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Tensão a respeito da gentileza 



- Hoje em dia até os elogios são sombrios.
- O que quer dizer com isso?!
- As pessoas temem parecer gentis. Nada de “por favor”, “com licença”, obrigado... Talvez entendam que boa educação é sinônimo de fraqueza. Quanto a elogiar, então! Significa reconhecer algo de bom em outra pessoa, e isso pode atrapalhar os seus próprios planos.
- Desculpe, eu costumo lhe elogiar, se o que quer é massagem no ego. – ela diz e sorri, concentrada em cortar os legumes sobre a pia da cozinha.
- Não... Não é isso. – ele sorri melancolicamente – Trata-se de uma constatação geral, resultado de minha observação empírica do mundo.
- Acha que o mundo é muito diferente de nossa época adolescente?
- O tempo. – ele serve uma taça de vinho e oferece a ela, recebendo em troca um sorriso e um gesto de brinde – O tempo controla o universo, e agora ele está bem mais veloz.
- Acha que envelhecemos rápido demais?
- Acho que eles envelhecem rápido demais. Amadurecem à força, como frutas arrancadas ainda verdes da árvore e forçadas de maneira antinatural. Isso causa desvios de conduta que geram avaliações incorretas e aceleram ainda mais a ida de toda uma sociedade para o buraco, literalmente.
- E perdem a necessidade de elogiar por causa disso? É a sua teoria?



- A base de uma convivência saudável sempre foi a confiança, a intimidade e a autoestima. Reconhecer as qualidades e elogiar transforma comportamentos. Faz com que o trabalho em conjunto seja tranquilo e eficaz. Equilibra a necessidade de punições e correções porque elimina do processo algo registrado como humilhação.
- E por que as pessoas não são educadas e se recusam a elogiar?
- A marca desse tempo é o individualismo. A competição insana que controla a mente e o corpo fazendo com que as pessoas enxerguem apenas adversários, inclusive em quem amam. Há sempre disputas em todos os níveis.
- É o que chamamos de selva?
- As leis da selva são mais justas.
- E o que fazemos, então?
- Brindamos, meu amor. – eles sorriem e tocam as taças – Você está linda, a propósito!
- Você também, meu amor!




Marcelo Gomes Melo

Da necessidade de arriscar para descobrir



          - Vou passar mostarda. Não sei por que ri, é verdade! Eu prometo. Feche os olhos e inspire profundamente; reconheça os perfumes enroscados desse momento íntimo... A mostarda. Sim, eu vou passar mostarda antes de lamber os dedos e experimentar o sabor utilizando o meu pensamento prático. Misturado ao meu sentimento simbólico.
          - Você parece ser expert nesse tipo de coisa.
         - É algo que passa de pai para filho instintivamente. Uma herança. Não sei por que ri, é verdade! Está curiosa?
          - Um pouco. Muito! O sorriso é de expectativa e nervosismo... Jamais pensei em mostarda.
          - Pensou na navalha? Já falamos nisso antes. E o seu olhar a percorreu com suavidade; mantendo distância, mas sem surpresa.
          - É preciso confiança demais, não concorda? A navalha...
          - Confiança mútua e habilidade, sim.
          - Sou iniciante. Pretensa iniciante. Possível iniciante.
          - E o que a faz pensar que eu não o seja?
          - A luz no fundo dos seus olhos. Alguma coisa no tom carinhoso e cuidadoso em sua voz.
          - Mas mostarda lhe faz sorrir!
          - Sim!


        - Um sorriso deslumbrante, quase juvenil, de quem questiona as próprias ambições.
         - Pode ser. É o preço a ser pago pelas novas diretrizes sociais de um século marcado por promover a exposição pessoal a qualquer custo, em troca de experiências não lineares, mas que levem à fama.
          - Ah, o amor científico.
          - Agora o sorriso foi seu! E parece descrente.
        - Não de você, doutora. Da ironia das coisas. O que aprender pode lhe tirar o prazer do que é simples, para sempre. E vagar sem opções para saciar os desejos pode ser bastante...
          -... Desconfortável.
          - Sim. Tudo pela ciência?
          - Ou egoísmo.
          - Mostarda, então.


          O sorriso de cumplicidade aguça os sentidos, e a ciência é uma prostituta cínica disposta a qualquer ato em troca de um bom retorno. As crenças e lendas são a outra parte.
          Enquanto houver julgadores está garantido o medo, o pecado e a necessidade de arriscar para saber.


Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

A vida secreta dos seres noturnos           As noites em claro que costumo passar há anos, me ensinam comportamentos novos...