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Sobre os quinhões de reflexão



Sob os cabelos empapados em sangue há um cérebro, e nesse cérebro há arquivos obscuros, perigosos, acumulados durante uma vida intensa a serviço de pessoas pouco confiáveis, inescrupulosas, dispostas a qualquer coisa pela manutenção do poder. Sempre atrás de um biombo blindado, é claro. Esses, os dos arquivos mais profundos em um cérebro aberto literalmente, não agem diretamente. Eles nunca colocam a si mesmos sob riscos, embora saibam que esse é o sobrenome que escolheram, abandonando a tudo o que pareça honesto, ético, humano.
Estranhamente são esses os valores que pregam descaradamente, ao mesmo tempo em que matam, cegam, destroem, inutilizam, determinam o modo como a maioria vive, ou quando morrem. Sorriem com facilidade e oferecem vantagens como objeto de sedução. Quando não o conseguem, torturam, ameaçam, causam problemas e maldades, sequer piscam os olhos.
Os arquivos profundos naquele cérebro em plena decadência, contém listas e instrumentos mortais, físicos e escritos, instrumentos que corretamente sussurrados acarretarão tribulações e sacrifícios humanos, tragédias vendidas como naturais, mas provocadas artificialmente com um único propósito: a manutenção do poder.
O sangue que escorre pelos olhos, também escapam dos cabelos e atingem o cérebro, apagando com o vermelho as lembranças mais perigosas para os mandantes, os que se serviram da coragem insana e falta de inteligência total de quem não se considera digno o suficiente para ter ideias próprias. Nasceram para servir, e quando a validade acabar, serem atirados em uma vala qualquer à beira de uma estrada de terra, no meio do mato.
Ninguém chorará por eles, nem se lembrará de sua existência nociva, ilegal, vergonhosa. O sangue empapado esfriará e coagulará, expelindo da vida o seu dono, envenenado por natureza, sem a benção divina.
Os restos mortais não serão encontrados; predadores já estarão à espreita para devorar o que puderem. O que restar será corroído por vermes inclementes e indiferentes, que não discriminam os cadáveres que porventura surjam.
A vida segue, quase ninguém fica sabendo. Na verdade, quase ninguém quer saber, só os que terão, cedo ou tarde, o mesmo destino, comentarão brevemente antes de seguir com os próprios pensamentos. Essa é toda a reflexão que são dotados a ter.


 Marcelo Gomes Melo
 


Paixão que arrasa, noção que se perde



Paulina diz que me ama e que está se tocando enquanto falamos ao telefone, com a voz trêmula e ofegante, encharcada como um pântano mantendo as pernas entreabertas e uma das mãos entre elas, estimulando suavemente incentivada pelas minhas palavras ousadas, pela minha descrição vívida e a rouquidão exigente fazendo-lhe bambear as pernas, os seios subindo e descendo em um ritmo doido.
Estamos distantes, mas ela vê cada centímetro, de olhos fechados. Ela sente. Enxerga o suor no meu rosto, o meu olhar em chamas e a minha mão pesada manuseando como um adolescente todo o tesão que Paulina causa, acesa como uma tocha no meio de uma floresta.
Repetir que me ama aos choramingos é a senha para os meus urros roucos, fora de prumo, êxtase puro e fome voraz, da qual não pretende escapar. Os ruídos de amor fazem parte do jogo. O pensamento violado transforma paixão virtual em realidade sincronizada, sem riscos, sem medos, sem hesitação que impeça que todos os desejos se realizem.
A determinação toma conta e não impede que o instinto de preservação limite o alcance. Tudo é possível e depois sorriremos cansados, só restam lembranças reais, que aceleram o sangue à mera lembrança, e desperta quereres que antes seriam imprudentes.
Tudo é amor, Paulina, quando usamos todos os sentidos disponíveis e criamos alguns outros impensáveis até outro dia, durante a rotina infindável e chata, que obriga pessoas a criar receitas e segui-las alucinadamente tentando satisfazer corpo e alma.
Muitas dessas receitas, senão todas, causarão dependência e tristeza, produzindo robôs que automaticamente se enganam quanto à aurora do amor. Sequer conseguem o mínimo de prazer e o vazio só aumenta, encaminhando corpos sem alma para a beirada do abismo onde tombarão um a um, enganados até o fim.
Paulina diz que me ama, as pernas fortemente trançadas, as mãos sobre os seios com força e os sussurros desesperados, correspondidos à mesma medida rumo a uma explosão incontida jorrando naturalmente, retirando toda a tensão acumulada, fazendo relaxar com um cansaço possível, necessário. E sorrisos, e palavras de amor que jamais farão sentido, se comparadas ao prazer alcançado através da energia dos corpos imantados, que se procuram sem barreiras e se encontram aonde quer que estejam.


Marcelo Gomes Melo
 

Para ler e refletir

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...

Expandindo o pensamento