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       “A caminho do céu carregado por anjos”. Forjando o caráter.

 
       Quando garoto, com quinze anos de idade resolvi procurar o meu primeiro emprego. Queria ter no bolso uns caraminguás para frequentar os bailes, comprar doces e ingressos para o futebol e cinema, mas principalmente ganhar uma moral com as meninas, é claro.
          Foi por isso que saí na companhia de mais dois amigos, na busca pelo primeiro emprego. Fomos a uma firma de nome atraente, mas que não tínhamos a menor ideia do que fabricava. TRIPAC. A atendente, olhando para nós com um misto de desconfiança e pena, quis certificar-se do nosso real interesse em integrar o quadro de funcionários da empresa; dito isso, nos convidou a entrar para ver a função que exerceríamos, caso contratados.

          Ela se deliciou com os nossos aspectos pálidos ao vermos os funcionários de uniformes brancos, incluindo toucas para proteger os cabelos e botas de plástico, porque trabalhavam com água fria até os tornozelos, no verão ou no inverno, em um galpão enorme e escuro, com balcões recheados de recipientes quadrados também brancos e também de plástico com um fedor fenomenal de restos que nos revirou o estômago e quase nos fez vomitar. Havia tripas de porco moídas e sabe-se que lá de mais o quê! Faziam linguiças, salsichas ou algo parecido. Saímos de lá fugidos sem sequer agradecer à bondosa e mordaz moça da recepção. Riscamos a primeira empresa da lista.

          Por uma semana arranjamos um emprego, eu e meus amigos, como auxiliares de pedreiro em uma construção na rua em que morávamos. Na verdade éramos auxiliares dos serventes do pedreiro. Minha mãe levava, todos os dias, uma hora depois que começávamos a trabalhar, um copão de café com leite e pão com manteiga, atitude que me fazia morrer de vergonha. Foi a semana mais esforçada da minha vida! Subia escadas de madeira até a laje, carregando latas cheias de concreto no ombro, para “assentar caquinhos de azulejos” com o intuito de evitar possíveis vazamentos.

 

          Durante essa semana de trabalho, que nos encheu as mãos de bolhas doloridas e atrapalharam muito na escola no ato de escrever, cabe lembrar que o emprego fora pura insistência nossa e não fruto de trabalhos forçados por parte dos pais, nem necessidade de ajudar no sustento familiar; muito menos deixar a escola nossa de cada dia. Disso eu poderia tirar o cavalinho da chuva. Hoje os adolescentes que tentam fazer algo parecido com aprender a ter responsabilidade e a ganhar o próprio dinheiro, correm o risco de serem recolhidos pelo ministério público, tirando a guarda dos pais imediatamente.

          Aquela atitude ajudou a forjar o nosso caráter, acredito plenamente. Um homem precisa aprender a trabalhar honestamente se quiser, um dia, formar a própria família. Acostumar a receber esmolas do governo desde pequenos é algo extremamente perigoso, porque tira a noção valor das coisas, e do esforço necessário para consegui-las.
          Na semana em que trabalhamos pudemos abrir uma conta na casa em frente, que vendia geladinhos; sorvete de suco artificial acondicionados em saquinhos plásticos. Era novidade e gastamos todo o salário da semana com isso e com band aids para as bolhas.

          Uma semana depois percebemos que a vida é dura para quem é mole e mudamos. Conseguimos emprego em uma chácara de japoneses que trabalhavam na feira. Eu e meus amigos aprendemos a plantar sementes, à distância de dois em dois palmos para frente e para os lados; a usar a enxada abrindo novas bolhas nas mãos, e colher alface para encher os carrinhos de mão e levar até os engradados para lotar os caminhões que iriam às feiras.

          A técnica da colheita da alface era bastante inteligente e peculiar: esticava-se um dos braços e usava-se uma delas como base na palma da mão, depois colocávamos diversas outras alfaces umas sobre as outras, até em cima na altura dos olhos, sem derrubar nenhuma até depositarmos nos carrinhos de mão.
          Eu, pessoalmente, não aguentei mais do que cinco dias e desisti descaradamente sem nem me preocupar em ir pedir demissão e receber pelos dias trabalhados. Descobri alí que estudar era o grande barato. Bem mais leve e limpo!

 

          A senhora japonesa, dona da chácara, se deu ao trabalho de ir até a minha casa acertar os dias trabalhados e dizer para a minha mãe que era melhor eu estudar; aquele tipo de serviço era pesado demais para alguém como eu, preocupado com a estética física para encantar as meninas.
          Apesar das desventuras não desisti do objetivo, apenas mudei de tática. Uma vez, passando em frente a um cemitério, vi que estavam precisando de vendedores de jazigo. Achei o nome da profissão bastante bonito; e o ambiente completamente tranquilo me encheu de esperança de conseguir um trabalho mais leve, afinal, os mortos não falam.

          Entrei e fui encaminhado à sala em que haveria uma palestra e em seguida as entrevistas para o preenchimento das vagas. Hoje tenho noção de que, já á época a recessão era alta, porque a sala comportava quase sessenta indivíduos, pais de família, vestidos de paletó e gravata, e um moleque de dezesseis que nem tinha a noção de que jazigo era sinônimo de túmulo, e nem que tipo de trabalho era aquele.
          Com o decorrer da palestra fiquei sabendo que o vendedor de jazigos recebia uma pasta preta, recheada por saquinhos transparentes; na capa o logotipo do “Cemitério Dois Irmãos... Antes eram três”, que consistia na sombra de três corpos, dois em pé e um na horizontal, dentro de uma cova. Dentro dos saquinhos, inúmeras fotos dos lotes residenciais de terra para servir de última moradia para os interessados em contar com segurança no post mortem.

 

          Aos vendedores cabiam ir de casa em casa tentar convencer as famílias, muitas morando em casa de aluguel, a adquirir uma moradia definitiva no cemitério. Os ganhos seriam uma porcentagem das vendas realizadas, o que não era muito, a não ser que houvesse vendedores bons o suficiente, e famílias realistas além da conta para investir na própria morte.

          É óbvio que não fui sequer cogitado para o emprego. Mas o entrevistador tinha uma proposta razoável de emprego e queria que eu ouvisse. Declarei interesse na mesma hora. O rapaz afirmou que apesar de ter apenas dezesseis, eu era alto e podia iniciar carreira como modelo. E além disso faturar uns cobres a mais limpando os jazigos e sendo ajudante de coveiro.
          Nunca tinha ouvido falar da existência de agências de modelos que trabalhassem como representantes de cemitérios; mas aceitei a oferta e fui para casa, orgulhoso, contar aos meus pais que seria modelo no cemitério.

          A partir daquele dia, durante meio período eu passei a frequentar o Cemitério Dois irmãos..., varrendo sepulturas, colocando flores e até copinhos de cachaça em determinados túmulos, faturando gorjetas dos vivos por cuidar bem dos mortos e economizando para a faculdade.
          Quanto ao trabalho de modelo, descobri que não tinha nenhum glamour, pois consistia em deitar em uma prancha de madeira para que o carpinteiro medisse tudo certinho na construção dos ataúdes. Eu era um modelo para a feitura de caixões.

 

          Passei a conhecer melhor o conteúdo da pasta dos vendedores e a técnica de vendas embutida. As fotos apareciam hierarquicamente. Ataúdes de primeira qualidade, coloridos, bonitos, resistentes e confortáveis, cheios de acessórios estavam na frente. Consequentemente eram os mais caros. Visavam encantar a futura vítima do sepultamento. No final ficavam as fotos dos caixões mais simples, de compensando, criados com sobras de madeira ruim, sem pintura nem trincos. Apertavam o morto lá dentro do jeito que coubesse e pregavam a tampa. Os ataúdes bonitos vinham com a legenda “A caminho do céu, carregado por anjos”. Os de compensado traziam a legenda “Penetre como puder nas profundezas dos infernos. E reze!”.
          Ano após ano eu ia gostando cada vez mais do serviço, e me encantando com o ambiente tranquilo. Tanto que decidi ir para a universidade cursar tanatologia. Atuaria na profissão e em breve teria o meu próprio cemitério.

          Apesar de ter uma adolescência e juventude com poucas namoradas, porque a maioria se assustava com o meu trabalho e com a minha atitude estranha para os padrões da moda.
          O sucesso com o sexo oposto veio pra mim com a moda dark, em que todos os jovens passaram a se interessar por coisas escuras, tristes e a frequentar cemitérios para ouvir as novas canções inglesas e recitar Baudelaire e Augusto dos Anjos. Anos depois voltaria a ter sorte novamente com o sucesso do filme com Bruce Willis, O Sexto Sentido, quando Haley Joel Osment ficou famoso dizendo que via gente morta. A minha vida amorosa deu um enorme salto de qualidade! Já profissionalmente...

 

Continua...
 

Marcelo Gomes Melo


Tempos de dor, tristeza e morte maquiados de festa e luz!

Todo fim de ano é arrasador! Não existe tristeza, a mídia repetindo todos os chavões à exaustão, gente sorrindo pelas ruas coloridas, casas enfeitadas, presentes e festa permanente.
 
O Papai Noel não tem diabetes nem problemas coronários, mesmo ingerindo tanta vodca e picanha de rena gordurosa. As casas brasileiras todas têm lareiras e chaminés, não importa o calor torrencial de verão no fim do ano. E a chaminé serve apenas para a descida do Noel de 150 quilos com um enorme e pesado saco de brinquedos às costas, mas não para a entrada de ladrões magros e sem escrúpulos que aliviariam as famílias dos presentes que as endividarão pelos próximos doze meses, e ainda degustarão suas deliciosas rabanadas, deixando a louça e a cozinha sujas para que as mulheres lavem ao amanhecer, enquanto os maridos entram em contato com as delegacias fechadas ou com nenhuma vontade de atender aos chamados de cidadãos desesperados e com o natal perdido. Isso se acreditarmos que toda a população tenha pelo menos uma rabanada para comer, o que está longe da realidade.
 
Nesses finais de ano perfeito com gente branca e feliz cheia de dólares e cartões de crédito existe até neve! Claro que nem imaginamos os corpos de pessoas e animais mortos, abandonados pelas ruas, congelados perto das lixeiras, sem lugar para se abrigar, sem dinheiro ou alimentos. No calor abrasador é mais fácil, perambulam como zumbis e são escondidos pela decoração de natal, atirados nas valas da morte lenta, esquecidos e ignorados pelos felizes profissionais, que assaltam o povo em todas as circunstâncias, achacam o comerciante honesto, levam juros e inflação às alturas e passam as festas pisoteando crianças que jamais experimentaram sequer um panetone.
 


O fim de ano é uma tristeza constante, uma enganação maldita em que até as ilusões são vendidas descaradamente, como se vivêssemos em um mundo perfeito! Nem ilusão sai de graça nessa terra das festas e comemorações sem razão de existir, a não ser perpetuar a safadeza dos paletós sacanas de bolso cheio de dinheiro que comandam o país.
A hipocrisia do dia a dia acentua-se no final do ano; as frases feitas e as fotos, os cartões com neve se repetem; as orações de amor eterno exaltando a ética, a honestidade e a bondade, a paixão divina e todos os desejos de realização plena para a humanidade são espalhados pelas mídias sociais, muito mais como propaganda da própria bondade do que por real desejo de que se concretize.
Fim de ano de luz e sonhos? Fim de ano de eletricidade muito cara e pesadelos, isso sim! E sem água!
 
          A oração necessária tem conexão direta com Deus e é secreta! Trata-se da verdadeira comunhão individual, na qual cada ser humano expõe os seus medos, suas falhas, seus reais desejos para a sua vida, que lhe faça evoluir como pessoa em todos os sentidos, respeitando as leis, conscientizando-se dos deveres e dos limites para depois garantir os direitos, usando a natureza com parcimônia, querendo felicidade para os familiares e para todos igualmente, mas em absoluto e total segredo. Nada de fazer essas coisas abertamente, com sorrisos falsos e enganosos, visando apenas status sem mover um dedo para ajudar e modificar os problemas que lamentam da boca pra fora e afligem o mundo.


A conversa com Deus é o elo definitivo através do qual a humanidade se conecta entre si e possibilita a melhoria para cada um indiscriminadamente, e para o mundo inteiro. Isso só irá acontecer quando essas desgraças maquiadas de fim de ano feliz forem desmascaradas e sejam mais importantes as ações pertinentes, por menor que seja, do que as enormes manifestações ridículas, mentirosas e repetidas ano após ano.

A tristeza, a depressão e a morte vestidas de vermelho e bebendo prosecco comandam o fim de ano há tempos, e em alguma hora terá que acabar.

Feliz choque de realidade e menos frescura para todos nós!


Marcelo Gomes Melo

Histórias de casais III: Final orquestrado de um amor dançarino

 

- Nós nos conhecemos em uma festinha de despedida de solteiro – Falei o mais naturalmente possível, mas a atenção das moças se redobrou automaticamente.
- Como assim? – perguntaram olhando para a minha garota, inquiridoras – Despedida de quem?

- De uma amiga dela – sorri condescendente, mantendo o mistério inicial.
- E como é que você foi parar lá?! Não era uma despedida só com a presença de garotas?
- Sim, Nanda, é por isso que eu estava lá. – Arlindo e Crescêncio caíram na risada – Estava trabalhando, diga-se de passagem. – e contei, após um gole de cerveja – Eu era gogo boy. Estava lá para dançar para as moças, seminu, principalmente para a noiva.

A surpresa das meninas foi completa. Ganhei toda a atenção que a curiosidade misturada à bebida poderia conceder. Arregalaram os olhos significativamente para uma impassível mulher, que não contribuiu com sequer uma palavra, até o momento.
- Estava eu cercado pelas moças de frente para a noivinha bêbada e feliz sentada em uma cadeira, rebolando sugestivamente ao som da trilha sonora de “A pantera cor de rosa”, arrancando a máscara e a capa, ficando apenas de sunga e botas, sensualizando para a sorridente noiva quando a vi entre as amigas, batendo palmas meio deslocada, mas se divertindo. Todas eram bonitas, mas ela era diferente. Parecia estar em um show do padre Marcelo Rossi, recata e discreta, cantando “erguei as mãos...”, enquanto as outras falavam todo o tipo de sacanagem já ouvida nos piores antros do planeta em todos os tempos.
- Ele era um bailarino sacana cheio de sorte! – debochou Arlindo – Nunca dançou nada, mas enchia o bolso de dinheiro.

 

- Continue, continue! – elas pediram curiosas.
- Ela chamou mesmo à minha atenção quando colocou uma nota de cinco reais na minha sunga do Batman, à altura do meu quadril esquerdo, timidamente...
- O quê? Ela fez isso?!

- Sim, fez. Não fez, meu amor? – nenhuma resposta – Aí eu pensei comigo: que raio de mulher mais unha de fome! Cinco reais! As outras enterravam notas de cem e de cinquenta reais no fundo da minha sunga. Eu já estava ficando de saco cheio daquela música da pantera! – as garotas sorriam já embriagadas e ainda mais curiosas – Trocaram a música para outra bastante gay, mas eram ossos do ofício; mandei ver o som de “I’m to sexy”. Apareceu uma menina de uns dezoito anos que aparentemente havia quebrado o cofrinho e trazia uns cinquenta reais de moedas enfiadas em um saco plástico para colocar dentro da minha sunga. Dinheiro é dinheiro, pensei comigo, e ainda bem que a festa estava no fim, porque dançar carregando tanto peso era bem desconfortável.

Crescêncio chama uma garrafa de champagne para aumentar o nível da noitada. Minha garota observava as próprias unhas, indiferente. As outras pediram, então continuei.
- As convidadas me tascavam beijos pelas pernas e arranhavam a minha espinha dorsal, enquanto a noiva gritava histérica e mandava ver no suco de vodca. – voltei meu olhar carinhoso para a minha garota – Esse amor de doadora financeira, entretanto, nem me tocava, apenas observava e batia palmas, após a generosíssima doação.

- Caramba, que história de amor diferente! Conte mais! – pediu Linda, surpresa – Como foi que se falaram, afinal?
- Ah! A noivinha começou a vomitar de tão bêbada e desmaiou em coma alcoólico, então fui dispensado.. Enquanto eu contava a bolada e me vestia, satisfeito com a féria, ela apareceu para agradecer e informar que as amigas estavam dando um banho gelado na noiva, e que ela iria ficar bem.
- Foi nesse momento que você se aproximou? – perguntou Nanda.
 

- Sim. Cogitei devolver os cinco reais, ela me parecia com um aspecto esfomeado, “tadinha”... Não é, anjo? – eu sorri charmosamente – Mas fazendo uma análise melhor resolvi convidá-la para sair. Achei o seguinte: “Essa esfomeada merece um pouco de atenção; vou levá-la para tomar Q-Suco de laranja e comer um churrasco grego. Será a minha boa ação da noite”. Dei o meu melhor sorriso, chamei-a de docinho e afirmei que queria pagar um caldo de cana e um sanduichão de mortadela. Sem dar espaço para dúvidas, exigi que fosse pegar a bolsa e vesti minha jaqueta, indo esperá-la no portão. Iria gastar todas aquelas moedas com ela!
Nanda e Linda nem sabia o que comentar. Olhavam de mim para ela e vice-versa, constrangidas e chocadas. Foi quando ela se manifestou:

- Eu não sei quem foi essa idiota que caiu nessa sua conversa machista e nojenta – levantou-se, brava – Mas com certeza se enganou de mulher. Não era eu! – estava furiosa – Acha mesmo que eu estaria com você se soubesse que era um reles dançarino pornô? E anote isso enquanto dança; não quero ver essa sua cara arrogante nunca mais, entendeu bem? – e saiu pisando duro completamente irritada.
As garotas logo foram atrás dela, prestar solidariedade e tentar acalmá-la. Nós, os homens, ficamos os três calados, trocando olhares assustados.

A garrafa de champagne chegou e Crescêncio abriu-a e serviu. Só então um de nós resolveu falar. Arlindo.
- Eu não falei que era tiro e queda? Eu falei que ia dar certo! Foi melhor do que você terminar o namoro. Deu a ela a possibilidade de sair por cima do relacionamento!
- Você é bom, Arlindo, você é bom! – comentou Crescêncio admirado, erguendo a taça.
Então brindamos ao final orquestrado de um amor dançarino falso.

 
Marcelo Gomes Melo


Histórias de casais II: Anaconda
 

          Uma rodada de saquê. Foi a deixa para Arlindo Brown, assim chamado pelos amigos por ser considerado um sósia e descendente de James Brown e antecedente de Mano Brown. Principalmente pelo corte de cabelo. De verdade, de verdade, ele jamais penteara os cabelos como James Brown, era pura sacanagem dos amigões. Mas dançava como James Brown.

          - Como podem atestar meus fãs – começou Arlindo, sem modéstia – O módulo humano de mais sucesso entre as fêmeas do universo, ou seja, eu mesmo, ajudou a sorte dessa linda moça conhecida por Nanda a me encontrar enquanto fazia a feira da semana com a gárgula.

          - Gárgula?! – indagaram as outras duas

          - Não fala mal da minha mãe! – protestou Nanda dando-lhe uma tapinha.

          - Ela atropelava as pessoas com aquele carrinho cheio, amassando pés e fraturando dedões sem condescendência! – insiste Arlindo – A velha é uma anaconda! Vai comprar um cacho de uvas e experimenta dois, de graça. Vai comprar um quarto de uma jaca e devora os outros três sem pagar, como teste! – risos gerais – Imaginem aquela cobra que engole um hipopótamo e depois hiberna por  meses! Só que os meses dela duram apenas uma semana!

          - Quem hiberna é urso, tonto! – retruca Nanda, sorrindo

          - Vocês se conheceram em uma feira?

 
          - Sim, Linda, sim! Na banca do abacate, enquanto a mãe dela amassava as frutas, comia com casca e cuspia os caroços. Cheguei discretamente e elogiei os melões.
          - Na banca do abacate?!
          - Discretamente mesmo, com aquele paletó de lantejoulas e purpurina dourada – lembrei, cruelmente.
          - Você, discreto? – rebateu Nanda – Olhando meu decote ostensivamente e sorrindo como um lobo mau, com aqueles cabelos...
          -... Escorridos e divididos ao meio, como James Brown. Ele usava alisabel – Crescêncio completa, maldoso.
          - A mãe dele confirmou que ele passava o cabelo a ferro – informei, e caímos na gargalhada.
          - Aliás – rebateu Arlindo – Quem fornecia o alisabel e o ferro de passar roupa eram suas amadas mães. – Arlindo não perdoava. – Continuando... Quando me viu em todo esplendor ela não resistiu e ficou caidinha por esse servo de Deus que vos fala.
          - Caidinha? Foi você quem caiu! – Nanda tem uma crise de riso ao lembrar.
          - Eu estava lá! – gritei entre a risadaria – A Nanda tem razão! Você meteu a testa na quina de madeira da cobertura da barraca e se esparramou no chão, desmaiado.
          - Minha nossa! – as meninas estavam pasmas
          - Parecia uma enorme lichia dourada com um galo gigantesco na testa! – Nanda se divertia ao contar – E minha mãe, a anaconda, foi quem socorreu o desgraçado, colocando gelo da banca de peixe na testa dele.
          - Eu e o Crescêncio o carregamos para o apartamento da mãe da Nanda, ali perto – contribuí com a história – Com a tinta da cabeleira escorrendo por causa do gelo na cabeça...
 
          - Ele usava tablete Santo Antonio para tingir – Crescêncio informa calmamente – A gente perguntava: “Quem é você”? E ele respondia: John Lennon!
          - Só não lhe digo quem é que tinge os cabelos e em que local específico por respeito às moças e ao ambiente, Crescêncio, seu traíra! – era Arlindo, falsamente indignado.
          - Foi assim mesmo – afirmou Nanda – Ficou três dias lá em casa, elogiando a comida da minha mãe e jogando damas com meu pai. Depois o flagrei dançando funk usando o pijama do meu pai e aquele paletó horrível por cima.
          - Os cabelos sem o ferro de passar ficaram a La Tony Tornado... – complementei, erguendo o copo.
          - O que você não diz é que dançou lambada na horizontal comigo lá mesmo, no quarto hóspedes, não é? – acusou Arlindo mordazmente, fazendo Nanda sorrir sem jeito. – Conversa vai, conversa vem... Me dei bem! – beija a namorada carinhosamente – Agora o mundo está melhor!
          - Vamos pedir? – falei, fazendo um gesto para o garçom.
          - Não pense que não irão contar como se conheceram! Ainda falta vocês dois! – Linda e Nanda cobraram.
          - Quem conta, eu ou você? – perguntei, olhando para ela com um sorriso malandro.
          - Você conta! – Crescêncio e Arlindo uniram as vozes para decidir com veemência – Não pense que vai escapar dessa!
          Esfreguei as mãos e bati palmas uma vez, para restaurar a memória e iniciar o registro da minha história de amor... Risos.
 
Continua...
 
Marcelo Gomes Melo
 Histórias de casais I: A dança do acasalamento




           -... E aí, começa por vocês! Como se conheceram?

          Imaginem aquelas reuniões de velhos amigos em que os casais escolhem um barzinho divertido, com boa comida e bebida, um ambiente acolhedor para rir, contar histórias, debater ideias... Chegamos ao ponto em que a curiosidade pela história romântica de cada um teve início. Geralmente esse tipo de curiosidade parte das mulheres, e os homens permanecem reticentes, abrindo mão do privilégio de contar os percalços no caminho do amor.
          Dessa vez as garotas exigiram primeiro a versão masculina, e Crescêncio foi escolhido o primeiro, por ser o mais recatado de nós. Muito alto e louro, pele muito branca, Crescêncio ficava vermelho por qualquer coisa. Bastava que alguém o chamasse a se manifestar e o homem já ruborizava como uma velha virgem que vivera a vida toda numa ilha sem homens.

          Não teve jeito a não ser atender ao clamor da mesa e evitar que o restante dos presentes ouvissem os pedidos e o matassem de vergonha. Como sabia que seus dois outros amigos de infância estavam presentes, Crescêncio sabia que “se quisesse esquecer” algum detalhe, nós o lembraríamos com certo exagero, até então, após um generoso gole de cerveja e vermelho como um tomate maduro, iniciou a sua história de amor e futuro acasalamento, observado pela namorada, Linda, uma moça também alta, loura e simpática. Menos tímida do que ele e curiosa em ouvir a história de um ponto de vista diferente.

          - Bem... – começou Crescêncio – Nós estávamos no baile da associação comunitária do bairro...
          - Passamos a semana inteira lhe dizendo que seria a sua chance de colar na Linda! – Arlindo o interrompe, gargalhando, mas as garotas o silenciaram.
          Pigarreando, Crescêncio continuou, de olhos baixos:

 

          - Esses caras passaram o tempo me atormentando, dizendo para pagar um guaraná para a Linda, mas ela estava ocupada dançando com as amigas, sorridente e encantadora...
          - Eu estava nervosa! – Linda interrompeu sorrindo – As meninas disseram que você viria falar comigo, mas eu não acreditava; você estava mais concentrado no copo de cerveja do que em mim.

          - Nada! Você usava um lindo vestido verde esmeralda que combinava com seus olhos! – e completou, ante a surpresa dela – Eu te observava através da cerveja, louco de vontade de me aproximar, mas com medo de ser rejeitado e humilhado na frente de todos. Esses caras não perdoariam! – nós estávamos gargalhando e debochando do fato de ele saber a cor do vestido – Acha que eu estava dançando, Linda? Eram os tremores do meu corpo que faziam o esqueleto se movimentar contra a minha vontade. Eu nunca soube dançar!
          - Nunca vi um cidadão tremer tanto – eu disse, morrendo de rir – Apostamos se ele teria ou não coragem de chegar junto, quando seria, ou se morreria antes, de medo.

          - Que maldade! – rebateu a minha garota, divertida – E o que você fez Crescêncio?
          - Bom... Quando a seleção de músicas lentas começou, eu sabia que seriam os noventa minutos que determinariam o resto da minha vida. – terminou a cerveja e fez um sinal ao garçom, pedindo outra – Esses caras, meus amigos, mesmo dançando davam um jeito de passar perto de mim e fazer pressão para que eu atravessasse a pista de dança e fosse tirá-la para dançar.

 

          - E você, Linda? – perguntou a namorada de Arlindo, Nanda.
          - Eu fiquei lá, abraçando a mim mesma, dando dois passinhos para lá e dois para cá, sozinha, achando que teria que acabar indo até lá buscá-lo para dançar. Mas estava nervosa demais pra isso.
           - Música após música eu tomava coragem líquida. – Crescêncio falou, enrubescido.

          - Tomou umas doze latinhas! – era a voz de Arlindo, zombando – Parecia uma lâmpada de árvore de natal. Finalmente o salão se abriu como o mar vermelho, sem trocadilho...
          -... Mar vermelho menos vermelho do que o Crescêncio – completei.
          - E eu caminhei, quer dizer, cambaleei na direção dela. – falou Crescêncio.
          - O meu coração quase parou vendo aquele lourão com rosto bordô vindo em minha direção! – Linda sorriu.
          - Nós paramos de dançar para registrar a cena, lembra, Arlindo? – eu disse, erguendo o copo em um brinde.

          - Se lembro? Claro que lembro! De longe vimos a boca do cara se movimentar sem sair som!
          - E não saiu mesmo! – concordou Linda – Ele mexeu os lábios mas não disse nada! Eu é que peguei a sua mão gelada e fomos para o centro do salão.
          - Parecia que as luzes estavam apenas sobre nós, e todos os outros casais nos observavam. – a voz de Crescêncio estava emocionada – Ficamos ali, no centro, sem saber como nos abraçar para começar a dançar.

          - E então? – perguntaram as meninas após uma longa pausa. Eu e Arlindo cobrindo a boca para conter o riso.
          -Quando finalmente nos abraçamos... – a voz de Crescêncio estava visivelmente desconfortável, relembrando momentos constrangedores – Antes mesmo do primeiro passo...
          - A seleção de lentas acabou e começou a seleção de balanços! – Linda terminou, sorrindo feliz, enquanto Crescêncio tentava se esconder atrás do copo de cerveja.
          - Ohhhhhhh! – fizeram as garotas em uníssono. Nós rachávamos o bico que nem adolescentes.



          - Ficamos lá, gelados, completamente sem graça por uns minutos. Depois cada um voltou para o seu lugar – Crescêncio sorria levemente – Fui lá para fora e sentei em um banquinho, arrasado. Não sabia se chorava, se fugia, ou as duas coisas...

          - Coitados! E vocês nem para apoiar?!

          - Apoiar? Iríamos tirar o pelo dele no dia seguinte! – mais um brinde e gargalhadas!

          - Terminou por aí? – a minha garota perguntou, ainda curiosa.

          - Não! Ela também saiu para tomar um ar e, quando me viu, sentou-se ao meu lado.

          - Ele parecia tão decepcionado! – Linda acrescentou.

          - Era só efeito da cerveja. – Arlindo argumentou.

          - Conversamos um pouco, timidamente, olhamos a lua... E eu desembuchei como um furacão, falando mais rápido que um locutor esportivo, aos trancos, que a amava e queria namorar com ela, mas se ela não quisesse, tudo bem, era só falar que não teria problema, eu mudaria de bairro, de escola, de cidade, de Estado, de país, de planeta...

          - Nossa!

          - Quando ele conseguiu parar de falar, eu disse que também o amava e aceitava namorar com ele.

          - Ahh, que lindo! Que romântico! – eram as mulheres de novo.

          - E o que você fez, Crescêncio, fala. – Eu e Arlindo perguntamos, ao mesmo tempo.

          - Minha voz, depois da explosão, não saía. Apontei para a garganta e depois para os joelhos, que batiam um no outro incontrolavelmente.

          - Ele estava tão nervoso que não conseguia falar nem se levantar – explicou Linda calmamente, segurando o braço dele com carinho.

          - E como selaram o namoro? – Nanda perguntou – Um beijo teatral, um abraço de ferro?

 

          - Não – Linda respondeu tranquila – Ele apertou a minha mão formalmente, como se fechássemos um negócio, e disse solenemente: “Pronto, a partir de agora estamos namorando. Parabéns e muito obrigado”.
          Silêncio na mesa por alguns minutos e erguemos os copos para brindar ao amor formal.
 

          Mas a minha mulher não estava satisfeita ainda, e a noite estava apenas começando. Pediu uma rodada de pisco e intimou:
          - Agora é a sua vez, Arlindo! Conte como conquistou a Nanda.
          Arlindo sorriu como uma raposa desavergonhada e preparou-se para contar a sua saga de amor.

Continua...


 
Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

A permanência sob os temporais           Eu quero permanecer sob a chuva, o mundo está tremendo como os meus sonhos. Aturd...