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Um exercício patético e inútil: viver



Quando a vontade de sair atirando nos que estão errados se torna obsessão, um novo dilema surge imediatamente, que é definir quem são os que estão certos, levando em conta as individualidades e subjetividades sobre o que é certo e o que é errado.

A partir daí surge um novo problema: a vontade, a obsessão de atirar nos errados não é, em si, um erro? Uma decisão monocrática radical que faz a quem possui a arma o mais poderoso, e portanto, aquele que vai decidir o que é certo e o que é errado através das próprias crenças. Isso seria democrático? Ou um indivíduo com a síndrome de Deus decide que o seu julgamento é perfeito, sendo a decisão a ser tomada sem contestação.

É tênue a linha que difere o livre-arbítrio da escravidão massiva através do domínio da ignorância alheia, que existe para se submeter aos caprichos dos que se consideram os mentores da raça humana, e pretendem ser imortais não importa como, para decidir o funcionamento de todo um planeta, criando as histórias dos que vivem sem conhecimento, direcionando os seus destinos através de suborno ou fanatismo de qualquer cepa, guiando-os para o precipício como formigas atrás de açúcar, gado no corredor do matadouro...

Os deixam espernear, acreditar que lutam por algum propósito, colocam o seu ódio e ansiedade a serviço do desequilíbrio que ajudará os poderosos a produzir confusão e terror, esperança e ganância, influenciando os passivos e calibrando-os como desejam até que explodam, ou implodam, aliviando o mundo de suas presenças inúteis e abrindo espaço para gerações cada vez mais controláveis, física e mentalmente.

Sair atirando a esmo seria menos injusto e morrer em um tiroteio aleatório não causaria justiça, mas incluiria na receita da humanidade dominada um pouco de cinismo e ironia, tornando a vida algo tão etéreo que não vale a pena descobrir as razões para lutar por ela e sobreviver como um pária até que acabe instantaneamente, como um flash de uma máquina fotográfica que registrará para a história, tudo que faz da existência um exercício patético e inútil.


Marcelo Gomes Melo

Perguntas que deveriam ser feitas, mas jamais respondidas



Se a lei e a justiça não estiverem em consonância, qual deve ser a escolha certa?
Leis são as regras de conveniência estabelecidas por uma comunidade para que, respeitando-as possam viver em harmonia dentro de todas as possibilidades. Caso as leis não sejam respeitadas, os infratores deverão ser detidos, investigados e julgados de acordo com a infração, e sendo culpados após todos os trâmites determinados, a punição é decidida e cabe aos responsáveis cumprir a pena para redimirem-se dos erros que perturbaram aos convivas cumpridores das leis.
Já a justiça é o que é correto, digno e honesto; deve, portanto redimir as ações dos que agiram em nome dela em proveito próprio ou de outros, referendados pelo que é sagrado, o livre-arbítrio e a individualidade do cidadão de bem, ou de mal, dependendo do tipo de atitude tomada.
E então, qual deve ser a escolhida? Lembrando, em tempo, que existe a Lei divina e a Lei dos homens, e nem sempre elas caminham juntas, tornando a justiça ainda mais subjetiva, refém do modo como pode ser interpretada, e se coloca nas mãos de poucos poderosos, que se arvoram a decidir o destino de muitos da maneira que acharem melhor, estimulados ou não por atos corruptos ou fanatismo absurdo.
Imagine que matar para se alimentar, sobreviver de acordo com a cadeia alimentar não seja, de acordo com a lei, um ato que exija punição. Seria justo? E se o indivíduo em questão, que matou para se alimentar seja um canibal? Onde a justiça se encaixa?

Sendo religioso, vegano, como argumentaria? E os carnívoros, que se alimentam de proteína animal e adoram churrascos, e quando confrontados pelos comedores de mato, argumentam que plantas são seres vivos, também, e não deveriam ser usados como alimento?
E os que obedeceram aos aliens, que os abduziram e realizaram atos indignos aos olhos da lei dos homens, mas justos de acordo com o que foi verificado no fim, para uma coletividade inteira, como deve ser tratado?
São muitas coisas importantes que decididas por um deslize, virtuoso ou tortuoso, e que dá a toda uma sociedade a sensação de que há equilíbrio e as coisas caminham em ordem, a não ser quando o número de corruptos, insensíveis, ladrões, a escória do mundo, em número maior controla as Instituições e abusam do poder, criando todo o tipo de desigualdade, machucando pessoas, fazendo com que as leis sejam manipuladas e a justiça distorcida.
Os grandes eventos de terror se sucedem, e a maioria, aterrorizada é capaz de agir com os instintos mais selvagem e obscuros. É quando o poder se solta contra os seus detentores, que apavorados, mas hipnotizados por tudo o que tomar decisões lhes proporciona, resistem, ditando regras, não reconhecendo a justiça, morrendo pelo mal que criaram.
Nesse momento, ou se começa do zero, ou tudo se acaba em chamas e pó.



Marcelo Gomes Melo

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