, você
descobrirá no meio da noite que o seu colchão foi recheado com dinamite. De
início ouvirá um zumbido e depois as sensação de estar sendo arremessado ao
céu; mas antes que o alcance retornará ao quarto em forma de uma tempestade
sangrenta de gordura e entranhas. Terá que ser enterrado dentro de um liquidificador.
Ofegante e branco, o rapaz pega a vodca dupla e entorna de
um só gole, usando-a para engolir algumas pílulas para dor de cabeça junto com
algumas pílulas azuis e outras para controle de ansiedade e epilepsia.
- Nada de meio sorriso, então! – consegue dizer entre
crises de tosse, ficando quase roxo.
- Sorriso aberto muito menos, Morenão! – o empresário quase
não podia mais engolir o riso. Já tencionava vender o vídeo com a brincadeira
como item para fãs colecionadores de momentos íntimos do astro – O sorriso
aberto em público é um acinte ainda maior! – vendo o desespero instalar-se no
rosto de seu artista, branco como vômito de porco, com os lábios arroxeados e
trêmulos e o olhar vidrado, finge não notar e continua a explanação – O sorriso
largo e descontraído para esse povo equivale a dizer: “Vou usar as folhas de
seu livro sagrado para enrolar uns baseados, seus trouxas!”.
- Pela Nossa Senhora dos violinos quadrados! – ele se benze
da forma que pode, religioso que era, por medo e imposição dos pais.
- Se te pegarem sorrindo abertamente arrancarão o seu
escalpo com um facão de açougueiro e lhe farão engolir a própria cabeleira
cheia de gel. Enfiarão agulhas sob as suas unhas e lhe jogarão num cercado para
ser abusado sexualmente por uma centena de antas (o animal de maior pênis no
planeta) viciadas em crack.
Nesse ponto o cantor punkpira já não conseguia falar,
tomado pelo horror, dominado pelo terror, acachapado pelo medo. A mistura da
vodca com os remédios também já causavam estragos. Seu empresário, espertamente
gravando suas reações para a posteridade só pensava nos lucros. Programas de
pegadinhas com famosos... A comissária de bordo aproxima-se, e com aquele
sorriso de plástico profissional informa que chegaram.
O artista punkpira se levanta, com as duas mãos em torno do
próprio pescoço, ouvindo ao longe os sorrisos e palavras de incentivo de sua
entourage. Dá dois ou três passos em direção à saída e cai. Seu corpo de
contorce por alguns momentos e para. Estava morto.
Foi uma confusão dos diabos! Ambulância, tentativa de
reanimação, gritos, choro... Nada. Morreu mesmo.
Nas páginas dos principais jornais e revistas o motivo
alegado pelo empresário foi: morreu de infarto causado por medo de avião.