Minha
pequena nuvem, quantos nevoeiros tenho atravessado durante uma vida inteira apenas
para poder assistir, ao amanhecer, você suplantar o sol como um algodão doce
delicioso que gruda em meus lábios e mantém o sabor eternamente, me alimentando
durante as intempéries que lhe impedem de vir, e ser o meu teto perfeito,
protetor e gentil.
Saiba, pequena nuvem, que as noites de
lua sem nuvens não me atraem, porque o véu que você proporciona, a lua é apenas
mais uma senhorita nua, sem atributos suficientes para encantar como você!
Estou
preparado para voar acima de você e saltar sem paraquedas para aninhar a minha
vida entre os seus flocos macios, convidativos em que posso sonhar, sorrir e
amar até que o mundo determine e recomece.
Nesse
caso poderemos habitar uma ilha brasileira distante, com águas azuis e verdes,
cristalinas, um leve odor salino e um vento morno que espalhará os seus cabelos
em meu rosto. Você, pequena nuvem, é o verdadeiro amor irrestrito.
Para
morrer de tristeza é preciso estar apaixonado, de verdade, durante a
eternidade. É necessário discernir, mesmo cercado pelo que é nublado, a própria
ineficiência em controlar esse amor.
Para
morrer de tristeza é preciso estar completamente perdido entre os tremores do
seu corpo, inebriado pelo perfume dos seus cabelos. Urge aguentar todo o sofrer
sem subterfúgios, lutar para conservar a sanidade ante atitudes que só
acontecem entre amantes, domar a insanidade para cavalgar nas noites de lua
cheia, o suor escorrendo pelo corpo, a paixão se esvaindo e se regenerando.
Suportar
as dores, rebelar-se, causar desconfortos em troca, perceber a loucura de um
amor recíproco, atordoante, capaz de causar ferimentos constantemente, e ainda assim
desconsiderar imediatamente, pelos momentos inesquecíveis, os pequenos gestos
que demonstram atenção infinita às necessidades um do outro, independentemente
das contendas selvagens e ciumentas que movem montanhas e cortam os céus com
relâmpagos vorazes e trovões deslumbrantes.
Ao
arrepio da pele, à sensibilidade de cada toque, à consciência de que nada vai
terminar, porque é amor de nunca mais. E ao prolongar-se a distância e a frieza
é definhar sem conserto, morrer a conta gotas, de tristeza pura, sem remédio.
Para
morrer de tristeza é preciso desconectar-se dos sonhos por causa da incapacidade
de apenas pensar na possibilidade de não mais possuir o amor, que agora é dúvida,
embora não o seja.
Duvidar
do amor é a arma mais letal existente. Eu estou morrendo de tristeza.