Pesadelo diário: assombrado pela profissão



À hora em que pisei naquela velha escada de madeira, ela rangeu assustadoramente, prestes a desabar.
          Parei, estremecendo. A mão que segurava a pequena lanterna, tremendo, embora tentasse esconder o pavor. No mesmo instante um trovão ribombou lá fora, segundos após o relâmpago cruzar o céu e descarregar sua eletricidade em uma velha árvore, que virou cinzas. Era a natureza tocando o terror em um garoto da cidade, cheio de lendas urbanas na cabeça.
          A madeira de um dos degraus cedeu, e o meu pé afundou até o joelho. A dor lancinante me fez urrar, olhando para a enorme janela acima, que mostrava uma lua pálida e fria. A cabeça inclinada para trás me fazia lembrar de um lobisomem nos filmes clássicos.
          Apontei a lanterna para investigar o motivo da dor. Fratura exposta da canela, com um pedaço de madeira fincado na coxa como bônus. Sangue e ossos fragmentados. Quase sufoquei de medo e dor!
          Estava ali, preso, sem poder de movimentação para sair dali sem ajuda. Coloquei a lanterna entre os dentes para tentar acessar o smartphone no bolso de trás da calça para ligar pedindo ajuda. Sem sinal, claro!
          Respirando com muita dificuldade tentei mover o corpo devagar, tentando sair daquela posição incômoda, mas quase desmaiei de tanta dor! Estava formado o cenário para o meu horror pessoal. Agora teria que esperar amanhecer para pedir socorro de alguma maneira.



          Fiquei ali travado no meio da escada, com uma fratura exposta na perna, agora respirando rápido como uma mulher prestes a dar à luz para controlar a dor, quando ouvi passos no andar de cima, o qual estava momentos antes do acidente tentar alcançar. De onde eu estava não havia visão alguma de quem poderia ser. Apenas passos pesados, um arrastar de correntes, um barulho parecido com um riscar de unhas em uma lousa...
          É claro que tentei sorrir para espantar o terror, mas o medo era maior do que o juízo e passei a tremer ainda mais, possivelmente entrando em choque. Foi quando os passos ficaram mais intensos, mais próximos.
          Ao tentar olhar para o topo da escada, deixei escapar a lanterna, que desabou rumo ao andar térreo, junto com o celular. Agora tudo era escuridão, a não ser pela fraca luz do luar, ao longe.
          Os passos chegaram ao topo da escada depois do que pareceu uma eternidade e desceram na minha direção. Seres monstruosos, vítimas do INSS, atropelados, assassinados e assassinos mortos chegavam lentamente. Seriam aliens?
          Um gigantesco e horripilante ser carregava um serrote grande à mão e correntes presas ao tornozelo. Um ser estranho, menor, feio como a fome, carregava um cabo de madeira com um laço na ponta, que usou para imobilizar a minha cabeça. Juro que tentei falar, gritar, implorar, chorar, urrar.... Fiz tudo isso internamente porque não saiu nem um som!
          A figura gigantesca passou a usar o serrote para abrir um tampo na minha cabeça, expondo o meu cérebro. Seria “O silêncio dos inocentes? ”. Louco de terror vi mais duas figuras com colheres e tubos de ketchup chegando perto avidamente. Derramaram o ketchup sobre a minha massa encefálica e, grunhindo entre si disputavam para ver quem se serviria primeiro. O grandão venceu a disputa e enfiou os enormes dedos no meu cérebro...



            - AHHHHHHHH!
          - Aparício! Aparício, dormindo em serviço de novo, moleque?! Levanta dessa lápide e vai buscar a pá, anda logo! Temos outro enterro, Aparício! Eu, hein!



Marcelo Gomes Melo

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