Mensagem emocionada a todas as mulheres de bem!



              Eu disse a ela que às vezes eu bebia demais, e quando acontecesse ela deveria observar que me tranco em mim mesmo, não aborreço a nenhuma alma viva ou desencarnada, animais ou naturais; preciso apenas de espaço para que o álcool se dissipe plenamente junto com as emoções que me trazem, e que só cabem em mim mesmo através dos tempos. Não há como dividir, nem que eu queira, informei.
          Por isso é que ela deveria seguir exatamente as instruções que lhe dei, tranquilamente, sentados lado a lado, eu com sua mão descansando em meu colo, voz clara e audível. Não tente participar do coito ente mim e a bebida! Não se intrometa em hipótese alguma! Vá embora, se assim o preferir, eu conheço as sarjetas, são minhas amigas. Encontrarei o meu lar quando o sol se erguer sem problema algum. Nunca, jamais tente falar comigo no momento em que eu estiver próximo ao coma alcoólico. Não darei vexame, portanto fique a uma distância segura e finja que tudo está bem. Os meus amigos me conhecem, não levarão em conta o meu comportamento, mas o seu comportamento será julgado, caso tente mudar o que é tradicional.
          Entenda, querida, que você é a minha escolhida para reinar em nosso lar, nosso sagrado habitat; mas esse compartimento da minha vida, essa conjunção alcoólica com o mundo sensorial é algo que não lhe diz respeito, e tentar interromper algo dessa magnitude será terrível para você, mais do que para mim. Seja corajosa e humilde, meu amor, resista à compulsão feminina de tornar as coisas do jeito que elas querem e dominar ao seu homem como se ele fosse um mero escravo sem gosto nem desejo.



          Eu disse isso tudo a ela antes. Viva com essa verdade e seremos felizes para sempre, maravilhoso espécime do amor! Eu deixo de jogar baralho com os amigos fora de casa. Eu paro de jogar futebol com os amigos e jamais frequentarei locais não aprovados pelo seu guia de conduta. Prometo ajudar a não bagunçar a casa e seguir a sua escala de comando quanto a convidar meus amigos para o futebol. Tudo isso satisfará a sua sede mortal de poder. Você poderá condecorar a si mesma com a mais alta comenda de superioridade feminina, eu aplaudirei. Mas, nunca, de maneira alguma ouse interromper a minha conexão com a cachaça, a pinga, o uísque, a cerveja, o saquê... Isso será o início do caos para você. Não sobrará pedra sob pedra.
          Eu contei isso tudo a ela e ainda citei exemplos. Não toque em meu braço para tentar me puxar do local com aquele ar de condescendência; não funcionará. Apenas despertará em mim um senso de humilhação aumentada pelo teor alcoólico injetado em meu cérebro, sangue e corpo. Não faça comentários depreciativos nem em tom de piada. Não tente sussurrar em meu ouvido ordens absurdas, como se eu fosse uma criança que iria ser admoestada logo ao chegar em casa. Não faça isso. Será perigoso, minha querida maravilhosa.
          Não me encare desafiadora, insinuando aos presentes que eu seja menos do que sou em nenhum momento; não demonstre qualquer ira desproposital dirigida a mim diretamente. Não faça isso! Aguarde o meu encontro com o universo terminar no dia seguinte. Ofereça-me um comprimido e um suco contra a ressaca. Mantenha o silêncio em nosso ninho sagrado pelo tempo necessário, não fale comigo, não cantarole, não conte histórias sobre a vizinha... Aguarde a minha recuperação completa e voltará logo ao seu posto de mulher essencial, especial, comandante suprema do amor! Siga as minhas instruções e logo perceberá como está perto da perfeição. Seja a luz no fim do túnel para um homem que, com os olhos apertados e uma dor de cabeça infernal precisa voltar ao normal para encarar mais um dia ensolarado de trabalho duro em nome de seu conforto e existência feliz!



          Olhei o recorte de jornal colado em minha cela com a foto ensanguentada dela sob letras vermelhas garrafais: “ASSASSINADA AO TENTAR INTERROMPER A CONEXÃO DO MARIDO COM O UNIVERSO”. Sem poder conter as lágrimas de raiva e tristeza pela desobediência dela à única regra imposta por mim claramente, só pude apontar o dedo para o cadáver na foto, cheio de rancor contido e dizer:
          - Eu te disse! Eu te disse! Eu te disse!



Marcelo Gomes Melo

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