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A alameda por trás das cortinas


Eu sou o anjo por trás das cortinas, velando o seu sono
Sou o maldoso inocente que amassa os lençóis com você embaixo
Depois fica deitado, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça, pensando
Em como a vida pode ser perdida em hesitação
E vivida em angústias, delícias e “nunca mais” eternos
Acho até que desmaio quando passo do ponto, porque deixo de ver
E só sei repetir que tudo o que não é você é inutilidade.
Às vezes escureço de amor como um figo
E as maçãs, enrubescidas são comidas com a maior das fomes
A gula do século...
O anjo por trás das cortinas não é cético, é completamente
Desprovido de noção

As armações dos mortais são tão... Ilusórias.


Marcelo Gomes Melo
Camarada cabisbaixo


         Com as mãos dentro dos bolsos, a cabeça abaixada, o queixo colado ao peito. Cidadão jovem, magrelo, cabelos cortados rente, ombros encolhidos fazendo o pescoço sumir indubitavelmente.

          O estranho é que o que o fazia à beira da praia. No calçadão ao lado do passeio das bicicletas, alheio aos barulhos das ondas quebrando nas pedras molhadas, espumas brilhantes sob os raios solares, irascíveis, atraindo a atenção dos banhistas sorridentes, enjaulados em suas teorias comuns, satisfeitos com o que as cápsulas de felicidade lhes ofereciam.



            Tanta gente aparentemente saudável e feliz, demonstrando o resultado artificial das academias, todo o investimento feito em status, todos filhos de deuses tatuados em seus corpos munidos de borrachas que apagam todo o bom senso de seus cérebros toscos.
         Ninguém parece notar o cabisbaixo, rubicundo como um tomate, os olhos escuros como a tempestade que se anuncia suavemente no horizonte, logo antes de surgir aterrorizante com seus relâmpagos, rugindo com seus trovões como um pastor na Praça da Sé, que atira a Bíblia com força contra o solo e, urrando desvairadamente prevê a chegada do juízo final, sem perceber que está no meio dele há tempos, citando os mais agonizantes destinos aos que corajosamente o escutam.
          A grande maioria ignora, finge que não se importa e foge, sorrindo ironicamente tentando provar que não o temem; muito menos ao futuro aterrorizante atirado em seus rostos.
          Os banhistas felizes, caso o notassem, franziriam as testas, desconfortáveis; se encolheriam com asco, se afastariam de imediato. Mas em quase sua totalidade preferem ignorar.
          O homem, cabisbaixo, silencioso, continua o seu caminho, imune a tudo e a todos. Não muda por eles; não vive por eles. Esse homem sabe que carrega o peso do mundo em suas costas.


Marcelo Gomes Melo   


Questiúncula




          Ah, todos esses amores!
          Até que lugar lhe levaram
          Desde a tenra juventude?
          Houve um momento em que ousasse
          Parar para pensar

          Em latitude e longitude?



          Como se localizar
          No meio de tantas manobras dispersivas?
          Esses amores febris deslizaram pelo seu colo
          Atazanando-lhe o juízo?
          Até que fossem arrancados cruelmente
          Como um dente do siso?




          Um dia tomou consciência
          Durante a idade adulta
          Passou por dificuldades
          Apanhando desses amores
          Como se fosse uma luta?



          E agora no fim dos tempos
          Sabedor de que alguns amores
          Vão e vêm
          Tem certeza de que o mais resistente
          Talvez não lhe faça bem?



          Ou continua perdido
          Sem saber de nada
          Conforme desde o início?
          E isso lhe dá a certeza
          Dos amores desditosos
          Soterrados em suplício



          No final da caminhada
          A um passo do além
          Voltaria os seus olhos
          Para a última tentativa
          De saber se foi mais tristeza
          Ou felicidade durante a vida?


Marcelo Gomes Melo

Útil como pescar no mar morto

             Eu realmente não sou como vocês. Não sou um gênio, não sou hacker, não sei absolutamente nada a respeito do cyber mundo; garanto-lhes que caí aqui de paraquedas, de forma que ficarei de costas para a parede, com o olhar reto fitando o horizonte indiscriminadamente, imparcial como uma grelha de churrasco.

          Não darei uma palavra a não ser que seja solicitado a oferecer um tostão da minha voz, expressando toda a minha falta de conhecimento. Não olharei a ninguém nos olhos, então será impossível, mesmo que virtualmente identificar a qualquer cidadão de chapéu negro presente nesse chat e muito menos nesse domínio.



           Meu interesse, já que estou por aqui, é observar e gravar no meu já combalido cérebro informações que possam vir a ser úteis em um futuro próximo ou distante. Não sou polícia! Não sou, repito, polícia ou qualquer rato do governo; não compactuo com nenhum governo ou falta dele, o que vem a dar no mesmo. Também não sou anarquista, atleta olímpico ou de alcova. Os meus dedos são duros, grossos e grandes, sem qualquer conotação sexual, apenas tenho dificuldades em acertar as letras do teclado, eis a razão para os erros, que não são propositais e nem se tratam de gírias cibernéticas nem analfabetismo congênito.
          Não desejo e não preciso de nada específico. Mulheres nuas, vídeos e fotos, talvez. Sem compromisso. Não é preciso enfiar reles cavalos de Troia neles porque não há nada em meu computador. Nada mesmo. Vazio como o meu cérebro. Seco como o útero de uma velha operada. Inútil como pescar no mar morto.



          Não espero aprender a ganhar dinheiro, estou velho demais para isso. Não quero detonar grandes redes capitalistas apenas por diversão. Não me emociono com a chance de hackear senhas de namoradas para aferir o índice de traição, real e virtual, nem aprender a fabricar bombas caseiras como vingança e retaliação, eliminando figuras amadas ou concorrentes. Eu abri o meu coração como um vendedor de chicletes no metrô por que... PLAFT!
          Tela azul, caveira vermelha chamando de idiota em alfabeto cirílico... Tela preta. Fim. Computador destruído.
          Droga! Não compraram a minha argumentação. Devem ter achado que eu era algum tipo de vendedor das casas Bahia.



Marcelo Gomes Melo

Previsões escalafobéticas para um mundo reconfigurado


          ... E as águas cairão em torrentes, irmãos em armas! E devastarão cidades enquanto o povo clama por elas; mas, ao invés de saciar-lhes a sede e limpar-lhes o corpo conspurcado pelo pecado do funk carioca e das duplas de tomateiros caipiras, as águas os derrubarão e os devorarão afogados, soterrados na lama de sua própria culpa.
          E fanáticos enlouquecerão, enquanto os cínicos se tornarão fanáticos. O planeta trocará de nome e as proporções de terra e água se inverterão; o planeta Terra será rebatizado planeta Água, e a humanidade será reconfigurada, assim como países em novas extensões territoriais, clima e idiomas.

          Muitos morrerão. Muitos. Mas políticos, não! As desgraças serão substituídas, mas os pais das desgraças permanecerão, de paletó e gravata, manipulando tolos que implorarão diariamente para continuarem a ser enganados.


             No final, caros convivas, talvez bebam petróleo para economizar água, um bem de extremo valor, acessível apenas aos ricos. Por isso, liguem os seus celulares! Acessem a Bíblia virtual! Aumentem bastante a letra, para certificarem-se de que podem enxergá-las.
          Os “broderes” que ainda souberem ler se assustarão a ponto de desabarem mortos de horror e medo. Os que fingirem entender, porque estão há muito afastados das letras e do estudo, da escrita e da leitura gritarão e chorarão, como é de praxe entre os preguiçosos e covardes, enquanto a face bovina, mascando um chiclete inexistente e os olhos baços demonstra que ignoram completamente a razão pela qual choram.
          Novos pensadores e cientistas ateus apresentarão novas teorias de que o mundo acabará em barranco, como uma enorme queda d’água... Sem água. Acessem os seus ipad, hermanitos, e toquem no volume máximo o hino axé da redenção final!


Marcelo Gomes Melo

“Linguinha”



          O que deflagrou o problema como se fosse um ataque terrorista ao escritório de advocacia daquele prédio luxuoso no centro, a nata das firmas lucrativas e seus homens de negócios frios e calculistas foi apenas uma palavra, dita em voz alta na presença da suposta vítima, que odiava o apelido, o que era sabido por todos os seus colegas, do ascensorista ao maior investidor da empresa.
          Que sempre falavam às suas costas, imitavam e riam bastante, era notório, até ele sabia, embora fingisse que não. O que havia era essa linha tênue entre o desrespeito e a troça com a manutenção do status conquistado com muito trabalho e persistência.
          Era quase hora do almoço de um dia agitado na firma, com homens de terno e mulheres de tailleur circulando com documentos importantes, pastas misteriosas, falando ao telefone, todos funcionando na adrenalina máxima. Os problemas se multiplicavam e eles eram solucionadores. O bônus gordo de fim de ano dependia disso.
          Não havia espaço para piadas ou brincadeiras naquele ambiente, naquele momento em que o Doutor Ataildes cruzou o salão bufando, tenso, com o paletó de grife aberto, suando como funcionário de sauna, a pasta marrom de couro tremulando na mão direita como a bandeira da justiça. Ele se encaminhava ao escritório do chefe para discutir documentos importantes sobre um caso do qual estava encarregado, quando, de uma das muitas mesas do longo escritório ouviu-se um brado retumbante, num tom jocoso que causou uma explosão de risos imediatamente.
          As gargalhadas explodiram ininterruptas e o fizeram estacar no meio do corredor entre as mesas, como um camaleão. Imóvel, de olhos pétreos, mudando de cor, do pálido para o rosa e em seguida bordô, para finalmente atingir o tom púrpura. Apertou a alça da pasta de couro e gotas de suor escorreram por sua face.
          - Linguinha!



             Essa fora a palavra. O apelido da discórdia que algum gaiato sem coração, sem pai nem mãe ousara externar no pior momento possível, em que todos estavam sob a máxima pressão.
          Talvez esse tenha sido o motivo. Desencadear uma onda de gargalhadas que aliviasse o peso das responsabilidades trabalhistas, renovasse o ar do ambiente e retomasse as energias para a continuação do trabalho. Algo simples como reiniciar o computador para melhorar o seu desempenho.
          Até aí tudo bem, caso não fosse cruel aliviar o peso de vários trabalhadores depositando na conta de apenas um, que poderia superar ou não a brincadeira. Linguinha não superou. Odiava a alcunha que carregava desde os tempos de colégio, passando pela faculdade e que nenhuma aula de dicção ou fonoaudiologia corrigisse. O cérebro estava condicionado.
          Às vezes, nas noites de amor e sexo, admitia que sua amada parceira o sacaneasse assim, sem reclamar, pois o “vai linguinha” o acelerava no alcance do ápice. Depois, enquanto fumavam juntos ainda ficava emburrado com a mulher, mas superava.
          No campo, jogando futebol, quando as emoções estão à flor da pele lhe rendera diversas brigas e expulsões, inclusive com a tentativa de agredir ao árbitro e pessoas da torcida.
          Esse fora o calcanhar de Aquiles do Linguinha. Quando se virou em direção às mesas, as gargalhadas secaram e um silêncio incômodo, lotado de expectativa tomou conta de todos.
          O estagiário em pé na Xerox encolheu-se, tentando sumir do ambiente; as secretárias tentavam manter a pose como podiam e os advogados experientes juntavam as sobrancelhas tentando conter o riso e demonstrar concentração.
          Linguinha os observou, um a um, como um carcará sanguinolento, e após segundos que pareceram horas, se manifestou:
          - Que “poga” é essa, “kagalho”?! Quem foi o fdp que “ggigtou” isso? Vai “teg” que se “apgsentag agoga”! “Covagde do kagaio”!
          O homem afrouxou a gravata e passou a caminhar por entre as mesas brandindo a maleta como uma arma mortífera, um detector de quem o desrespeitara descaradamente. Olhava na cara de todos, furioso, sem obter qualquer confissão. Espuma no canto dos lábios, só ele falava, nervoso, enfurecido.


             - E então, “poga”? É homem “paga falag” pelas costas, mas não tem “cogagem” de confessar o insulto?
          Ele derrubou grampeadores e chutou cestos de lixo na caminhada da fúria, possesso como um vingador, digno como um francês.
          - Eu “jugo” que não vou “pgocessag”; só “quego matag” esse “desgagçado”!
           Atenção do chefe, que estava em sua sala aquário cercada por paredes de vidro em reunião com alguém importante foi logo atraída por aquela balbúrdia.
          - “Paguem” com isso, “bugos”  estúpidos! “Pegcisam tagtar bem aos companheigos”, não colocá-los “paga” baixo com esses “comentáguios” infantis! Quem foi? “Quego pogmeteg” que vou “dag” queixa “contga” o “salafaguio” que fez isso comigo!
          Quando estava verde como um pepino, o chefe chegou ao ambiente exigindo saber o que houve. O Linguinha estava a ponto de enfartar e foi chamado para a sala do patrão,conciliador, que ofereceu água e procurou acalmá-lo como podia, prometendo não medir esforços para descobrir e punir o culpado. Já conhecia o problema de língua presa de Ataildes.
          Apresentou ao homem que estava com ele na sala como o supervisor geral da empresa, que estava ali justamente para resolver problemas profissionais como aquele, que envolvia desrespeito por parte de colegas; assédio moral. O problema do doutor Ataildes seria o primeiro da lista.
          - Não é mesmo, senhor Maldonado? – o chefe perguntou, dirigindo-se ao supervisor, que, sentado com as pernas juntas e uma maleta 007 no colo apenas assentiu positivamente, sem abrir a boca para dizer nenhuma palavra.
          Linguinha foi se acalmando, ouvindo as ponderações do chefe e o clima foi melhorando; o estranho é que todas as vezes em que tentou incluir o supervisor no assunto, ele, parecendo meio assustado, colaborava apenas com gestos e sorrisos tensos, nada de falar.
          Finalmente Linguinha foi convencido pelo chefe a aguardar as investigações trabalhando em casa, via internet e retornar no dia seguinte com a solução para o cliente, e o probleminha dele estaria resolvido. Linguinha despediu-se do chefe e do supervisor, cruzando a sala de cabeça erguida, atento, digno e com vontade de fazer justiça com as próprias mãos; mas ninguém lhe deu motivos.
          Depois da saída de Ataildes linguinha, o chefe, curioso, quis saber do supervisor por que ele nada dissera na presença do advogado que esperava uma solução para o caso.
          O supervisor, então, respondeu:
          - “Clago” que eu não “diguia” nada! Já pensou se ele acha que eu estava “bigcando” com ele?


Marcelo Gomes Melo
Os segredos de sua lista de favoritos


        Assistindo ao programa do musico e apresentador Rogério Skylab no canal Brasil, chamou-me a atenção um comentário do entrevistado, o quadrinista André Dahmer, que disse ser interessante descobrir a lista de favoritos no computador de pessoas famosas, porque isso daria a ideia do caminho de vida tomado por essas pessoas, que invariavelmente seriam diferentes do que demonstram.
         Os interesses de qualquer pessoa pode determinar quem é ela, institucionalmente? Talvez. Suas preferências provavelmente digam respeito à imagem pública que deseja construir de si mesmo, o modo como deseja ser visto pelas outras pessoas. Então, em uma pesquisa sobre autores, por exemplo, é bastante natural que alguém avesso à leitura procure citações populares, pois desse modo se incluirão no indistinguível gosto das massas. Paulo Coelho, então, poderia ser bastante citado como preferência; mas em caso de perguntas mais específicas ficará claro que a enorme maioria de quem o citou jamais o leu, ou a qualquer outro tipo de livro de qualquer autor.
        O ponto fora da curva é saber quem realmente são essas pessoas quando estão sós, sem testemunhas, sem que ninguém os  veja. O que fazem? Do que gostam? Por que as preferências nunca coincidem?

          O ser humano age assim: cria uma imagem pública com a intenção de vender ao restante da sociedade; dentro dessa imagem cria uma ideia da maneira como acha que as pessoas o veem e não faz ideia de como realmente o veem. É comum. Há os que saem espalhando informações sobre o que gostam, o que odeiam, o que acham certo ou errado, repetem sobre si mesmos que são “isso”, são “aquilo”, ajudam “nisso”, têm dó “daquilo”, não é justo “isso”, é injusto “aquilo outro”... A lista de qualidades é imensa, mas a de defeitos inexiste.



          Ninguém jamais para por um momento com intenção de analisar a si mesmo como realmente o são; conhecer os próprios erros e aceitá-los é mais importante do que os acertos, pois esses últimos saltam aos olhos. Qualidades não precisam de propaganda. Defeitos precisam ser relembrados a todo instante, como fazia Julio César, imperador romano, para equilibrar a chamada “síndrome de Deus”, de achar ser melhor do que realmente o é; melhor do que as outras pessoas do mundo.
          Ah, os segredos que cada um carrega! Dançar quando ninguém está vendo, cantar no banheiro, fazer caretas no espelho... Escolher sites e blogs diferentes para acompanhar do que os que dizem por não serem de sua área de interesse público... Deixar de dividir a informação com ninguém...
          E se tivesse que citar três dos seus favoritos? Não toda a sua lista, apenas três. Teria coragem?

          Se tiver, faça. Cite três de dos seus favoritos e em seguida analise as suas escolhas que alardeou. Citou a algum dos que não queria que o mundo soubesse?

Marcelo Gomes Melo

As verdadeiras rainhas das pistas de dança e as lagartixas




          Já dançou, nos áureos tempos, com aquele tipo de garota que te mantém afastado na pista de dança, parecendo que tem nojo de você, só que é ela quem parece uma lagartixa nojenta e pegajosa, fria e distante, que não sente a canção e não demonstra nenhum tesão por você, pela música, diversão e muito menos pela vida? Um cadáver ambulante assombrando os bailes juvenis.
          Aquela monstruosidade com quem só se dança se perder o sorteio, e ainda assim fica-se resmungando internamente, torcendo para que a música acabe ou iniciem a dança da vassoura naquele instante, tirando de você o desprazer que é circular com aquela boneca de plástico pelo salão, ficando com a vassoura que, pelo menos não se importa de varrer o chão.
          Esse tipo estranho frequentou todos os bailes do final dos anos oitenta, acredite. Geralmente eram bonitas e inexpressivas. Apostavam que a beleza decantada pelos pais e parentes era suficiente, e gostavam de servir de inspiração platônica para os garotos tímidos que apenas observavam. Gostavam de ser olhadas, não tocadas; eram incapazes de dar ou sentir qualquer tipo de prazer. Amavam a si mesmas, mas à distância.

          Mal sabiam esses fantasmas das pistas durante a seleção de músicas românticas é que não bastava a beleza; o que valia era o calor. O amor pela dança, pela diversão. Saber se encaixar entre os braços, coxa entre coxas, os movimentos fluidos, o olhar de promessa cínica que dificilmente se concretizaria... As mãos no peito, a respiração suave sentindo intensamente a música. Era com esse tipo de garota que a dança se tornava inesquecível. E anos depois ainda é possível fechar os olhos e sentir o perfume e o leve tremor nos lábios que ela se permitia mostrar para completar o encantamento.



Marcelo Gomes Melo



Eu poderia até lhe contar, mas então teria que...


             As mulheres querem sempre saber de tudo, e sempre querem saber a verdade. Será que não imaginam o quão perigoso isso é?
          Um homem pode guardar para si grande parte das maldades do mundo sem pestanejar, sem falar por horas reclamando, praguejando e se lamentando. Chorar à toa é deprimente, desconfortável e indigno para um homem. Não se trata de machismo, de forma alguma! Nas cavernas em que habito isso não existe. O problema é atitude e percepção diferente de mundo.
As mulheres querem sempre estar entre os que sabem de  tudo. Mesmo que não tenha nenhuma importância e não vá afetar suas vidas, preferem estar por dentro. “Como assim seu amigo bêbado e fumante está com o fígado e os pulmões avariados e você nem me contou”? Eu sempre disse para você não se envolver com ele, que era má pessoa! Como permitem que ele jogue futebol e baralho com vocês?!
É ele quem está doente, não eu! Eu não fumo e só bebo socialmente, como é que o homem pode ser má influência, você pergunta timidamente, temendo produzir uma série de sermões e brigas desnecessárias.
O melhor exemplo de tudo isso é o daquela mulher que namorou o cara por anos e anos, ficaram noivos e ela sempre insistia em saber o que ele tinha que fazer todas as quartas-feiras entre 21h00 e 24h00, chovesse ou nevasse, desde que se conheceram. Ele, sério, sempre respondia que poderia até contar, mas então teria que matá-la. A moça sorria amarelo, mas não se conformava. Como o noivo podia sumir toda quarta por três horas sem contar a ela, ou pelo menos levá-la como companhia? Afinal esse mundo era tão perigoso... Como se ela fosse uma guarda costas eficiente. Mas não haviam nem se casado ainda; melhor garantir-se primeiro antes de infernizar a vida do rapaz.


Só que o casamento veio. E com ele todas as garantias financeiras, afetivas e legais que cobriam o seu direito à cobrança sobre os atos do marido. Então começou a aterrorizar logo na lua de mel, insistindo para que ele contasse o que ia fazer todas as quartas sozinho e aonde ia. A resposta, gentil, mas fria era a mesma: até podia contar, só que teria que matá-la.
Com o passar dos tempos o sorriso amarelo de conformismo e aceitação foi se tornando um rosnado ameaçador, mostrando unhas e dentes, acelerando a voz esganiçada sem parar n os ouvidos do homem, cuja calma estava sendo minada e a tolerância abalada.
Até que, em uma quarta-feira, ao chegar do compromisso noturno foi abordado pela esposa de forma mais insistente e desagradável, repetindo as mesmas cobranças e perguntas, cada vez mais agressivas e difíceis de suportar. A madrugada já ia alta quando a resistência estoica do marido ruiu. Sentando-se na cama, curvou-se e com os lábios alcançou a orelha da esposa. Atenta, ela sorveu cada palavra que ele contou em voz baixa e tranquila. Arregalou os olhos, abriu a boca em forma de zero, demonstrou todas as características femininas de satisfação por descobrir um segredo alheio. Fez expressões de reprovação, balançou a cabeça positiva e negativamente a seu tempo, até que suspirou por longos minutos, ciente de tudo, de cabo a rabo. Quase um orgasmo; não, melhor do que um orgasmo! Logo viriam os questionamentos intermináveis, a pressão para saber mais detalhes...



O marido vestiu o roupão, impassível, e foi até a cozinha, deixando-a na cama, pensativa, vitoriosa, degustando o segredo. Quando ele retornou ao quarto ela já estava preparada para iniciar o terror pelos detalhes. Abriu a boca e olhou para o marido em pé ao lado da cama. Deparou-se com o cano escuro de uma arma de fogo apontada para ela. A voz sumiu de sua boca e o sangue de seu rosto. Só teve tempo para lembrar o que ele sempre lhe dissera desde o tempo de namoro.
A polícia a encontrou morta com dois tiros no peito e um na cabeça, execução profissional. Assassinato limpo, rápido e frio. O marido havia sumido sem deixar vestígios ou impressões digitais em lugar algum. Jamais o encontrariam.
No inferno, o diabo já pensava em transferi-la para a solitária, pois não aguentava mais tanta pergunta sobre o marido que a detonara!


Marcelo Gomes Melo

É tétrico. E continua.


Morreram. Felizes e ignorando o valor das informações que carregaram em seus cérebros tortuosos.

Faleceram. Não sem antes espalhar pelo mundo os dogmas fúteis que lhes instigaram a crer como um zumbido constante em seus ouvidos que logo ficaram moucos. E os fez aprender a comunicação não verbal mesmo que estivessem de costas, comandados pelo tremor da terra quando se aproximavam sorrateiramente. Um trem descarrilado abalando as estruturas de aço dos grandes edifícios que guardam carneiros vestidos como lobos, agindo como lobos, destroçando a carne uns dos outros e massacrando ovelhas, fazendo-as acreditar que um dia chegariam ao status de lobos.

Daí a traição. A falsidade explícita e as atitudes covardes proliferaram por culpa deles, e assim continua até hoje. Lucrar com a desgraça é mais importante do que acabar com a desgraça. Uma multidão de desgraçados nojentos caminhando a esmo, ouvindo e multiplicando bobagens e canalhices, deixando um rastro inacabável de sangue por onde suas teorias nocivas e informações malditas passam.

Lugares inóspitos, hospitais sem médicos e sem macas, salas de aula vazias, sem alunos e sem professores, igrejas destruídas e cultos inexistentes por falta de fiéis e de guias espirituais verdadeiros... Apenas os shows de axé e sertanejo americanizado lotados por tolos que expõem seus corpos enquanto se distanciam cada vez mais de suas almas escuras.

Morreram. Isso nada significa. Logo surgirão outros, piores dos que os que se foram porque sabem ainda menos e creem ainda mais. Há uma névoa escura em torno do planeta. A culpa não é do planeta.

Não há espaço para reles destruidores, não há como salvar miseráveis nem com toda a expiação que os acometesse em três vidas!

Tudo é tétrico. E continua.
 
Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...

Expandindo o pensamento