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Vertigo

Eu sei que a vida turva os olhos como em terreno deserto e calor excessivo cujas ondas se manifestam fisicamente. Que os pensamentos vagam, livres, até uma altura que causa vertigem e fica distante demais de tudo para ser possível uma análise imediata, objetiva e sensata. O que se tem é a sensação de queda, sem paraquedas, rumo ao desconhecido, com imagens passando velozmente, mas sem som.

Alguns chamam tais sensações de destino, só que, quando é imediato causa perda de consciência, não se sabe mais o que é certo ou errado, tudo fica confuso e o caminho tende a se tornar selvagem, no sentido de que qualquer atitude pode acontecer. Tragédias se repetem a esmo, desolando corações, destruindo felicidades, prenúncio de devastação sombria, física e mental.

A visão turva se encontra também entre os amores incuráveis que promovem tempestades letais, choro em sonho, sonho sem choro, armadilhas espalhadas em terreno pantanoso. Amor é guerra! E, nebuloso, provoca falhas de julgamento, arrasta sentimentos com ventania furiosa, ainda que permaneça glória na vida dos escolhidos.

Águas turvas que molham e incutem perigo, fazem lutar contra a corrente e viver em desespero constante: ora por dor, ora por felicidade.

É a vertigem inevitável que lhe derruba inclemente, destruindo-lhes as forças, magoando coração e alma, desviando os bons pensamentos, trocando-os por injúria e calúnia, amor ciumento, que fere indiscriminadamente enquanto você não enxerga a um palmo diante de si para se defender com dignidade. Resta atacar com todas as forças, preenchendo as falhas com braveza e insanidade, sem perceber que é impossível compensar o vazio que fica, o buraco que engole o coração, o abismo que corrói a alma, a tristeza que nunca acaba. Infinita. Eterna. Imparcial.

Marcelo Gomes Melo

Terra de ladrões


Poderia ser um título dos filmes de bangue-bangue Spaghetti estrelados por Clint Eastwood e Giulianno Gemma nos velhos tempos da TV Record às terças-feiras. Uma terra sem lei nem escrúpulos em que o mais forte (armado) pressiona e intimida os mais fracos (desarmados), enriquecem e desfrutam de todos os benefícios do poder e da riqueza, totalmente afastados da realidade.

Esses seres dominantes do bangue-bangue geralmente são espertos, mas não inteligentes; cruéis como selvagens, coiotes, hienas desprezíveis, incapazes de pensar além das próprias necessidades. Gente ruim que contrata gente pior para matar gente inocente e calar vozes pela força. A moeda vale mais do que a vida.

É por isso que surge um herói tão mau quanto os maus que vendem a arma, e a alma aos seus mandantes, só que solitários, rebeldes e desatrelados do sistema, dispostos a lutar por eles mesmos, não necessariamente pelos fracos, porque ninguém luta por fraco nenhum, o problema é deles, fracos; e se formam a maioria são burros por continuarem fracos.

E esses maus que viram heróis não se interessam por isso, porque vivem a vida e não se interessam por grupos sejam quais forem. É aí que surgem os candidatos a herói. Gente covarde que tenta lucrar falsamente prometendo defender necessitados, criando sindicatos de heróis e explorando de todos os lados, aceitando propina para não matar, e fingindo matar para faturar.

A terra é apenas terra. Fruto sagrado da natureza, componente irrefutável do que é necessário para viver. Os ladrões são vermes que pululam o ambiente apenas com intenção de destruir e corroer aos poucos o ouro alheio para existir como parasitas, artistas interpretando um papel, utilizando a falta de caráter inerente para sobreviver em terra inóspita.

Hoje em dia esse título se encaixaria em que tipo de filme? Seria um roteiro perfeito para que tipo de diretores e artistas?

A resposta seria simples e fácil, caso não fosse explicitamente a imagem da vida real?

                 Marcelo Gomes Melo

Sobre o envelhecimento precoce. A lida. I

 

... As pessoas olham para mim e imediatamente contabilizam uns 70 anos de idade, quando de verdade tenho 3º anos menos. Deve ser porque trabalhei a vida inteira de sol a sol, cortando cana de açúcar em Jaú. A minha história pode ser triste, mas justifica essa aparência fora dos padrões desse século em que as pessoas frequentam academias e aplicam melhoramentos para o corpo, antinaturais que garantem juventude eterna, embora de forma corrosiva, nociva e pouco eficiente. Não enxergam o resultado quando se postam em frente ao espelho.

Como dizia, com sete anos de idade eu me levantava às três da madrugada junto com os meus pais; enquanto os meus irmãos menores dormiam, comia um pão seco, sem margarina e uma caneca de café ralo, passado com o mesmo pó por uma semana, pelo menos; depois nos postávamos em frente à casa e esperávamos a chegada do caminhão boia-fria que nos recolhia às quatro em ponto, em plena escuridão, já um calor abafado antes de o sol nascer.

Subíamos no caminhão com os apetrechos de trabalho e as marmitas retangulares de alumínio dentro de um saco plástico contendo nosso almoço, chamado de “bandeira do Japão”: arroz com um ovo frito estralado no centro.

Ao chegarmos ao canavial enterrávamos as marmitas sob a terra para mantê-las aquecidas durante o período em que trabalhávamos incessantemente. Os adultos com foices roçando a cana e as crianças arrastando os feixes até os carrinhos de mão em que outros adultos carregavam para encher os caminhões.

O trabalho sob o sol inclemente continuava até as dez da manhã, quando parávamos para a refeição. O sol ia alto, um para cada um de nós. Bastava desenterrar as marmitas para encontrá-las fervendo. Fazíamos uma colher com casca de cana e nos sentávamos no chão entre os canaviais procurando uma nesga de sombra. Quinze minutos para almoçar antes do retorno ao trabalho. Nos caminhos nos quais circulávamos havia diversos baldes com água e uma concha, para evitar que nos afastássemos para matar a sede.

Por volta das três da tarde nos serviam um pão seco que devorávamos avidamente com água, em pé mesmo. Cinco minutos de tolerância antes do retorno. Dia após dia era assim que funcionava a rotina até as seis da tarde, quando o caminhão encostava e mal tínhamos força para subir na boleia. Nos entregavam cada qual no seu casebre.

O meu pai acendia as velas e conferia os meus irmãos menores, enquanto a minha mãe cozinhava o jantar. Era o mesmo prato do almoço, só que acrescido de sobremesa, uma ou duas toras de cana docinha. Um breve banho frio, mamadeira de mingau de arroz para os pequenos e, por volta das nove, breu total, adormecíamos exaustos, sem pensar em nada. Para reiniciarmos o ciclo às três da madrugada do dia seguinte...

                                                           Continua...

 

  

Marcelo Gomes Melo

 

 

Para ler e refletir

A navalha

            A navalha não tem humor, não importa o que se pense a respeito de quem a esteja usando. Normalmente quem precisa equilibrar-s...

Expandindo o pensamento