Rotate4all

PopCash

EasyHits4you

The Most Popular Traffic Exchange

Beber para lembrar de esquecer


Ela rasgou as minhas roupas e tocou fogo, atirou a minha coleção de relógios caros pela janela, quebrou os meus óculos, destruiu os meus computadores e celular. Aos gritos e soluços me expulsou de casa prometendo uma guerra judicial que me faria perder tudo. O que tivesse e o que não tivesse. Tudo tinha a ver com dinheiro. A intenção brutal dela era acabar com a minha vida como cidadão, impor uma humilhação que me destruísse socialmente e me transformasse em um monstro para os meus próprios filhos. Nossos filhos. E não, ela não me deixava perguntar a razão, urrava e quebrava tudo, acusava e chorava como uma corredeira, sem nunca dizer claramente o motivo.

Atônito, fiquei observando o show de horrores promovido sem embaraço por ela. O que teria causado tal ira? O que um homem como eu, por pior que parecesse, poderia ter feito para ser dizimado da própria família por alguém com quem dividira metade da vida?

E então, pela minha mente passou ponto a ponto a nossa longa história. Do início, na Universidade, trocando olhares e sorrisos. A atração jovem exposta para o mundo inteiro, quando se pensa um no outro como em um mundo à parte, e os encontros são como rituais nos quais se quer demonstrar apenas as qualidades um do outro, como se não houvesse defeitos.

Essa dança duraria algum tempo, porque enquanto nos conhecíamos a tendência era misturar delícias do amor com episódios mal-humorados, brigas bobas, escolhas surpreendentes e preferências diferentes. O surgimento das falhas que nos separaria seria maturado, tolerado, mas nunca superado.

Enquanto casal saberíamos se tratar de equilibrar uma convivência pacífica dentro dos limites que diminuiriam a paixão, envolvendo em uma complicada equação, filhos. Bençãos que separariam um pouco mais o casal que acreditava ser só. O ódio apareceria em breves instantes, rechaçados rapidamente, mas deixando marcas como um chicote.

A parte econômica familiar sofreria com os comentários de cada família, enevoando os pensamentos, incutindo desconfiança entre duas pessoas que antes sorriam juntas. Atitudes violentas e invejosas abriam covas no relacionamento, e um de nós iria surtar em algum instante, e o arrependimento não seria suficiente para reaver o que tinha de bom. Melancolia e infinita tristeza se manifestaria sem que fosse percebida, pairando no ar como entorpecente, causando insônias, silêncios e ofensas desnecessárias, até que o ponto primordial acontecesse. Aquele descrito no início.

A mim restava lutar uma luta sangrenta, mortal, esquecendo quem éramos, ou me retirar em silêncio para uma vida arrasada, mais um frequentador de botecos bebendo para lembrar de esquecer que nada permanece perfeito, simplesmente porque essas falhas modificam os rumos de uma existência linear, incluindo surpresas para apimentar uma vida curta e moldável.

O motivo, jamais saberei. Você jamais saberá, ninguém jamais saberá. Acontece sempre e se repete ad eternum, geração após geração. Viriam cinema e teatro, e os chamam tragédia.

 Marcelo Gomes Melo

 

Manter funcionando a roleta da paixão

 

Na estrada da vida, meu amor, o amor me autuou várias vezes, me encaminhou a uma prisão encantada e realizou o julgamento sem que eu tivesse direito a advogado de defesa. Eu era o réu, e as donas acusavam livremente, com os melhores advogados, paixão e crueldade, amigos da meritíssima juíza, que sempre agia parcial e ostensivamente.

O meu couro é de crocodilo, agora aguento as pancadas e não faço menção de me defender, derrotado antecipadamente pelos rumos que escolhi, seduzido, acalentado, usado e destruído completamente.

Não posso julgar injustiça, porque recebi diversos prêmios que a maioria dos homens sequer sonharia; tive coragem para ir além, baixei a minha guarda e entreguei corpo e alma, em um ringue perfumado no qual já entrava derrotado pelos prazeres que acumularia, enquanto aguentasse física e mentalmente.

As cicatrizes das minhas derrotas carrego em meu corpo, orgulhoso, machucados que guardam histórias inesquecíveis. A minha capacidade de amar se resume a sacrifícios e que enfrento sempre que sou fisgado como um peixe inocente que só pensa em saciar o desejo, assumindo possíveis perdas com dignidade, porque o ciclo nunca termina. Perde-se algo, recebe-se outro prêmio tão valioso quanto, e o caminho segue com o seu próprio tempo.

A minha carteira da paixão está corroída, sem mais espaços para multas, e sempre sou julgado culpado, à revelia ou não. Enfim, pago a minha dívida, devasto algumas garrafas de vinho do porto, durmo por dias, deprimido, e quando alguém abre a janela e o sol invade o meu quarto, o oxigênio novo e um café reforçado repõe as minhas forças e a vida recomeça. Troca a minha roupa, coloco os meus óculos de sol e passeio pelo parque com as mãos nos bolsos olhando a beleza da vida, descansando e tranquilo, sem pressa de cruzar o olhar com a próxima razão de viver com quem terei momentos incríveis enquanto durarem, e novamente crucificado, manterei funcionando a roda viva da paixão.

 

 Marcelo Gomes Melo

Os piores entre os sobreviventes


       Há um filtro entre a vida que se quer e a vida que se tem. Ele é responsável por afastar os pensamentos poluídos que permitem alcançar o patamar que se quer, mantendo a dosagem de falta de indignação correta para que a manutenção do status inferior permaneça sem maiores problemas.

O que acontece quando esse filtro anda descalibrado é o resultado de uma sociedade enlouquecida, sem parâmetros, sem um norte a seguir e muito menos alternativas criativas para suportar a própria mediocridade.

Cruzando as avenidas apressadamente, imersos em seus pensamentos devassos ou fanáticos, muitas vezes conversam sozinhos em voz alta pela rua, sem notar os outros seres que caminham na mesma ou em outra direção, como aliens, estranhos uns aos outros. Os seus olhares só se cruzam quando os objetivos se parecem, e trocam caretas estranhas como se fossem sorrisos desonestos, e a mente formiga em busca de uma brecha para passar o outro para trás e usá-lo como degrau invisível em tresloucada subida em atmosfera cinzenta.

O filtro descalibrado requer ajustes, mas esses são feitos com inexperiência, afundando-os cada vez mais em um poço de incompetência sangrenta. Todos ficam dispostos a tudo, e isso é perigoso. A cada esquina, a cada palavra trocada.

A opção atual é agir covardemente, rastejar para alcançar um lugar privilegiado sobrepujando aos outros, preparando-se para o salto final, no vazio e escuridão, alcançando a tudo ou perdendo-se para sempre. Vale o risco. Muitos perdem. Os que conseguem experimentam a sensação de prazer típica dos vencedores. Inebriados, não fazem ideia do quão pouco durará o seu reino, com boas intenções ou não.

No final o filtro falha e todos se transformam em Nero, tocando a lira enquanto a cidade queima, presos em sua loucura, sufocando na fumaça das notas altas de papel moeda, enviados para o inferno sem parada no purgatório.

A pior morte de todas. E nas profundezas enquanto ardem em sofrimento sem fim, produzem os novos filtros que regerão a humanidade até as novas catástrofes. Os escolhidos do mal, os imperdoáveis, os gananciosos sem saída...

Na superfície a poluição visual e sonora, as regras estúpidas fabricadas por hipócritas farão com que um novo começo estabeleça novas formas de autodestruição, híbridos dos seres anteriores com mais maldade e incertezas. Como em O Inferno de Dante, descem em círculos sem perceber, pagando pelos pecados que criaram, usaram e espalharam por um mundo sem culpas, um planeta sem culpas. Apenas os piores dentre os seres viventes.


 

                    Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Vandalismo emocional!

  Você diz ter medo de demônios E não hesita em agir como um deles Diz não concordar com alucinógenos E alucina com prazer E ao al...

Expandindo o pensamento