Rotate4all

PopCash

EasyHits4you

The Most Popular Traffic Exchange

O quereres (Caetano Veloso)
 

          Poema musicado escrito em estilo Barroco, cheio de versos permeados por antíteses denotando o confronto inevitável entre o Bem e o Mal, que causa no ser humano dúvidas extremas e arrependimentos, tanto dos prazeres quase sempre pecaminosos quanto das virtudes mais divinas.

          “A antítese que permeia a vida e destrói linhas retas. Nada é irreversível. Nem a morte.”

 
Onde queres revólver, sou coqueiro
Onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês





Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor



Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói



Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és



Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor



Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
Onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus



O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim





          O conflito do poema é inquietante, quando os personagens parecem não se entender por conta da completa diferença de opiniões e estilos pessoais; mesmo assim, ambos caíram na cilada armada pelo amor, que os obriga a descobrir e praticar a arte de “estar junto”, tolerando as diferenças e superando-as, buscando domar a bruta flor do querer, que machuca e enternece, a seu tempo.

 
Marcelo Gomes Melo

O tanatólogo. A terra dá, a terra toma.



          Leio Baudelaire como se fosse um santo na alcova de uma loura lasciva entupida de crack e anfetaminas. Meus lábios se movem em câmera lenta, os dentes trincados. Alterno com uma suavidade implícita, uma serenidade hipnótica que cativaria a uma morta.

          Sirvo absinto à luz de velas, The Cure nas caixas de som instigando venenos, minha aura de garoto prodígio aumentava, seduzia as mulheres rebeldes com as meias-calças rasgadas e minissaias negras como a alma que almejam conquistar. Batons e unhas negras, uma força extrema para o amor passageiro, enganador.

          Formado tanatólogo, a profissão que estuda a morte e seus meandros científicos, me tornei um craque na área, usando sua descrição às vezes para seduzir, do tipo: “Nua sobre a maca fria, será lavada dos cabelos aos dedos dos pés por mim, o seu guardião. Tocarei cada parte de você com minhas mãos quentes. Saiba que, depois de morta será tratada com extremo cuidado e carinho”. “Cobrirei seu corpo, não se preocupe, na presença dos outros funcionários, mas verificarei cada reentrância no seu corpo com atenção, em busca de descobrir os seus segredos mais obscuros. Cabelos, olhos, partes pudendas... Tudo! Como diria o poeta... Sua inocência é minha!”.  Isso funcionava como cantada! Inacreditável, hein?!

          Fiz um curso do ópio do século, o marketing, para expandir os negócios e abrir uma franquia de cemitérios. Dominei o negócio das flores, das palestras instrutivas para quem iria um dia morrer; criei o serviço de drones sobrevoando aos túmulos para manter  os vivos em contato com seus entes queridos habitantes sob a terra 24 horas por dia.

          A minha profissão me garantia seduzir facilmente as garotas, principalmente as estranhas. Eu contava que depois de morta as tornaria perfeitas externamente. Eternas. Essa ladainha em minha voz de Vincent Price e olhar de Bela Lugosi, vestido como um Drácula do terceiro milênio dava muito certo. Transei em caixões luxuosos, dentro do salão da funerária, fiz piqueniques de madrugada no meio das lápides, bebendo conhaque e recitando poemas escatológicos de Augusto dos Anjos. Aos vinte e cinco eu era rei! Dos mortos; mas ainda assim, rei!

 
Os dois irmãos me deram sociedade e passei a ser um dos proprietários. Eis que surgiu Arlete. A coisa mais intrigante entre as mulheres estranhas e atraentes do mundo sombrio. Com seu estilo de vocalistas de bandas femininas suecas de Black metal, longos cabelos negros, olhos azuis de cílios gigantes e batom escuro em lábios carnudos em um vestido de sereia, escuro como a noite e decotado como o Canyon. Nem sei como cabia nela! Ou se nascera com ela! Linda e misteriosa entrou na minha vida como um vulto. Não disse nada, apenas prometeu com os olhos. Entreabriu os lábios e pousou a mão sobre a minha.
Noites de amor fulminante me fizeram o estranho mais maravilhosamente feliz do mundo das sombras. Mudei de perspectivas com ela; passei a querer tudo o que o mundo material pudesse me oferecer.
Arlete me prometia o sucesso e todo o poder que um jovem adulto podia querer, além dos seus doces e gelados encantos. Antes que eu perguntasse como, me vi envolvido em um carrossel de situações inacreditáveis que realmente balançaram a minha vida.
Os dois irmãos restantes, proprietários do cemitério, faleceram súbita e inexplicavelmente, deixando a mim como o único dono. Aceitei o fato como signo da vida e, após a comemoração e champagne com Arlete, mudei o nome do empreendimento para “Cemitério sem irmãos”.
Com uma conselheira como Arlete, a mulher da minha vida, iniciei a compra de diversos quarteirões para a proliferação dos cemitérios por todos os cantos, oferecendo uma morte feliz a pobres e ricos.
Arlete enchia o meu corpo de prazer e a minha mente de ideias. Em três anos havia mais cemitérios do que shopping centers. Só estava faltando mortos o suficiente para garantir os lucros. Seria eu o Odorico Paraguaçu das grandes metrópoles?
A grande oferta de cemitérios com caixões de todos os tipos e preços, facilitando a morte despertou a ira dos defensores dos direitos humanos e dos animais. Eu era processado pela acusação de oferecer cigarros com intenção de acelerar as mortes e de querer abrir cemitérios e crematórios para animais dos quais os donos enjoassem e não tivessem a quem doar. Igrejas fundadas em torno do dogma da imortalidade do corpo e da alma caíram impiedosamente sobre mim com processos e mais processos; enriqueceriam às minhas custas. Aos trinta e cinco já estava completamente estressado, desconfiado de todos e cínico. Estava em franca derrocada e tudo o que me restava era Arlete.
 
Ela jamais demonstrava nenhuma preocupação, nem mesmo quando comecei a vender cemitérios para saldar dívidas. Era a única a estar sempre por perto e me apoiar com gestos e carinhos. Não estava presa a mim por causa de dinheiro. Amor além da vida, diria eu!
O meu primeiro infarto veio aos 38, rápido como um raio. Saí da UTI vinte dias depois, esperando encontra-la ali, ao lado da cama, pronta pra mim, mas... Nem sinal de Arlete!
Perguntei a todos, mas ninguém sabia de quem eu estava falando. Enfermeiras, médicos, vigias, outros pacientes... Ninguém jamais vira nenhuma bela moça vestida de negro ao meu lado em nenhum momento. Eu comecei a me preocupar quando os dias se passaram e ela não vinha. Liguei para um celular inexistente. A minha casa havia sido leiloada e não a encontrava de jeito algum nas redes sociais.
No auge do desespero, em uma noite fria fugi do hospital, descalço e com aquela camisola descartável. Encontrei o meu carro no estacionamento do hospital e fui para o único lugar que me restava no mundo: aquele primeiro cemitério no qual iniciei a minha carreira.
Rompi o portão como em um filme de Chuck Norris, acelerando o carro. Sob a chuva o cemitério, antes tão bem cuidado parecia abandonado. Desci e caminhei, a esmo, chamando por ela, sem resultado, até que me deparei com uma cova aberta, enlameada como uma piscina de cobertura de bolo de chocolate.
Uma voz sussurrava alguma coisa em meu ouvido incessantemente, mas eu não entendia o que dizia; as batidas aceleradas do coração encobriam o som da voz, suave. Sentia o corpo desfalecer e era como a sensação de perder dinheiro. Caí de joelhos à beira da sepultura, a voz insistente angustiante...


O vulto que divisei foi tão rápido que questionei a minha capacidade mental e visual. Arlete! Só podia ser Arlete, com aquele vestido negro esvoaçante!

Estendi os braços, desamparado sob a chuva e me desequilibrei, voando a caminho do desconhecido com uma forte dor no peito, no fundo da cova para indigentes. Então entendi a voz suave e repetitiva em meus ouvidos. Arlete, etérea como uma névoa, me dizia: “A terra dá, a terra toma”. E mergulhei na escuridão.

 



Marcelo Gomes Melo

       “A caminho do céu carregado por anjos”. Forjando o caráter.

 
       Quando garoto, com quinze anos de idade resolvi procurar o meu primeiro emprego. Queria ter no bolso uns caraminguás para frequentar os bailes, comprar doces e ingressos para o futebol e cinema, mas principalmente ganhar uma moral com as meninas, é claro.
          Foi por isso que saí na companhia de mais dois amigos, na busca pelo primeiro emprego. Fomos a uma firma de nome atraente, mas que não tínhamos a menor ideia do que fabricava. TRIPAC. A atendente, olhando para nós com um misto de desconfiança e pena, quis certificar-se do nosso real interesse em integrar o quadro de funcionários da empresa; dito isso, nos convidou a entrar para ver a função que exerceríamos, caso contratados.

          Ela se deliciou com os nossos aspectos pálidos ao vermos os funcionários de uniformes brancos, incluindo toucas para proteger os cabelos e botas de plástico, porque trabalhavam com água fria até os tornozelos, no verão ou no inverno, em um galpão enorme e escuro, com balcões recheados de recipientes quadrados também brancos e também de plástico com um fedor fenomenal de restos que nos revirou o estômago e quase nos fez vomitar. Havia tripas de porco moídas e sabe-se que lá de mais o quê! Faziam linguiças, salsichas ou algo parecido. Saímos de lá fugidos sem sequer agradecer à bondosa e mordaz moça da recepção. Riscamos a primeira empresa da lista.

          Por uma semana arranjamos um emprego, eu e meus amigos, como auxiliares de pedreiro em uma construção na rua em que morávamos. Na verdade éramos auxiliares dos serventes do pedreiro. Minha mãe levava, todos os dias, uma hora depois que começávamos a trabalhar, um copão de café com leite e pão com manteiga, atitude que me fazia morrer de vergonha. Foi a semana mais esforçada da minha vida! Subia escadas de madeira até a laje, carregando latas cheias de concreto no ombro, para “assentar caquinhos de azulejos” com o intuito de evitar possíveis vazamentos.

 

          Durante essa semana de trabalho, que nos encheu as mãos de bolhas doloridas e atrapalharam muito na escola no ato de escrever, cabe lembrar que o emprego fora pura insistência nossa e não fruto de trabalhos forçados por parte dos pais, nem necessidade de ajudar no sustento familiar; muito menos deixar a escola nossa de cada dia. Disso eu poderia tirar o cavalinho da chuva. Hoje os adolescentes que tentam fazer algo parecido com aprender a ter responsabilidade e a ganhar o próprio dinheiro, correm o risco de serem recolhidos pelo ministério público, tirando a guarda dos pais imediatamente.

          Aquela atitude ajudou a forjar o nosso caráter, acredito plenamente. Um homem precisa aprender a trabalhar honestamente se quiser, um dia, formar a própria família. Acostumar a receber esmolas do governo desde pequenos é algo extremamente perigoso, porque tira a noção valor das coisas, e do esforço necessário para consegui-las.
          Na semana em que trabalhamos pudemos abrir uma conta na casa em frente, que vendia geladinhos; sorvete de suco artificial acondicionados em saquinhos plásticos. Era novidade e gastamos todo o salário da semana com isso e com band aids para as bolhas.

          Uma semana depois percebemos que a vida é dura para quem é mole e mudamos. Conseguimos emprego em uma chácara de japoneses que trabalhavam na feira. Eu e meus amigos aprendemos a plantar sementes, à distância de dois em dois palmos para frente e para os lados; a usar a enxada abrindo novas bolhas nas mãos, e colher alface para encher os carrinhos de mão e levar até os engradados para lotar os caminhões que iriam às feiras.

          A técnica da colheita da alface era bastante inteligente e peculiar: esticava-se um dos braços e usava-se uma delas como base na palma da mão, depois colocávamos diversas outras alfaces umas sobre as outras, até em cima na altura dos olhos, sem derrubar nenhuma até depositarmos nos carrinhos de mão.
          Eu, pessoalmente, não aguentei mais do que cinco dias e desisti descaradamente sem nem me preocupar em ir pedir demissão e receber pelos dias trabalhados. Descobri alí que estudar era o grande barato. Bem mais leve e limpo!

 

          A senhora japonesa, dona da chácara, se deu ao trabalho de ir até a minha casa acertar os dias trabalhados e dizer para a minha mãe que era melhor eu estudar; aquele tipo de serviço era pesado demais para alguém como eu, preocupado com a estética física para encantar as meninas.
          Apesar das desventuras não desisti do objetivo, apenas mudei de tática. Uma vez, passando em frente a um cemitério, vi que estavam precisando de vendedores de jazigo. Achei o nome da profissão bastante bonito; e o ambiente completamente tranquilo me encheu de esperança de conseguir um trabalho mais leve, afinal, os mortos não falam.

          Entrei e fui encaminhado à sala em que haveria uma palestra e em seguida as entrevistas para o preenchimento das vagas. Hoje tenho noção de que, já á época a recessão era alta, porque a sala comportava quase sessenta indivíduos, pais de família, vestidos de paletó e gravata, e um moleque de dezesseis que nem tinha a noção de que jazigo era sinônimo de túmulo, e nem que tipo de trabalho era aquele.
          Com o decorrer da palestra fiquei sabendo que o vendedor de jazigos recebia uma pasta preta, recheada por saquinhos transparentes; na capa o logotipo do “Cemitério Dois Irmãos... Antes eram três”, que consistia na sombra de três corpos, dois em pé e um na horizontal, dentro de uma cova. Dentro dos saquinhos, inúmeras fotos dos lotes residenciais de terra para servir de última moradia para os interessados em contar com segurança no post mortem.

 

          Aos vendedores cabiam ir de casa em casa tentar convencer as famílias, muitas morando em casa de aluguel, a adquirir uma moradia definitiva no cemitério. Os ganhos seriam uma porcentagem das vendas realizadas, o que não era muito, a não ser que houvesse vendedores bons o suficiente, e famílias realistas além da conta para investir na própria morte.

          É óbvio que não fui sequer cogitado para o emprego. Mas o entrevistador tinha uma proposta razoável de emprego e queria que eu ouvisse. Declarei interesse na mesma hora. O rapaz afirmou que apesar de ter apenas dezesseis, eu era alto e podia iniciar carreira como modelo. E além disso faturar uns cobres a mais limpando os jazigos e sendo ajudante de coveiro.
          Nunca tinha ouvido falar da existência de agências de modelos que trabalhassem como representantes de cemitérios; mas aceitei a oferta e fui para casa, orgulhoso, contar aos meus pais que seria modelo no cemitério.

          A partir daquele dia, durante meio período eu passei a frequentar o Cemitério Dois irmãos..., varrendo sepulturas, colocando flores e até copinhos de cachaça em determinados túmulos, faturando gorjetas dos vivos por cuidar bem dos mortos e economizando para a faculdade.
          Quanto ao trabalho de modelo, descobri que não tinha nenhum glamour, pois consistia em deitar em uma prancha de madeira para que o carpinteiro medisse tudo certinho na construção dos ataúdes. Eu era um modelo para a feitura de caixões.

 

          Passei a conhecer melhor o conteúdo da pasta dos vendedores e a técnica de vendas embutida. As fotos apareciam hierarquicamente. Ataúdes de primeira qualidade, coloridos, bonitos, resistentes e confortáveis, cheios de acessórios estavam na frente. Consequentemente eram os mais caros. Visavam encantar a futura vítima do sepultamento. No final ficavam as fotos dos caixões mais simples, de compensando, criados com sobras de madeira ruim, sem pintura nem trincos. Apertavam o morto lá dentro do jeito que coubesse e pregavam a tampa. Os ataúdes bonitos vinham com a legenda “A caminho do céu, carregado por anjos”. Os de compensado traziam a legenda “Penetre como puder nas profundezas dos infernos. E reze!”.
          Ano após ano eu ia gostando cada vez mais do serviço, e me encantando com o ambiente tranquilo. Tanto que decidi ir para a universidade cursar tanatologia. Atuaria na profissão e em breve teria o meu próprio cemitério.

          Apesar de ter uma adolescência e juventude com poucas namoradas, porque a maioria se assustava com o meu trabalho e com a minha atitude estranha para os padrões da moda.
          O sucesso com o sexo oposto veio pra mim com a moda dark, em que todos os jovens passaram a se interessar por coisas escuras, tristes e a frequentar cemitérios para ouvir as novas canções inglesas e recitar Baudelaire e Augusto dos Anjos. Anos depois voltaria a ter sorte novamente com o sucesso do filme com Bruce Willis, O Sexto Sentido, quando Haley Joel Osment ficou famoso dizendo que via gente morta. A minha vida amorosa deu um enorme salto de qualidade! Já profissionalmente...

 

Continua...
 

Marcelo Gomes Melo


Tempos de dor, tristeza e morte maquiados de festa e luz!

Todo fim de ano é arrasador! Não existe tristeza, a mídia repetindo todos os chavões à exaustão, gente sorrindo pelas ruas coloridas, casas enfeitadas, presentes e festa permanente.
 
O Papai Noel não tem diabetes nem problemas coronários, mesmo ingerindo tanta vodca e picanha de rena gordurosa. As casas brasileiras todas têm lareiras e chaminés, não importa o calor torrencial de verão no fim do ano. E a chaminé serve apenas para a descida do Noel de 150 quilos com um enorme e pesado saco de brinquedos às costas, mas não para a entrada de ladrões magros e sem escrúpulos que aliviariam as famílias dos presentes que as endividarão pelos próximos doze meses, e ainda degustarão suas deliciosas rabanadas, deixando a louça e a cozinha sujas para que as mulheres lavem ao amanhecer, enquanto os maridos entram em contato com as delegacias fechadas ou com nenhuma vontade de atender aos chamados de cidadãos desesperados e com o natal perdido. Isso se acreditarmos que toda a população tenha pelo menos uma rabanada para comer, o que está longe da realidade.
 
Nesses finais de ano perfeito com gente branca e feliz cheia de dólares e cartões de crédito existe até neve! Claro que nem imaginamos os corpos de pessoas e animais mortos, abandonados pelas ruas, congelados perto das lixeiras, sem lugar para se abrigar, sem dinheiro ou alimentos. No calor abrasador é mais fácil, perambulam como zumbis e são escondidos pela decoração de natal, atirados nas valas da morte lenta, esquecidos e ignorados pelos felizes profissionais, que assaltam o povo em todas as circunstâncias, achacam o comerciante honesto, levam juros e inflação às alturas e passam as festas pisoteando crianças que jamais experimentaram sequer um panetone.
 


O fim de ano é uma tristeza constante, uma enganação maldita em que até as ilusões são vendidas descaradamente, como se vivêssemos em um mundo perfeito! Nem ilusão sai de graça nessa terra das festas e comemorações sem razão de existir, a não ser perpetuar a safadeza dos paletós sacanas de bolso cheio de dinheiro que comandam o país.
A hipocrisia do dia a dia acentua-se no final do ano; as frases feitas e as fotos, os cartões com neve se repetem; as orações de amor eterno exaltando a ética, a honestidade e a bondade, a paixão divina e todos os desejos de realização plena para a humanidade são espalhados pelas mídias sociais, muito mais como propaganda da própria bondade do que por real desejo de que se concretize.
Fim de ano de luz e sonhos? Fim de ano de eletricidade muito cara e pesadelos, isso sim! E sem água!
 
          A oração necessária tem conexão direta com Deus e é secreta! Trata-se da verdadeira comunhão individual, na qual cada ser humano expõe os seus medos, suas falhas, seus reais desejos para a sua vida, que lhe faça evoluir como pessoa em todos os sentidos, respeitando as leis, conscientizando-se dos deveres e dos limites para depois garantir os direitos, usando a natureza com parcimônia, querendo felicidade para os familiares e para todos igualmente, mas em absoluto e total segredo. Nada de fazer essas coisas abertamente, com sorrisos falsos e enganosos, visando apenas status sem mover um dedo para ajudar e modificar os problemas que lamentam da boca pra fora e afligem o mundo.


A conversa com Deus é o elo definitivo através do qual a humanidade se conecta entre si e possibilita a melhoria para cada um indiscriminadamente, e para o mundo inteiro. Isso só irá acontecer quando essas desgraças maquiadas de fim de ano feliz forem desmascaradas e sejam mais importantes as ações pertinentes, por menor que seja, do que as enormes manifestações ridículas, mentirosas e repetidas ano após ano.

A tristeza, a depressão e a morte vestidas de vermelho e bebendo prosecco comandam o fim de ano há tempos, e em alguma hora terá que acabar.

Feliz choque de realidade e menos frescura para todos nós!


Marcelo Gomes Melo

Histórias de casais III: Final orquestrado de um amor dançarino

 

- Nós nos conhecemos em uma festinha de despedida de solteiro – Falei o mais naturalmente possível, mas a atenção das moças se redobrou automaticamente.
- Como assim? – perguntaram olhando para a minha garota, inquiridoras – Despedida de quem?

- De uma amiga dela – sorri condescendente, mantendo o mistério inicial.
- E como é que você foi parar lá?! Não era uma despedida só com a presença de garotas?
- Sim, Nanda, é por isso que eu estava lá. – Arlindo e Crescêncio caíram na risada – Estava trabalhando, diga-se de passagem. – e contei, após um gole de cerveja – Eu era gogo boy. Estava lá para dançar para as moças, seminu, principalmente para a noiva.

A surpresa das meninas foi completa. Ganhei toda a atenção que a curiosidade misturada à bebida poderia conceder. Arregalaram os olhos significativamente para uma impassível mulher, que não contribuiu com sequer uma palavra, até o momento.
- Estava eu cercado pelas moças de frente para a noivinha bêbada e feliz sentada em uma cadeira, rebolando sugestivamente ao som da trilha sonora de “A pantera cor de rosa”, arrancando a máscara e a capa, ficando apenas de sunga e botas, sensualizando para a sorridente noiva quando a vi entre as amigas, batendo palmas meio deslocada, mas se divertindo. Todas eram bonitas, mas ela era diferente. Parecia estar em um show do padre Marcelo Rossi, recata e discreta, cantando “erguei as mãos...”, enquanto as outras falavam todo o tipo de sacanagem já ouvida nos piores antros do planeta em todos os tempos.
- Ele era um bailarino sacana cheio de sorte! – debochou Arlindo – Nunca dançou nada, mas enchia o bolso de dinheiro.

 

- Continue, continue! – elas pediram curiosas.
- Ela chamou mesmo à minha atenção quando colocou uma nota de cinco reais na minha sunga do Batman, à altura do meu quadril esquerdo, timidamente...
- O quê? Ela fez isso?!

- Sim, fez. Não fez, meu amor? – nenhuma resposta – Aí eu pensei comigo: que raio de mulher mais unha de fome! Cinco reais! As outras enterravam notas de cem e de cinquenta reais no fundo da minha sunga. Eu já estava ficando de saco cheio daquela música da pantera! – as garotas sorriam já embriagadas e ainda mais curiosas – Trocaram a música para outra bastante gay, mas eram ossos do ofício; mandei ver o som de “I’m to sexy”. Apareceu uma menina de uns dezoito anos que aparentemente havia quebrado o cofrinho e trazia uns cinquenta reais de moedas enfiadas em um saco plástico para colocar dentro da minha sunga. Dinheiro é dinheiro, pensei comigo, e ainda bem que a festa estava no fim, porque dançar carregando tanto peso era bem desconfortável.

Crescêncio chama uma garrafa de champagne para aumentar o nível da noitada. Minha garota observava as próprias unhas, indiferente. As outras pediram, então continuei.
- As convidadas me tascavam beijos pelas pernas e arranhavam a minha espinha dorsal, enquanto a noiva gritava histérica e mandava ver no suco de vodca. – voltei meu olhar carinhoso para a minha garota – Esse amor de doadora financeira, entretanto, nem me tocava, apenas observava e batia palmas, após a generosíssima doação.

- Caramba, que história de amor diferente! Conte mais! – pediu Linda, surpresa – Como foi que se falaram, afinal?
- Ah! A noivinha começou a vomitar de tão bêbada e desmaiou em coma alcoólico, então fui dispensado.. Enquanto eu contava a bolada e me vestia, satisfeito com a féria, ela apareceu para agradecer e informar que as amigas estavam dando um banho gelado na noiva, e que ela iria ficar bem.
- Foi nesse momento que você se aproximou? – perguntou Nanda.
 

- Sim. Cogitei devolver os cinco reais, ela me parecia com um aspecto esfomeado, “tadinha”... Não é, anjo? – eu sorri charmosamente – Mas fazendo uma análise melhor resolvi convidá-la para sair. Achei o seguinte: “Essa esfomeada merece um pouco de atenção; vou levá-la para tomar Q-Suco de laranja e comer um churrasco grego. Será a minha boa ação da noite”. Dei o meu melhor sorriso, chamei-a de docinho e afirmei que queria pagar um caldo de cana e um sanduichão de mortadela. Sem dar espaço para dúvidas, exigi que fosse pegar a bolsa e vesti minha jaqueta, indo esperá-la no portão. Iria gastar todas aquelas moedas com ela!
Nanda e Linda nem sabia o que comentar. Olhavam de mim para ela e vice-versa, constrangidas e chocadas. Foi quando ela se manifestou:

- Eu não sei quem foi essa idiota que caiu nessa sua conversa machista e nojenta – levantou-se, brava – Mas com certeza se enganou de mulher. Não era eu! – estava furiosa – Acha mesmo que eu estaria com você se soubesse que era um reles dançarino pornô? E anote isso enquanto dança; não quero ver essa sua cara arrogante nunca mais, entendeu bem? – e saiu pisando duro completamente irritada.
As garotas logo foram atrás dela, prestar solidariedade e tentar acalmá-la. Nós, os homens, ficamos os três calados, trocando olhares assustados.

A garrafa de champagne chegou e Crescêncio abriu-a e serviu. Só então um de nós resolveu falar. Arlindo.
- Eu não falei que era tiro e queda? Eu falei que ia dar certo! Foi melhor do que você terminar o namoro. Deu a ela a possibilidade de sair por cima do relacionamento!
- Você é bom, Arlindo, você é bom! – comentou Crescêncio admirado, erguendo a taça.
Então brindamos ao final orquestrado de um amor dançarino falso.

 
Marcelo Gomes Melo


Histórias de casais II: Anaconda
 

          Uma rodada de saquê. Foi a deixa para Arlindo Brown, assim chamado pelos amigos por ser considerado um sósia e descendente de James Brown e antecedente de Mano Brown. Principalmente pelo corte de cabelo. De verdade, de verdade, ele jamais penteara os cabelos como James Brown, era pura sacanagem dos amigões. Mas dançava como James Brown.

          - Como podem atestar meus fãs – começou Arlindo, sem modéstia – O módulo humano de mais sucesso entre as fêmeas do universo, ou seja, eu mesmo, ajudou a sorte dessa linda moça conhecida por Nanda a me encontrar enquanto fazia a feira da semana com a gárgula.

          - Gárgula?! – indagaram as outras duas

          - Não fala mal da minha mãe! – protestou Nanda dando-lhe uma tapinha.

          - Ela atropelava as pessoas com aquele carrinho cheio, amassando pés e fraturando dedões sem condescendência! – insiste Arlindo – A velha é uma anaconda! Vai comprar um cacho de uvas e experimenta dois, de graça. Vai comprar um quarto de uma jaca e devora os outros três sem pagar, como teste! – risos gerais – Imaginem aquela cobra que engole um hipopótamo e depois hiberna por  meses! Só que os meses dela duram apenas uma semana!

          - Quem hiberna é urso, tonto! – retruca Nanda, sorrindo

          - Vocês se conheceram em uma feira?

 
          - Sim, Linda, sim! Na banca do abacate, enquanto a mãe dela amassava as frutas, comia com casca e cuspia os caroços. Cheguei discretamente e elogiei os melões.
          - Na banca do abacate?!
          - Discretamente mesmo, com aquele paletó de lantejoulas e purpurina dourada – lembrei, cruelmente.
          - Você, discreto? – rebateu Nanda – Olhando meu decote ostensivamente e sorrindo como um lobo mau, com aqueles cabelos...
          -... Escorridos e divididos ao meio, como James Brown. Ele usava alisabel – Crescêncio completa, maldoso.
          - A mãe dele confirmou que ele passava o cabelo a ferro – informei, e caímos na gargalhada.
          - Aliás – rebateu Arlindo – Quem fornecia o alisabel e o ferro de passar roupa eram suas amadas mães. – Arlindo não perdoava. – Continuando... Quando me viu em todo esplendor ela não resistiu e ficou caidinha por esse servo de Deus que vos fala.
          - Caidinha? Foi você quem caiu! – Nanda tem uma crise de riso ao lembrar.
          - Eu estava lá! – gritei entre a risadaria – A Nanda tem razão! Você meteu a testa na quina de madeira da cobertura da barraca e se esparramou no chão, desmaiado.
          - Minha nossa! – as meninas estavam pasmas
          - Parecia uma enorme lichia dourada com um galo gigantesco na testa! – Nanda se divertia ao contar – E minha mãe, a anaconda, foi quem socorreu o desgraçado, colocando gelo da banca de peixe na testa dele.
          - Eu e o Crescêncio o carregamos para o apartamento da mãe da Nanda, ali perto – contribuí com a história – Com a tinta da cabeleira escorrendo por causa do gelo na cabeça...
 
          - Ele usava tablete Santo Antonio para tingir – Crescêncio informa calmamente – A gente perguntava: “Quem é você”? E ele respondia: John Lennon!
          - Só não lhe digo quem é que tinge os cabelos e em que local específico por respeito às moças e ao ambiente, Crescêncio, seu traíra! – era Arlindo, falsamente indignado.
          - Foi assim mesmo – afirmou Nanda – Ficou três dias lá em casa, elogiando a comida da minha mãe e jogando damas com meu pai. Depois o flagrei dançando funk usando o pijama do meu pai e aquele paletó horrível por cima.
          - Os cabelos sem o ferro de passar ficaram a La Tony Tornado... – complementei, erguendo o copo.
          - O que você não diz é que dançou lambada na horizontal comigo lá mesmo, no quarto hóspedes, não é? – acusou Arlindo mordazmente, fazendo Nanda sorrir sem jeito. – Conversa vai, conversa vem... Me dei bem! – beija a namorada carinhosamente – Agora o mundo está melhor!
          - Vamos pedir? – falei, fazendo um gesto para o garçom.
          - Não pense que não irão contar como se conheceram! Ainda falta vocês dois! – Linda e Nanda cobraram.
          - Quem conta, eu ou você? – perguntei, olhando para ela com um sorriso malandro.
          - Você conta! – Crescêncio e Arlindo uniram as vozes para decidir com veemência – Não pense que vai escapar dessa!
          Esfreguei as mãos e bati palmas uma vez, para restaurar a memória e iniciar o registro da minha história de amor... Risos.
 
Continua...
 
Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...

Expandindo o pensamento