O funcionamento inconclusivo da máquina do amor



          Pretendo esmagar minha pélvis contra a sua, controlando a pressão com o hipnotismo que eu conseguir mergulhando os meus olhos profundamente nos seus. O ambiente conspira em meu favor, então serei inexoravelmente faminto, um fantasma materializado entre suas pernas, uma alma multiplicando sensações em diversos níveis, sem lhe permitir escapar de qualquer uma delas.
          A ligeira sensação sufocante de vir à tona após o tempo de fôlego sob as águas claras e mornas do paraíso se esgotar. O correr de mãos eriçando pelos é uma norma nesse jogo infinito. Macacos me mordam se pretendo resistir ao seu suculento apelo através dos olhos, da respiração alterada, dos movimentos involuntários... Não há resistência suficiente, não há resistentes vivos!
          A minha intenção é espremer você com meu corpo contra a parede gelada que absorverá o friozinho na espinha e logo estará, paradoxalmente em chamas. Vou lhe prender em meus beijos sorrateiros para depois lhe açoitar com ondas de prazer causando choque em cada célula. Os movimentos sincronizados dos corpos e os sons pouco audíveis entre lábios atormentarão o ar morno do ambiente, mantendo restrito o sentimento quase palpável.
          Se sentir como seria morrer de amor era o que você queria em seus sonhos mais secretos, eis sua chance de chegar o mais próximo possível. Ressuscitará em meus braços quantas vezes seja necessário, e a cada retorno as nossas forças diminuirão, e a sensação de torpor inundará nossos seres, como se estivéssemos em outra realidade, em um mundo sem gravidade, pairando um sobre o outro, um dentro do outro, um misturado ao outro, deleitando-nos com as sensações, à margem do mundo de milhões; os donos das fantasias, os degustadores oficiais dos sabores mais sensacionais. A obtenção do descanso supremo, da realização física e mental nos tornará pares perfeitos a quem a palavra deixa de ser necessária e o querer é sinônimo de viver plenamente e possuir instantaneamente.
          Vou decretar meu reinado em suas planícies e vales, minha posse em seus declives e aclives, meu comando em seus olhares e suspiros. Para submeter com tanta certeza o meu domínio às suas vontades é preciso já estar inabalavelmente, peremptoriamente entregue a todos os seus caprichos. A união universal perfeita, inacabável e irredutível. A luz e a escuridão, a flor e a terra úmida, o calor e os estertores, enfim... O sistema de ida e volta inconclusivo, o funcionamento eterno da máquina do amor.



   Marcelo Gomes Melo

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