Rotate4all

PopCash

EasyHits4you

The Most Popular Traffic Exchange

O funcionamento inconclusivo da máquina do amor



          Pretendo esmagar minha pélvis contra a sua, controlando a pressão com o hipnotismo que eu conseguir mergulhando os meus olhos profundamente nos seus. O ambiente conspira em meu favor, então serei inexoravelmente faminto, um fantasma materializado entre suas pernas, uma alma multiplicando sensações em diversos níveis, sem lhe permitir escapar de qualquer uma delas.
          A ligeira sensação sufocante de vir à tona após o tempo de fôlego sob as águas claras e mornas do paraíso se esgotar. O correr de mãos eriçando pelos é uma norma nesse jogo infinito. Macacos me mordam se pretendo resistir ao seu suculento apelo através dos olhos, da respiração alterada, dos movimentos involuntários... Não há resistência suficiente, não há resistentes vivos!
          A minha intenção é espremer você com meu corpo contra a parede gelada que absorverá o friozinho na espinha e logo estará, paradoxalmente em chamas. Vou lhe prender em meus beijos sorrateiros para depois lhe açoitar com ondas de prazer causando choque em cada célula. Os movimentos sincronizados dos corpos e os sons pouco audíveis entre lábios atormentarão o ar morno do ambiente, mantendo restrito o sentimento quase palpável.
          Se sentir como seria morrer de amor era o que você queria em seus sonhos mais secretos, eis sua chance de chegar o mais próximo possível. Ressuscitará em meus braços quantas vezes seja necessário, e a cada retorno as nossas forças diminuirão, e a sensação de torpor inundará nossos seres, como se estivéssemos em outra realidade, em um mundo sem gravidade, pairando um sobre o outro, um dentro do outro, um misturado ao outro, deleitando-nos com as sensações, à margem do mundo de milhões; os donos das fantasias, os degustadores oficiais dos sabores mais sensacionais. A obtenção do descanso supremo, da realização física e mental nos tornará pares perfeitos a quem a palavra deixa de ser necessária e o querer é sinônimo de viver plenamente e possuir instantaneamente.
          Vou decretar meu reinado em suas planícies e vales, minha posse em seus declives e aclives, meu comando em seus olhares e suspiros. Para submeter com tanta certeza o meu domínio às suas vontades é preciso já estar inabalavelmente, peremptoriamente entregue a todos os seus caprichos. A união universal perfeita, inacabável e irredutível. A luz e a escuridão, a flor e a terra úmida, o calor e os estertores, enfim... O sistema de ida e volta inconclusivo, o funcionamento eterno da máquina do amor.



   Marcelo Gomes Melo


Música para transgressão individual secreta



          Solidão à tarde. A mente vagando pelos verdes campos de caça. As cortinas fechadas na sala silenciosa propicia uma penumbra marcante, com as luzes difusas penetrando a mente cálida e disponível.
          Passos lentos em direção ao rádio; ligando-o a uma altura confortável, apenas para ouvidos particulares. O ar é inundado pela música suave, intensificando-se levemente em alguns momentos, parecendo um monitor cardíaco, instigando o início dos movimentos. Antes, urge uma readequação do espaço, para evitar acidentes que cortem a conexão limbo-etéreo-lácteo-rudimentar com a imensidão. Móveis afastados. Apenas o tapete em contato com os pés frios descalços, e a música, incensando os pensamentos e invadindo os poros, tomando conta das células, implantando a vontade de flutuar como se não houvesse gravidade.
          Os primeiros passos desajeitados. Os braços se erguendo, os dedos das mãos retesados se descontraindo, os olhos fechados. Os dedos apenas em contato com o tapete. A cintura dura se movendo como um barril no começo de um barranco... O som comandando o transe. Nada de medos, nada de inibições! Os braços esticados para os lados, prestes a levantar voo, os joelhos se dobrando e estalando em conjunção com a música. O rosto crispado, de olhos fechados e boca escancarada, estapeado pela canção que atingia e domava. Figura grotesca acelerando os movimentos, girando pela sala, o pescoço desviando-se como um egípcio... O quepe que protegia os cabelos atirado sobre o sofá no canto da sala, deixando as serpentes dos cabelos remexerem insanas.



          A dança incontida por anos desenvolve-se agora, como uma performance para milhões de almas sem nenhuma olhando! Livre das amarras impostas pelas normas de conduta social! O canto roufenho hipnotizando, conduzindo o cérebro a realizar manobras impensadas, nada de contas a pagar, nada de desculpas a pedir, nada de amores a relatar, muito menos cobranças a fazer submergir.
          Transgredindo as próprias emoções, mudando de figura e de postura, tornando-se outra pessoa pela própria escolha, girando, girando, vendo o mundo girar!
          A liberdade é remexer-se à beira de um abismo sem medo de cair? É atirar-se correnteza abaixo sem saber nadar, contando os segundos para o encontro com a queda d’água? A liberdade é correr o perigo de ter esquecido a porta aberta e a mãe chegar com as compras e dar de cara com aquele tipo sisudo dançando como se fosse filho da Gretchen?!
          A porta se abre. Mãe, pai, cachorro, irmã, papagaio, estupefatos acompanham o girar hediondo da liberdade em ação. A partir dali, quando se der conta da plateia, quando a música acabar... O fim do ritual se dará bruscamente e vida seguirá. Visto de forma diferente para todo o sempre. Vendo as coisas de maneira diferente pelo resto de sua vida patética.


Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...

Expandindo o pensamento