Na ribanceira da história



          Não estou na vanguarda de coisa nenhuma! Não faço parte dos vanguardistas rebeldes dispostos a matar por qualquer ideal, mesmo que não saibam quais são; tampouco me encaixo dentre os reacionários ferrenhos, aqueles que relutam ante a qualquer mudança e repelem a modernidade como se repelissem aos próprios filhos.
          Quanto aos imbecis que se deixam levar por águas turvas e contaminadas, acenando e sorrindo, argumentando sem ter palavras suficientes, arrogantes em sua ignorância, repetindo bordões e comandos de outros enquanto caminham rumo à queda d’água letal que os afogará e esmagará contra as pedras pontiagudas, espalhando o seu sangue sem piedade tristeza, talvez, por saber que esses são os que destroem a si mesmos e aos outros com a velocidade de um incêndio em um matagal, pragas corrosivas em forma de seres humanos. Não causam nenhum outro sentimento além desse, porque são comuns as todos os países, e quem os controla melhor consegue avançar sem maiores problemas, evoluindo em um ritmo aprazível.
          Aos tolos, ingênuos em geral, pessoas disponíveis que balançam ao sabor das ondas, ou opiniões, tentando adaptar-se para sobreviver, sem tomar partido de nada, com medo até da própria sombra (com razão, tendo em vista que até a própria sombra pode atraiçoa-los), fica o peso do livre arbítrio, porque parecem não saber que o possuem, e se o sabem, não têm ideia do que fazer com ele; ficam quase no mesmo nível dos imbecis, são massa de modelar da mesma forma. O que os difere é que não reclamam nem disso.



          Sou como os que estão na ribanceira da história, descendo aos trancos e barrancos sem conseguir parar, atropelado pelos seres que pensam, mas não exercem, única e exclusivamente por causa do nojo causado pelos arrogantes, vanguardistas, imbecis e tolos. Nós, os da ribanceira sofremos mais e sorrimos menos, por enxergar a desgraça em cada canto escuro, e por saber que não há salvadores de plantão, apenas espantalhos para assustar criancinhas e assaltar a colheita de um povo inteiro.
          A sapiência pode ser um fardo maior do que a estupidez. A visão clara dos fatos e dos manipuladores cruéis machucam e impelem a tombos e raladuras, e a cada cicatriz mais descaso, mais asco. Os da ribanceira não impedirão a derrocada do mundo civilizado, justamente porque não há civilização; só selvagens reféns da moda e algozes do bom senso, exterminando países, pessoas, natureza e planetas, com voracidade indescritível. A fé é algo que temos em comum. A dos tolos e idiotas é cega. A dos manipuladores é ausente. A nossa é a única razão de viver.




Marcelo Gomes Melo

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