Rotate4all

PopCash

EasyHits4you

The Most Popular Traffic Exchange


Sobre como resistir cercados pelo infinito


     São largos e fundos os rios existentes em outros mundos, planetas paralelos acessados através de paisagens tridimensionais, e que nos fazem percorrer em velocidades distintas a seu bel prazer; não temos o controle nessa viagem sensorial em que as mudanças acontecem sem aviso nem transição justa ou adaptável.
Saímos de um rio tranquilo em calmaria aprazível para corredeiras estreitas, com águas velozes e irritadiças, rebeldes, irregulares e bravias entre rochas lisas e perigosas, sendo agitados de um lado para o outro, testando nossa força física e mental para domar as pancadas e os sustos, aguentando os ferimentos que virão, às vezes superficiais, às vezes imperceptíveis, mas que machucam e deixarão cicatrizes, nos obrigando a aprender a buscar, respirando fundo, caráter e esperança para sobreviver aos solavancos mortais que deixam muitos fora de combate, abandonados às margens da existência.

     Como a vida, essa corredeira do nada se transforma em riacho, onde meditamos e consertamos os ferimentos sem nenhum segundo de descanso, separada, em constante movimento, pois parar significa perder, e perder é desistir, deixar de existir.


     Num momento como esse é possível admirar o sol, a natureza, o brilho da lua; o sal para curar as feridas, a concentração para limitar as dores causadas pelas belezas enganosas do viver, do querer, do não ser e nem saber como vai terminar...

     Logo uma queda d’água imensa surgirá no caminho, sem aviso, sem perdão, nos atirando com força num abismo profundo, sufocando entre o poder das águas brancas espumantes, o barulho incessante, ensurdecedor de sua superioridade ante nossa fraqueza eterna; falta de importância contumaz, subjugados por tanta força natural que impiedosamente nos incute todo o medo da morte e a impossibilidade de lutar contra o inevitável.
     Durante essa queda infinita nos confrontamos com nossas insignificantes falhas, nossas dores embaraçosas, nosso tempo de vida tão curto em comparação com a eternidade dos elementos naturais que nos cercam.

E então chegamos a outro rio. Outro mundo. Nova Era de paz e tranquilidade em que pensamos ser possível reconstruir o que perdemos, refazer o que erramos, consertar o que quebramos, superar o que sofremos...

     Novas belezas, novos sonhos, novos aspectos em novos planetas. Vidas serenas novinhas em folha até que as conspurquemos, as tornemos frívolas e inúteis, nos levando a outras corredeiras e arranhões profundos, e luta, e vontade para sobreviver mais um dia ou cair à margem, sangrando lentamente até morrer.


     O infinito nos cerca todos os dias, mas somos insignificantes demais para encontrar uma saída. Mera folha de outono, passeando, seca ao sabor do vento. Há uma linha tênue entre viver e morrer; o amor é a linha que costura as fendas na carne dolorida que espicaça o cérebro; a dor é o alerta para que sobrevivamos à infecção que ele causa indiscriminadamente.
     Somos o que devemos ser. Nada mais. Nada além. É notório.


Marcelo Gomes Melo

Dia das mães no inferno! 


        Nesse domingo do ano é assim, Roswanilssa reclamou entredentes, olhar carregado, cuspindo perdigotos de ódio. Multidões chegando como se o fizessem rotineiramente, sorrindo, falsas e trazendo os netos, os namorados e namoradas dos netos, agregados malditos e suas piadas sem graça para o almoço mais concorrido do ano.
          Esses desalmados nojentos passam o ano inteiro sem dar sequer um telefonema, sem perguntar se precisamos de alguma coisa e sem oferecer porcaria nenhuma! Agora abraçam e repetem as baboseiras de sempre, que escutam nos comerciais melosos e mentirosos da televisão. Trazem flores, os sacanas! Quem diabos quer flores?! Flores o cacete! Guardem essas flores para o dia do enterro!

          Uma balbúrdia desgraçada o dia inteiro; crianças mal educadas correndo e gritando, mexendo no que não devem e quebrando coisas que não lhes pertencem ante o olhar benevolente e conivente dos pais. Será que esses bananas não conseguem dar um jeito nesses capetas? E se nós, os avós resolvermos colocar ordem na pocilga, ficarão ofendidos, os imbecis. Afinal estão quebrando nossos pertences, não os deles.
          Passam o dia todo no ócio, os homens enchendo a cara de cerveja e comendo gordura em nossa homenagem, para depois se esparramarem no sofá roncando como porcos, enquanto as mulheres se aglomeram em torno da mesa da cozinha, fofocando sem deixar de beliscar guloseimas como se fossem ratos, ao mesmo tempo em que falam sobre dieta e como o corpo deve ser um templo. Só se for um templo de pecados infernais!

          No fim do dia, felizes com eles mesmos pegam seus rebentos e dão o fora sem olhar para trás, certos de que cumpriram bem o seu dever ditado pela mídia, satisfeitos pela comemoração que visou apenas o bem deles próprios. Agora retornarão apenas no ano que vem, para realizar a mesma pantomima que visa repetir o mesmo.
          A louça suja ninguém vai lavar. As latas de cerveja vazias espalhadas pelo quintal ninguém vai recolher. As manchas de gordura e de doces no sofá e os enfeites quebrados ninguém vai repor nem solucionar. Cada domingo desse é um inferno, ainda bem que só inventaram um por ano! A única certeza que tenho de vingança é que tal ritual se repetirá em breve, e eles serão vítimas desse terror com os próprios filhos malcriados!

          Roswanilssa! Vamos, mulher, para de ficar olhando a festa do vizinho através da brecha no muro e trate de se apressar. Hoje a visita na cadeia é complicada, você sabe que estará lotada de pais como nós. Os meninos estão esperando para comemorar, vamos!
         
         Roswanilssa não diz nada. Ajeita o xale, dá um olhar assassino para o marido, que, distraído colocava quitutes no banco de trás do carro e encaminha-se para o presídio local.


Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

Ode à destruição

  É verdade que eu quero matar. Matar os covardes mentirosos que caminham sob o sol distribuindo sorrisos falsos, enganando sem culpa ...

Expandindo o pensamento