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O desespero das últimas horas



Ela costumava fazer tudo demais. Um exagero para lentes de contato que não fazem contato visual, desviam-se até um ponto no horizonte atrás de você e lhe faz se sentir vazio, ignorado por zero razão enquanto o mundo ao redor se despedaça como biscoitos amanteigados.
Não há razão para aplicar nem um olhar em direção aos desmoronamentos, às cidades virando pó. O que importa é encontrar os olhos dela compulsivamente, prossegui-los durante o caos, a última coisa decente a ser feita, à beira do precipício.
Obter qualquer resposta por parte da moça que costuma fazer tudo em excesso é impossível, porque ela jamais se manifesta em palavras. Faz questão de que as suas ações demarquem terreno e envolva ternamente, a capa de veludo tão desejada durante a geada.
O método correto é não mexer um milímetro, não arredar pé, aconteça o que acontecer, fazê-la enxergar a você durante a temporada final, entre os vapores tóxicos de um mundo à deriva.
Em que situação estaria tão confortável para confrontá-la que não fosse essa, em que respostas não serão dadas, e as perguntas evaporarão ante os olhos, desnecessárias como palavras de alento impossíveis de ouvir, sob o bombardeio ininterrupto que ensurdece e espalha o terror, mesmo em quem não tem nada a perder.
Encontrar os olhos dela será uma vitória! A última luz antes da total escuridão, o último brilho sobre as cabeças dos derrotados, vítimas da inocência e da empáfia.
Ela que sempre fez de tudo, em excesso, e estava disposta a manter o poder a todo custo, se dignaria a oferecer o seu olhar profético em meio às tumbas e às flores murchas? O sol não irá raiar quando o suposto amanhecer chegar. O amanhecer não mais acontecerá durante a queda dos edifícios e a humanidade definhando como formigas.
Todo o poder que ela exerceu estava agora entre as frágeis mãos que se contorciam e o olhar divino o qual ela continuava a negar, a não ser que fosse para proferir um julgamento rápido e cruel, incontestável.
Sim, ela costumava fazer de tudo exageradamente. Era de se supor que assim seria quando decidisse acabar com tudo, retirando tudo o que jamais prometera, apenas insinuara, e desse modo mantivera o controle pelo tempo que achara necessário. Agora nunca mais.


 Marcelo Gomes Melo

Amores do terceiro milênio



É lindo esse jeito escorregadio de ser que você não consegue evitar; uma mulher com instintos de garotinha tímida diante do desejo, com vergonha de expressar o prazer que se lhe apresenta através das bochechas rosadas, o corpo quente e úmido como uma virgem prestes a embarcar em sua primeira experiência, cheia de dúvidas, atormentada por um sentimento de culpa inexistente, mas tão real que lhe imobiliza totalmente.
Uma presa querendo o predador, com arroubos de coragem entremeados por um medo irracional. Os pensamentos lhe controlam e levam ao paraíso, e relaxado não quer pensar em nada por medo de ser dominado pela lógica que destrói o castelo de contos de fadas erguido em trono dos seus prazeres mais secretos.
          Como lhe ajudar a lidar com isso com suavidade e carinho, sem deixar de lhe mostrar com firmeza que as opções são engodo, e a realidade prega peças, mas ainda assim é real.
          A vida traça mapas que em princípio parecem absurdos. Não significa que não devam ser desvendados, porque a elucidação vem através da superação dos perigos, dos obstáculos vencidos e do merecimento conquistado pela persistência. O medo nada mais é do que uma pitada do desconhecido lhe provocando até que tome uma atitude, ou não. É isso o que definirá o seu caminho de prazer e paixão ou de limbo, monotonia e tristeza voraz.
          É lindo te observar e lhe dizer no ouvido as poesias mais obscenas com o infinito de libertá-la dos seus pesadelos truculentos que insistem em assombrá-la por causa de suas fraquezas, comuns aos humanos, mas que você acha são só para você.
          E eu me perco nas entrelinhas de sua vida, driblando nuvens, criando batalhas que me inspirem o suficiente para protege-la, conquistar o seu coração, possuí-la de corpo e alma e sair ileso no processo.
          Já ouviu falar nos amores do terceiro milênio? Vividos pelos adultos porque os jovens perderam a esperança, a inocência e o status de seres humanos também.


         Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...

Expandindo o pensamento