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Um abutre corroendo corações eternamente


 

O sagrado e o profano que habita em você, concordam em criar um equilíbrio que lhe mantenha como um cidadão comum, incapaz de pecados ferozes, arrependido dos erros pequenos que comete, vencido pela tentação, a quem culpa, ajoelhado, choroso, implorando por perdão para manter a sanidade e seguir a sua vida comum irrisória, passando incólume pela visão míope dos seus pares, criando cinismo e hipocrisia até para julgar atitudes alheias, tomando por base informações superficiais de segunda mão sem que isso lhes cause más sensações.

O problema são os fatores externos, que os controlam sem dificuldade e os convencem a tomar como filosofia de vida culpar os outros pelas próprias falhas, acusar a qualquer um para manter a liberdade, sorrir como hienas, satisfeitas com os restos, prontos para manter a sua vida inútil, peças de menos valor no quebra-cabeças dos poderosos, satisfeitos com as migalhas que os deixam arrogantes como se valessem alguma coisa na fila do pão.

O sagrado então se afasta, e o profano se espalha livremente, fazendo de cada um inimigo do mais próximo, seja quem for, e para sobreviver é preciso fazer o que for preciso contra quem quer que seja, então destroem famílias, condenam parentes, abandonam o que lhes tornava seres humanos, transformando-se em demônios, escória fedorenta preenchem os cargos médios para prejudicar aos seus pares e rastejar para os seus superiores e ganhar um afago humilhante e cruel.

Agora vítimas completas do profano que cresceu em cada milímetro dos seus seres, agem como zumbis, recebem e cumprem ordens, são cruéis para tentar apaziguar o vazio que sentem carregarão para sempre um abutre roendo os seus corações pela eternidade.

O nome disso é inexistência em vida, julgamento em curso e inacabável. Os produtores e testadores de todos os sofrimentos com os quais prejudicarão a humanidade. Sempre depois deles mesmos.

  Marcelo Gomes Melo

O Julgamento Final ao alcance


Existe um determinado ponto em que nada mais importa para um ser humano. Sempre acontece, só difere do momento da vida de cada um. Viver é estar em uma enorme fila de prestação de contas, e até que chegue a sua vez, a sua existência vai sendo recheada pelas atitudes que escolheu tomar usando o livre-arbítrio, solicitando ao seu garçom particular, em pílulas, tudo o que lhe está destinado e até onde consiga suportar.

Nesse ponto crucial você passa a ser passageiro no seu próprio trem sem maquinista, rumo ao desconhecido, e é aí que descobrirá se há bônus para continuar errando, ou é o fim da caminhada, de vez em quando suave, de vez em quando terrível.

Importar-se com qualquer coisa é inútil e estúpido, as forças lhe abandonam, bem como qualquer resquício de autoestima e esperança. Quem paga para ver é porque está satisfeito com a tragédia e sem medo nenhum das consequências. E o que retira a ansiedade e liberta a insanidade por completo. O que acontecer será privilégio.

De braços abertos para alçar outros voos, com os dentes para fora e as carnes do rosto açoitadas por um vento impiedoso, a sensação é de um salto sem paraquedas em direção às respostas aos piores temores.

Chegam a esse ponto os despreparados, tontos, ingênuos, parte da leva de manipulados que apenas fizeram o que lhes mandaram, obedeceram ao que a maioria disse, incapazes de questionar até o espelho.

Esses são lenha para a imensa fogueira de eliminação do nível no qual se encontram; serão cinzas antes dos outros, piores do que os culpados por alguma coisa, hierarquicamente abaixo de todos pela inércia, pela covardia e isenção corrosiva. Desmerecidos pelo medo de tomar um lado, se beneficiar por qualquer coisa sem se comprometer com coisa alguma.

Esse é o ponto em que alma contesta o corpo, e o corpo, sem valor ou poder algum será dizimado como um péssimo receptáculo durante uma vida inteira, que pode ter durado muito ou apenas segundos, dependendo da capacidade de ouvir o coração e direcionar o cérebro para escolhas razoáveis, que valham alguma pena, no final das contas.

Tudo o que é certo é que o momento final se apresenta e só é possível assistir como a um filme o final determinado.

 Marcelo Gomes Melo

 

Elemento imaculado


O elemento desceu a rua doze, esquina com a rua Aurora Boreal por volta de 24h00, passos largos, carregando uma sacola de feira, dessas de nylon, senhor. Estava um calor da fornalha do cão, e estranhamente ele trajava uma blusa com capuz, alaranjada, dava para ver daqui mesmo.

O quê? Sim, senhor, o elemento descia a ladeira que é a rua doze pelo meio, porque àquela hora não havia tráfego de automóveis, desviando das poças do terreno irregular. O desgraçado do prefeito foi reeleito três vezes prometendo asfaltar, mas dessa rua para baixo é tudo barro.

O que eu estava fazendo na rua? Fumando o meu cigarrinho no meu portão; a mulher não gosta que fume dentro de casa, e eu sou bobo, mas não sou burro não senhor, não quero arrumar perrengue com a dona da pensão.

Sabe o que, senhor? Essa hora, depois da chuva, a madrugada limpa a poeira do ar, é a última olhada antes de dormir o sono dos justos. Eu fecho o bairro, por assim dizer; o último par de olhos a detectar tudo o que está acontecendo no início da madrugada. Geralmente não acontece nada.

O senhor sabe que aqui todo mundo se conhece, nascemos, crescemos e vamos morrer por aqui. Se bobear tem um monte de ossadas de ancestrais enterrados nesses jardins das casas, gente que se fixou aqui como árvore. É brincadeira, brincadeira, essa história das ossadas, não leve a mal, me perdoe, é que eu sou muito engraçado.

Não, não conheço ninguém como o elemento, indivíduo diferente, alto, cabeça grande, braços longos... Nunca vi o moletom laranja pelo bairro. O time de futsal dos meninos é verde e vermelho. E aquela sacola... Posso dizer para o senhor dentro daquela sacola. O quê? Não sei, estava dentro da sacola, não pude ver.

O modo como o indivíduo carregava a sacola, com firmeza, cuidado, sem andar devagar nem correndo, um passo constante até o final da doze. É, ali mesmo; sob o poste ele parou na encruzilhada, olhou para os dois lados, indeciso, então pude ver. Sim, sim senhor! Vi com esses olhos que a terra há de comer! Era narigudo! Um narigudo trajando blusa de capuz laranja carregando uma sacola misteriosa. Foi isso mesmo. Pode anotar aí! Foi exatamente o que eu vi!

E então o quê? Ah! Ele pareceu se decidir e virou à esquerda, desaparecendo pela rua quinze, na escuridão. A rua quinze não tem asfalto e nem iluminação. O cabra desapareceu nas sombras.

Sim, foi só o que eu pude ver, por isso que estou contando para o senhor, autoridade policial. Tiros? Aqui?! Não, não ouvi nada, não. O homem? Só vi isso, do indivíduo, achei estranho. Fez nada não, senhor. Era praticamente um elemento imaculado.

  Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...

Expandindo o pensamento