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Entendendo o jogo do amor


O jogo do amor é jogado em ambiente estranho, por isso o cuidado inicial, o excesso de perfume, os passos contidos, a procura por aprender sobre o outro, apreender as sensações, ler nas entrelinhas, demonstrar qualidades... Aí é que pega. Mostrar as qualidades. Não é como fazer um currículo para conquistar uma vaga de emprego, e qualidades são efêmeras, às vezes servem, às vezes não.

O certo mesmo é conseguir demonstrar qualidades sem ocultar defeitos, e não esconder os defeitos pode se tornar uma qualidade, caso sejam passíveis de aceitação. Se não o forem, o jogo do amor se encerra automaticamente.

O jogo do amor é exótico e envolve fantasia, inclui peças novas em um quebra-cabeças difícil de enxergar aqui do chão. Por ser imenso, exige a virtude de flutuar para ter a visão completa, facilitando o prosseguimento da batalha de paixões, os obstáculos sombrios e silenciosos, feitos para que os jogadores tropecem.

O tropeço precisa ser superado. Ser içado por uma mão forte quando pendurado por um fio de uma altura considerável; um empurrão para o lado desviando de uma flecha, um abraço apertado evitando uma armadilha...

Não basta entender o jogo do amor, é preciso criar estratégias para suportá-lo e adquirir armamento particular para movimentar as peças corretamente e ganhar prêmios, revertidos em felicidade, prazer e, em caso de bônus, caminho aberto para a chegada.

Ao cruzá-la, então, o direito de aceitar o amor abre-se como um lindo domingo de sol e céu de brigadeiro, e os vencedores, enfim, podem ostentar o prêmio maravilhoso de exercer todas as ações físicas e espirituais em nome do amor.

 Marcelo Gomes Melo

Resolvendo complexidades de modo simples


       Um rasgo aberto no peito para caber o enorme coração cheio de amor! Lotado de amor pelo ódio, um cidadão conhecido por estraçalhar pombas da paz vivas, com os dentes. Mais assustador do que o Ozzy Osbourne com os morcegos. Pronto para apaziguar qualquer discussão simplesmente matando a todos os envolvidos e na sequência emborcar um conhaque com limão e sangue humano. Gelo nas veias. Teias no cérebro.

Um olhar pétreo, sem reações, sem emoções, apenas instinto, violento e assustador. É preciso talento para viver à margem de um mundo caótico, resolvendo complexos de modo extremamente simples, e incrivelmente aumentando o caos ao seu redor.

Um caminhante das trevas em plena luz do dia, sem exigências incomuns, sem escolhas difíceis, matando um leão por dia, um zoológico por semana, diminuindo a população do mundo por mês. Tempos fáceis, esses, para quem não espera nada da vida. O que se quer é eternizar a sua bagagem particular arriscando a vida por isso. Se morrer, ainda assim vira meme.

Fica mais difícil convencer pessoas sobre virtudes, incutir filosofias decadentes como moral, amor, justiça, respeito e hierarquia. Melhor largar e ficar à beira da avenida filmando os finais dos dias, os finais das vidas, constatando que não mais se luta; o que se faz é barulho antes de ser encaminhado à fila do matadouro, e quando se está inserido, silêncio. Passos sonolentos, comportamento subserviente para encontrar a morte sem olhar nos olhos do carrasco. Abdicar da vida da mesma forma como se viveu: com indolência e inutilidade.

 

 Marcelo Gomes Melo

 

Até que ponto a poluição sonora pode incomoda

 


A quantidade de pó naquelas roupas surradas denotava o longo caminho percorrido sob o sol, naquela estrada de terra cercada por campos e plantações, a pé, sendo ultrapassado de vez em quando por poderosas pick-ups que o faziam comer poeira. Os caipiras de hoje não são mais como os de antigamente. Imitam americanos, usam artigos importados e os cavalos estão no motor de seus touros potentes.

Muitos deles são os próprios touros, adoram chorar ouvindo letras nocivas sobre traição e dor, encher a cara de uísque com energético, cantar com vozes agudas e finas, atormentando a eles e aos outros.

Por isso resolveu parar em uma casa pobre em um sítio pequeno para pedir um copo com água; lá seria melhor recebido, e quem mata a sede de um homem, umedece a garganta seca de um coitado, ganha uma quota mais alta para a entrada no paraíso.

Enquanto bebia e aceitava um pouco mais, pensava em como era irônico fazer aquela caminhada a pé para cumprir o contrato.

Chegar de carro por aquelas bandas chamaria muito a atenção, ainda mais se não fosse uma pick-up com som profissional explodindo os tímpanos da vizinhança pobre, e até dos peixes nas lagoas distantes.

Agradeceu pela água, bateu com o chapéu nas roupas levantando uma nuvem de pó e continuou o caminho, sabendo que só haveria sinal de celular quando chegasse ao grande rancho, à fazenda gigantesca onde ocorriam as festas com garotas bronzeadas, nuas na piscina com chapéu de boiadeiro, e os caipiras de corte de cabelo igual e camisas xadrez, botas de couro de cobra e um dialeto forçado para as câmeras de TV e internet.

O contratante fora claro: muita desordem, sangue e destruição. Tudo deveria ser filmado e postado na dark net para assombro do mundo e uma mensagem pacifista. “Contra o barulho artificial, que não servem para nada e ainda contribui para a poluição sonora que fabrica burros.

O eliminador apenas se importa com o que vai receber, e realiza o que foi combinado ao pé da letra. Quando pulou a porteira automaticamente ficou alerta, tenso e preparado. Checou as armas e encontrou a primeira vítima na sala, assassinando um violão. Antes que lhe perguntasse quem era levou três tiros de pistola com silenciador. Observando atentamente os cômodos, ouviu um barulho na cozinha onde encontrou o outro elemento fazendo um sanduíche de ovo com mortadela. Mais três tiros. Fácil. Esses agora só cantariam para subir. Após verificar a casa principal é certificar-se de que estavam sós, começou a segunda parte da encomenda. Com uma granada explodiu um pequeno estúdio com instrumentos musicais. Enquanto caminhava pela casa ia destruindo tudo sem piedade. Os equipamentos de filmagem para lives, por exemplo. Na piscina jogou outra granada. Acabou com a churrasqueira e, antes de sair pegou a chave da pick-up. Não voltaria a pé, isso não constava no contrato. Pelo celular informou o contratante e o pagamento foi transferido.

Ao chegar próximo à cidade explodiu o automóvel e procurou um bar para tomar uma cerveja gelada. Logo começou a ouvir boatos da live que dera errado na fazenda de famosos.

 

 

Marcelo Gomes Melo


Para ler e refletir

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...

Expandindo o pensamento