O padre Antonio Vieira
foi um dos religiosos portugueses que aportaram na terra brazilis com o
propósito de catequizar aos seres que, segundo a arrogância predominante e à fé
cega, não tinham alma, pois não serviam ou conheciam o deus europeu. Os brasileiros.
Índios. Índios brasileiros donos das terras e de toda a riqueza que sustentou
Portugal, procrastinando sua decadência financeira.
Vieira era um excepcional pregador, conhecedor dos escritos
bíblicos e possuidor de uma verve exemplar; uma capacidade incrível de
convencer através de argumentos astutos e irrefutáveis, tendo como símbolo
maior da veracidade de seus discursos, nada mais, nada menos do que o próprio
Deus, Todo Poderoso.
Em sua obra “O sermão da sexagésima”, realizou um trabalho
genial de teor religioso, que transcendeu as Eras e marcou o estilo literário
com magnífica qualidade, versando metalinguisticamente sobre a arte de pregar
em quinze volumes. A clareza, a coesão e a coerência, bem como o pensamento
lógico, transbordam como principais características do texto.
No exemplo a seguir, versos de um poema do padre Antonio,
no qual um ser humano simples, pecador, e ciente dos seus pecados, argumenta
com Jesus Cristo através da oração, reconhecendo as próprias falhas e,
inteligentemente solicitando o perdão de forma a não deixar espaços para que
seu pedido seja negado.
No poema, Vieira faz
referência à parábola do filho pródigo, comparando a si mesmo a uma ovelha
desgarrada, e apresenta a noção de proporcionalidade, insinuando que, de acordo
com os desígnios divinos, quanto mais o homem peca, desde que se arrependa,
mais Deus é compelido a perdoá-lo, oferecendo-lhe uma nova chance.
A Jesus Cristo nosso
Senhor
(Padre Antonio Vieira)
Pequei, Senhor; mas não
porque hei pecado
Da vossa alta clemência me despido.
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido;
Que a mesma culpa que vos há ofendido
Vos tem o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida já é cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada;
Cobrai-a, e não queirais,pastor divino.
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
Marcelo
Gomes Melo
O
quereres (Caetano Veloso)
Poema musicado escrito
em estilo Barroco, cheio de versos permeados por antíteses denotando o
confronto inevitável entre o Bem e o Mal, que causa no ser humano dúvidas
extremas e arrependimentos, tanto dos prazeres quase sempre pecaminosos quanto
das virtudes mais divinas.
“A antítese que permeia a vida e destrói linhas retas. Nada
é irreversível. Nem a morte.”
Onde queres revólver, sou coqueiro
Onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
Onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
O conflito do poema é inquietante, quando os
personagens parecem não se entender por conta da completa diferença de opiniões
e estilos pessoais; mesmo assim, ambos caíram na cilada armada pelo amor, que
os obriga a descobrir e praticar a arte de “estar junto”, tolerando as
diferenças e superando-as, buscando domar a bruta flor do querer, que machuca e
enternece, a seu tempo.
Marcelo Gomes Melo
O
tanatólogo. A terra dá, a terra toma.
Leio Baudelaire como se
fosse um santo na alcova de uma loura lasciva entupida de crack e anfetaminas.
Meus lábios se movem em câmera lenta, os dentes trincados. Alterno com uma
suavidade implícita, uma serenidade hipnótica que cativaria a uma morta.
Sirvo absinto à luz de velas, The Cure nas caixas de som
instigando venenos, minha aura de garoto prodígio aumentava, seduzia as
mulheres rebeldes com as meias-calças rasgadas e minissaias negras como a alma
que almejam conquistar. Batons e unhas negras, uma força extrema para o amor
passageiro, enganador.
Formado tanatólogo, a profissão que estuda a morte e seus
meandros científicos, me tornei um craque na área, usando sua descrição às
vezes para seduzir, do tipo: “Nua sobre a maca fria, será lavada dos cabelos
aos dedos dos pés por mim, o seu guardião. Tocarei cada parte de você com
minhas mãos quentes. Saiba que, depois de morta será tratada com extremo
cuidado e carinho”. “Cobrirei seu corpo, não se preocupe, na presença dos
outros funcionários, mas verificarei cada reentrância no seu corpo com atenção,
em busca de descobrir os seus segredos mais obscuros. Cabelos, olhos, partes pudendas...
Tudo! Como diria o poeta... Sua inocência é minha!”.Isso funcionava como cantada! Inacreditável,
hein?!
Fiz um curso do ópio do século, o marketing, para expandir
os negócios e abrir uma franquia de cemitérios. Dominei o negócio das flores,
das palestras instrutivas para quem iria um dia morrer; criei o serviço de
drones sobrevoando aos túmulos para manter os vivos em contato com seus entes queridos
habitantes sob a terra 24 horas por dia.
A minha profissão me garantia seduzir facilmente as
garotas, principalmente as estranhas. Eu contava que depois de morta as
tornaria perfeitas externamente. Eternas. Essa ladainha em minha voz de Vincent
Price e olhar de Bela Lugosi, vestido como um Drácula do terceiro milênio dava
muito certo. Transei em caixões luxuosos, dentro do salão da funerária, fiz
piqueniques de madrugada no meio das lápides, bebendo conhaque e recitando
poemas escatológicos de Augusto dos Anjos. Aos vinte e cinco eu era rei! Dos
mortos; mas ainda assim, rei!
Os
dois irmãos me deram sociedade e passei a ser um dos proprietários. Eis que
surgiu Arlete. A coisa mais intrigante entre as mulheres estranhas e atraentes
do mundo sombrio. Com seu estilo de vocalistas de bandas femininas suecas de Black
metal, longos cabelos negros, olhos azuis de cílios gigantes e batom escuro em
lábios carnudos em um vestido de sereia, escuro como a noite e decotado como o
Canyon. Nem sei como cabia nela! Ou se nascera com ela! Linda e misteriosa
entrou na minha vida como um vulto. Não disse nada, apenas prometeu com os
olhos. Entreabriu os lábios e pousou a mão sobre a minha.
Noites
de amor fulminante me fizeram o estranho mais maravilhosamente feliz do mundo
das sombras. Mudei de perspectivas com ela; passei a querer tudo o que o mundo
material pudesse me oferecer.
Arlete
me prometia o sucesso e todo o poder que um jovem adulto podia querer, além dos
seus doces e gelados encantos. Antes que eu perguntasse como, me vi envolvido
em um carrossel de situações inacreditáveis que realmente balançaram a minha
vida.
Os
dois irmãos restantes, proprietários do cemitério, faleceram súbita e
inexplicavelmente, deixando a mim como o único dono. Aceitei o fato como signo
da vida e, após a comemoração e champagne com Arlete, mudei o nome do
empreendimento para “Cemitério sem irmãos”.
Com
uma conselheira como Arlete, a mulher da minha vida, iniciei a compra de
diversos quarteirões para a proliferação dos cemitérios por todos os cantos,
oferecendo uma morte feliz a pobres e ricos.
Arlete
enchia o meu corpo de prazer e a minha mente de ideias. Em três anos havia mais
cemitérios do que shopping centers. Só estava faltando mortos o suficiente para
garantir os lucros. Seria eu o Odorico Paraguaçu das grandes metrópoles?
A
grande oferta de cemitérios com caixões de todos os tipos e preços, facilitando
a morte despertou a ira dos defensores dos direitos humanos e dos animais. Eu
era processado pela acusação de oferecer cigarros com intenção de acelerar as
mortes e de querer abrir cemitérios e crematórios para animais dos quais os
donos enjoassem e não tivessem a quem doar. Igrejas fundadas em torno do dogma
da imortalidade do corpo e da alma caíram impiedosamente sobre mim com
processos e mais processos; enriqueceriam às minhas custas. Aos trinta e cinco
já estava completamente estressado, desconfiado de todos e cínico. Estava em
franca derrocada e tudo o que me restava era Arlete.
Ela
jamais demonstrava nenhuma preocupação, nem mesmo quando comecei a vender
cemitérios para saldar dívidas. Era a única a estar sempre por perto e me
apoiar com gestos e carinhos. Não estava presa a mim por causa de dinheiro.
Amor além da vida, diria eu!
O
meu primeiro infarto veio aos 38, rápido como um raio. Saí da UTI vinte dias
depois, esperando encontra-la ali, ao lado da cama, pronta pra mim, mas... Nem
sinal de Arlete!
Perguntei
a todos, mas ninguém sabia de quem eu estava falando. Enfermeiras, médicos,
vigias, outros pacientes... Ninguém jamais vira nenhuma bela moça vestida de
negro ao meu lado em nenhum momento. Eu comecei a me preocupar quando os dias
se passaram e ela não vinha. Liguei para um celular inexistente. A minha casa
havia sido leiloada e não a encontrava de jeito algum nas redes sociais.
No
auge do desespero, em uma noite fria fugi do hospital, descalço e com aquela
camisola descartável. Encontrei o meu carro no estacionamento do hospital e fui
para o único lugar que me restava no mundo: aquele primeiro cemitério no qual
iniciei a minha carreira.
Rompi
o portão como em um filme de Chuck Norris, acelerando o carro. Sob a chuva o
cemitério, antes tão bem cuidado parecia abandonado. Desci e caminhei, a esmo,
chamando por ela, sem resultado, até que me deparei com uma cova aberta,
enlameada como uma piscina de cobertura de bolo de chocolate.
Uma
voz sussurrava alguma coisa em meu ouvido incessantemente, mas eu não entendia
o que dizia; as batidas aceleradas do coração encobriam o som da voz, suave.
Sentia o corpo desfalecer e era como a sensação de perder dinheiro. Caí de
joelhos à beira da sepultura, a voz insistente angustiante...
O
vulto que divisei foi tão rápido que questionei a minha capacidade mental e
visual. Arlete! Só podia ser Arlete, com aquele vestido negro esvoaçante!
Estendi
os braços, desamparado sob a chuva e me desequilibrei, voando a caminho do
desconhecido com uma forte dor no peito, no fundo da cova para indigentes.
Então entendi a voz suave e repetitiva em meus ouvidos. Arlete, etérea como uma
névoa, me dizia: “A terra dá, a terra toma”. E mergulhei na escuridão.
Marcelo Gomes Melo
“A caminho do céu carregado por anjos”. Forjando
o caráter.
Quando garoto, com
quinze anos de idade resolvi procurar o meu primeiro emprego. Queria ter no
bolso uns caraminguás para frequentar os bailes, comprar doces e ingressos para
o futebol e cinema, mas principalmente ganhar uma moral com as meninas, é
claro.
Foi por isso que saí na companhia de mais dois amigos, na
busca pelo primeiro emprego. Fomos a uma firma de nome atraente, mas que não
tínhamos a menor ideia do que fabricava. TRIPAC. A atendente, olhando para nós
com um misto de desconfiança e pena, quis certificar-se do nosso real interesse
em integrar o quadro de funcionários da empresa; dito isso, nos convidou a
entrar para ver a função que exerceríamos, caso contratados.
Ela se deliciou com os nossos aspectos pálidos ao vermos os
funcionários de uniformes brancos, incluindo toucas para proteger os cabelos e
botas de plástico, porque trabalhavam com água fria até os tornozelos, no verão
ou no inverno, em um galpão enorme e escuro, com balcões recheados de
recipientes quadrados também brancos e também de plástico com um fedor
fenomenal de restos que nos revirou o estômago e quase nos fez vomitar. Havia
tripas de porco moídas e sabe-se que lá de mais o quê! Faziam linguiças,
salsichas ou algo parecido. Saímos de lá fugidos sem sequer agradecer à bondosa
e mordaz moça da recepção. Riscamos a primeira empresa da lista.
Por uma semana arranjamos um emprego, eu e meus amigos,
como auxiliares de pedreiro em uma construção na rua em que morávamos. Na
verdade éramos auxiliares dos serventes do pedreiro. Minha mãe levava, todos os
dias, uma hora depois que começávamos a trabalhar, um copão de café com leite e
pão com manteiga, atitude que me fazia morrer de vergonha. Foi a semana mais
esforçada da minha vida! Subia escadas de madeira até a laje, carregando latas
cheias de concreto no ombro, para “assentar caquinhos de azulejos” com o
intuito de evitar possíveis vazamentos.
Durante essa semana de
trabalho, que nos encheu as mãos de bolhas doloridas e atrapalharam muito na
escola no ato de escrever, cabe lembrar que o emprego fora pura insistência
nossa e não fruto de trabalhos forçados por parte dos pais, nem necessidade de
ajudar no sustento familiar; muito menos deixar a escola nossa de cada dia.
Disso eu poderia tirar o cavalinho da chuva. Hoje os adolescentes
que tentam fazer algo parecido com aprender a ter responsabilidade e a ganhar o
próprio dinheiro, correm o risco de serem recolhidos pelo ministério público,
tirando a guarda dos pais imediatamente.
Aquela atitude ajudou a forjar o nosso caráter, acredito
plenamente. Um homem precisa aprender a trabalhar honestamente se quiser, um
dia, formar a própria família. Acostumar a receber esmolas do governo desde
pequenos é algo extremamente perigoso, porque tira a noção valor das coisas, e
do esforço necessário para consegui-las.
Na semana em que trabalhamos pudemos abrir uma conta na
casa em frente, que vendia geladinhos; sorvete de suco artificial
acondicionados em saquinhos plásticos. Era novidade e gastamos todo o salário
da semana com isso e com band aids para as bolhas.
Uma semana depois percebemos que a vida é dura para quem é
mole e mudamos. Conseguimos emprego em uma chácara de japoneses que trabalhavam
na feira. Eu e meus amigos aprendemos a plantar sementes, à distância de dois
em dois palmos para frente e para os lados; a usar a enxada abrindo novas
bolhas nas mãos, e colher alface para encher os carrinhos de mão e levar até os
engradados para lotar os caminhões que iriam às feiras.
A técnica da colheita da alface era bastante inteligente e
peculiar: esticava-se um dos braços e usava-se uma delas como base na palma da
mão, depois colocávamos diversas outras alfaces umas sobre as outras, até em
cima na altura dos olhos, sem derrubar nenhuma até depositarmos nos carrinhos
de mão.
Eu, pessoalmente, não aguentei mais do que cinco dias e
desisti descaradamente sem nem me preocupar em ir pedir demissão e receber
pelos dias trabalhados. Descobri alí que estudar era o grande barato. Bem mais
leve e limpo!
A senhora japonesa,
dona da chácara, se deu ao trabalho de ir até a minha casa acertar os dias
trabalhados e dizer para a minha mãe que era melhor eu estudar; aquele tipo de
serviço era pesado demais para alguém como eu, preocupado com a estética física
para encantar as meninas.
Apesar das desventuras não desisti do objetivo, apenas
mudei de tática. Uma vez, passando em frente a um cemitério, vi que estavam
precisando de vendedores de jazigo. Achei o nome da profissão bastante bonito;
e o ambiente completamente tranquilo me encheu de esperança de conseguir um
trabalho mais leve, afinal, os mortos não falam.
Entrei e fui encaminhado à sala em que haveria uma palestra
e em seguida as entrevistas para o preenchimento das vagas. Hoje tenho noção de
que, já á época a recessão era alta, porque a sala comportava quase sessenta
indivíduos, pais de família, vestidos de paletó e gravata, e um moleque de
dezesseis que nem tinha a noção de que jazigo era sinônimo de túmulo, e nem que
tipo de trabalho era aquele.
Com o decorrer da palestra fiquei sabendo que o vendedor de
jazigos recebia uma pasta preta, recheada por saquinhos transparentes; na capa
o logotipo do “Cemitério Dois Irmãos... Antes eram três”, que consistia na
sombra de três corpos, dois em pé e um na horizontal, dentro de uma cova.
Dentro dos saquinhos, inúmeras fotos dos lotes residenciais de terra para
servir de última moradia para os interessados em contar com segurança no post
mortem.
Aos vendedores cabiam
ir de casa em casa tentar convencer as famílias, muitas morando em casa de
aluguel, a adquirir uma moradia definitiva no cemitério. Os ganhos seriam uma
porcentagem das vendas realizadas, o que não era muito, a não ser que houvesse
vendedores bons o suficiente, e famílias realistas além da conta para investir
na própria morte.
É óbvio que não fui sequer cogitado para o emprego. Mas o
entrevistador tinha uma proposta razoável de emprego e queria que eu ouvisse.
Declarei interesse na mesma hora. O rapaz afirmou que apesar de ter apenas
dezesseis, eu era alto e podia iniciar carreira como modelo. E além disso
faturar uns cobres a mais limpando os jazigos e sendo ajudante de coveiro.
Nunca tinha ouvido falar da existência de agências de
modelos que trabalhassem como representantes de cemitérios; mas aceitei a
oferta e fui para casa, orgulhoso, contar aos meus pais que seria modelo no
cemitério.
A partir daquele dia, durante meio período eu passei a
frequentar o Cemitério Dois irmãos..., varrendo sepulturas, colocando flores e
até copinhos de cachaça em determinados túmulos, faturando gorjetas dos vivos
por cuidar bem dos mortos e economizando para a faculdade.
Quanto ao trabalho de modelo, descobri que não tinha nenhum
glamour, pois consistia em deitar em uma prancha de madeira para que o
carpinteiro medisse tudo certinho na construção dos ataúdes. Eu era um modelo
para a feitura de caixões.
Passei a conhecer
melhor o conteúdo da pasta dos vendedores e a técnica de vendas embutida. As
fotos apareciam hierarquicamente. Ataúdes de primeira qualidade, coloridos,
bonitos, resistentes e confortáveis, cheios de acessórios estavam na frente.
Consequentemente eram os mais caros. Visavam encantar a futura vítima do
sepultamento. No final ficavam as fotos dos caixões mais simples, de
compensando, criados com sobras de madeira ruim, sem pintura nem trincos.
Apertavam o morto lá dentro do jeito que coubesse e pregavam a tampa. Os
ataúdes bonitos vinham com a legenda “A caminho do céu, carregado por anjos”.
Os de compensado traziam a legenda “Penetre como puder nas profundezas dos
infernos. E reze!”.
Ano após ano eu ia gostando cada vez mais do serviço, e me
encantando com o ambiente tranquilo. Tanto que decidi ir para a universidade
cursar tanatologia. Atuaria na profissão e em breve teria o meu próprio
cemitério.
Apesar de ter uma adolescência e juventude com poucas
namoradas, porque a maioria se assustava com o meu trabalho e com a minha
atitude estranha para os padrões da moda.
O sucesso com o sexo oposto veio pra mim com a moda dark,
em que todos os jovens passaram a se interessar por coisas escuras, tristes e a
frequentar cemitérios para ouvir as novas canções inglesas e recitar Baudelaire
e Augusto dos Anjos. Anos depois voltaria a ter sorte novamente com o sucesso
do filme com Bruce Willis, O Sexto Sentido, quando Haley Joel Osment ficou
famoso dizendo que via gente morta. A minha vida amorosa deu um enorme salto de
qualidade! Já profissionalmente...
Continua...
Marcelo
Gomes Melo
Tempos de dor, tristeza e morte
maquiados de festa e luz!
Todo
fim de ano é arrasador! Não existe tristeza, a mídia repetindo todos os chavões
à exaustão, gente sorrindo pelas ruas coloridas, casas enfeitadas, presentes e
festa permanente.
O
Papai Noel não tem diabetes nem problemas coronários, mesmo ingerindo tanta vodca
e picanha de rena gordurosa. As casas brasileiras todas têm lareiras e
chaminés, não importa o calor torrencial de verão no fim do ano. E a chaminé
serve apenas para a descida do Noel de 150 quilos com um enorme e pesado saco
de brinquedos às costas, mas não para a entrada de ladrões magros e sem
escrúpulos que aliviariam as famílias dos presentes que as endividarão pelos
próximos doze meses, e ainda degustarão suas deliciosas rabanadas, deixando a
louça e a cozinha sujas para que as mulheres lavem ao amanhecer, enquanto os
maridos entram em contato com as delegacias fechadas ou com nenhuma vontade de
atender aos chamados de cidadãos desesperados e com o natal perdido. Isso se
acreditarmos que toda a população tenha pelo menos uma rabanada para comer, o
que está longe da realidade.
Nesses
finais de ano perfeito com gente branca e feliz cheia de dólares e cartões de
crédito existe até neve! Claro que nem imaginamos os corpos de pessoas e
animais mortos, abandonados pelas ruas, congelados perto das lixeiras, sem
lugar para se abrigar, sem dinheiro ou alimentos. No calor abrasador é mais
fácil, perambulam como zumbis e são escondidos pela decoração de natal,
atirados nas valas da morte lenta, esquecidos e ignorados pelos felizes
profissionais, que assaltam o povo em todas as circunstâncias, achacam o
comerciante honesto, levam juros e inflação às alturas e passam as festas
pisoteando crianças que jamais experimentaram sequer um panetone.
O
fim de ano é uma tristeza constante, uma enganação maldita em que até as
ilusões são vendidas descaradamente, como se vivêssemos em um mundo perfeito!
Nem ilusão sai de graça nessa terra das festas e comemorações sem razão de
existir, a não ser perpetuar a safadeza dos paletós sacanas de bolso cheio de dinheiro
que comandam o país.
A
hipocrisia do dia a dia acentua-se no final do ano; as frases feitas e as
fotos, os cartões com neve se repetem; as orações de amor eterno exaltando a
ética, a honestidade e a bondade, a paixão divina e todos os desejos de
realização plena para a humanidade são espalhados pelas mídias sociais, muito
mais como propaganda da própria bondade do que por real desejo de que se
concretize.
Fim
de ano de luz e sonhos? Fim de ano de eletricidade muito cara e pesadelos, isso
sim! E sem água!
A
oração necessária tem conexão direta com Deus e é secreta! Trata-se da
verdadeira comunhão individual, na qual cada ser humano expõe os seus medos,
suas falhas, seus reais desejos para a sua vida, que lhe faça evoluir como
pessoa em todos os sentidos, respeitando as leis, conscientizando-se dos
deveres e dos limites para depois garantir os direitos, usando a natureza com
parcimônia, querendo felicidade para os familiares e para todos igualmente, mas
em absoluto e total segredo. Nada de fazer essas coisas abertamente, com
sorrisos falsos e enganosos, visando apenas status sem mover um dedo para
ajudar e modificar os problemas que lamentam da boca pra fora e afligem o
mundo.
A
conversa com Deus é o elo definitivo através do qual a humanidade se conecta
entre si e possibilita a melhoria para cada um indiscriminadamente, e para o
mundo inteiro. Isso só irá acontecer quando essas desgraças maquiadas de fim de
ano feliz forem desmascaradas e sejam mais importantes as ações pertinentes,
por menor que seja, do que as enormes manifestações ridículas, mentirosas e
repetidas ano após ano.
A
tristeza, a depressão e a morte vestidas de vermelho e bebendo prosecco
comandam o fim de ano há tempos, e em alguma hora terá que acabar.
Feliz
choque de realidade e menos frescura para todos nós!