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Vou me esbaldar com a sua mãe! (Versão light)

 

          Aquele cara em pé ali na sala, com aparência rústica, vestido impecavelmente com uniforme militar, expressão dura, cabelos cortados à escovinha, coturnos brilhando e ostentando medalhas no peito, pernas ligeiramente separadas e braços cruzados à altura do peito, o deixou desconfiado. 
          O camarada sorriu levemente, sem exibir a dentição, trocando um olhar suave com a mãe dele, assim que ela, meio nervosa, ajeitando vaidosamente uma mecha dos cabelos atrás da orelha e com os olhos brilhando, deixou a sala.

          A mãe, coroa gostosa e bonita, decente e honesta, estava vestida de forma diferente naquele dia, notou; embora fosse sempre elegante, dessa vez trajava um vestido leve, preto, um pouco acima dos joelhos, permitindo a visão de boa parte das coxas e até um decote generoso! Desde que seu pai desaparecera na guerra ela sempre mantivera uma atitude discreta, mais do que o necessário, até. Nem maquiagem costumava usar! O que estaria acontecendo?!
          Novamente fitou o cara. Ele estava pronto para sair e encontrar os amigos quando o tipo zero chegou. Iriam acampar pelo fim de semana, por isso mantinha a mochila sobre os ombros e o violão às mãos. O tipo observou seus longos cabelos e o piercing nos lábios, mas não disse nada. Um militar deve reprovar isso, pensou. Dane-se! A mãe o informara que antes de sair deveria ter uma conversa com o tipo; ele tinha algo a lhe dizer. Será que ela havia arrumado um alistamento para ele por conta das notas baixas na escola? Como o camarada ainda o observava sem dizer nada, olhou ostensivamente para o relógio e resolveu partir para o ataque.

 

             - Tem alguma coisa a dizer? Manda! – não iria se deixar intimidar.

          O tipo continuou olhando para ele por alguns instantes, avaliando-o ostensivamente; com dois longos passos pela sala, aproximou-se, outro espectro de sorriso, que na opinião dele fora cínico, e tascou, com a voz profunda:
          - Eu vou comer a sua mãe.
          O garoto gelou. Os olhos se arregalaram e ficou branco.
          - O quê? – gaguejara. Não deveria ter ouvido direito, entendera errado, não era possível aquilo!

          - Você é surdo, rapaz? Eu disse que vou debulhar a sua mãe! – repetiu agressivamente, embora mantendo a voz baixa e maligna – Notou como ela está viçosa, linda e desejável? O tempo não passa para ela! Acha que à noite sua mamãe não se sente sozinha, querendo uma companhia masculina que a encha de beijos? Um amante que lhe arranque o vestido e lhe prepare um banho quente com sais e pétalas de rosas na banheira? Que lhe sirva uma bebida afrodisíaca...
          Ele não acreditava naquilo! Seria alguma brincadeira de péssimo gosto armada contra ele? Apertou as mãos, nervoso, enquanto o tipo grandalhão, com as mãos cruzadas às costas continuava a falar, bem próximo a ele:

          -... Acariciar os cabelos macios da sua mama, moleque fedido; trazê-la com vigor para os meus braços, colando minha boca com a boca dela, esmagando-a contra a parede, apalpando-a com as minhas mãos de lenhador.
          Não parou de falar, com a voz calma e baixa, nem quando viu o garoto empunhar o braço do violão como uma arma e trincar os dentes, tremendo de ódio. Sua pele estava ficando avermelhada e só se podia enxergar o branco dos olhos.

 

           - Sua mamãezinha irá relembrar de tudo o que deixou de receber nos últimos anos, garotinho trouxa! Pretendo mapear aquele corpo cheiroso e me deleitar com os gemidos que ela deixará escapar.

          Com os lábios trêmulos e as mãos desajeitadas, o garoto tentou procurar a faca de caça dentro da mochila. O desgraçado era muito maior do que ele, e parecia treinado para combate, mas isso não lhe dava o direito de provocá-lo daquela forma, desrespeitando à sua mãe!
          - Sua mãe será tratada como uma rainha! Mal vai poder levantar-se da cama para fazer o nosso café da manhã. Pediremos delivery.
          O rapaz morde os lábios sem cor, agarrando o cabo da faca dentro da mochila. Seu único pensamento era matar o sacana!
          - Sua mãe e eu iremos nos divertir em todos os cômodos da casa. No sofá, na escada, no chuveiro... Pense nisso enquanto estiver acampando com seus amigos, garoto tolo. O que fizer com a sua namorada, farei o dobro com a sua progenitora, lembre-se disso!

 
 

          Lágrimas de ódio escorreram dos olhos dele. Esperava o melhor momento para golpear aquele degenerado de uniforme sem piedade.

          - Não seja melodramático, moleque egoísta! Como você acha que foi feito? De proveta, imbecil? Só os jovens como você estão liberados para o amor e o sexo, é o que pensa? Tapado!
          O olhar de ódio, a faca à mostra na mão trêmula, o suor ensopando os seus cabelos e escorrendo pelo rosto, misturado às lágrimas de frustração... Vou matá-lo!
          - Ei, moleque! Por que está bufando como um verme?

          Cínico safado! Ainda pergunta!
          - Eu vou comer a sua mãe, sim; mas não fique tão nervoso, porque...

          EU SOU SEU PAI!

 

Marcelo Gomes Melo
A respeito das paixões, platônicas ou verdadeiras


         As paixões platônicas são tão ou mais sensacionais do que as paixões verdadeiras. Aliás, nem cabe classificá-las como inverídicas, visto que causam as mesmas palpitações e os mesmos suspiros, as mesmas fantasias e as mesmas decepções. Essas paixões precisam permanecer platônicas para serem classificadas como perfeitas.

          As paixões reais são como navegar em mares bravios com um bote salva-vidas, cheias de altos e baixos, dissabores mortais que, de um minuto para o outro se transformam em delícias eternas. É o mesmo que ser passageiro de uma montanha russa, com direito aos gritos e aos sustos. Perigo consciente, procurado por todos os viventes durante toda uma existência.




          Diversos poetas românticos escolheram viver para amar e morrer por amor; e o fizeram na realidade, mesmo que seus amores fossem platônicos. Por seus amores choraram, vibraram, sofreram, se enterneceram, se declararam através dos seus mais insanos versos! Preferiram passar noites em claro bebendo, divagando, sonhando com a mulher idealizada por cada um.

          O amor platônico elimina defeitos. E todos escolhem alguém perfeito para amar, o que é impossível no amor real, sinônimo de conviver, se conhecer e perdoar os defeitos. A qualquer custo. É por isso que a beleza imortal é uma das características platônicas; muda conforme a atração de cada apaixonado, portanto é subjetiva, está nos olhos de quem vê.
          Apaixonados platônicos não pensam nas respectivas amadas acordando descabeladas, com olhos remelentos e bafo de crocodilo; elas jamais se irritam com nada; não sofrem com os defeitos comuns, compartilhados por todos. São inteligentes, cheirosas, pacientes e amorosas. Nunca reclamam, jamais cobram ou proíbem, não tentam impor a sua vontade e muito menos anular os desejos do companheiro, submetendo-o à completa ausência de opinião e de paz para sempre.

 

          Não é nada fácil criar uma musa inspiradora em tempos de comunicação global instantânea, porque hoje todas se manifestam, por escrito ou ao vivo, e nem sempre o que dizem, escrevem ou como escrevem corresponde ao ideal de perfeição.

          A exposição aterradora a qual a musa submete a si mesma, mostrando-se tanto que até os defeitos são notados; a falta de pudor, o descaramento indo às raias da loucura, a intimidade sendo vendida a qualquer preço torna o amor platônico inadequado. Se o amor pela mulher adorada permanecer depois de tudo isso ser atirado na cara do romântico inveterado, deixa de ser platônico e passa a ser verdadeiro, porque envolve aceitação dos defeitos e a torna uma mulher comum, normal.
          Fica-se imaginando que o cinismo que infesta a sociedade mundial, a descrença das pessoas nelas próprias e nas outras torna o amor platônico inviável, prestes a desaparecer, mas tal pensamento jamais acontecerá! O que causa essa certeza é que já está documentado nos livros, incrustado no peito dos antigos e inserido na história, aconteça o que acontecer.


          O resto é amor real, verdadeiro, que faz sorrir e renunciar; que acaba. Que permanece escondido sob as tormentas diárias, que sobrevive aos trancos e barrancos e provoca reações passionais. Apaixonados que explodem e destroem a tudo em sua volta; igualmente produz a mesma destruição, indiscriminadamente.
          A vida continua e a caravana das emoções passa, enquanto os cães do amor ladram desvairadamente.
 

Marcelo Gomes Melo

 

Louco para transar, doido para amar! (O término)



A campainha novamente. Já? Que bom, se fosse o vizinho com o carro de tanque cheio eu iria fazer um empréstimo e diria a ela para pegarmos a matinê! Pedi licença e abri a porta, acelerado. Não era o vizinho, era o meu amigão de longa data, o Jabá. Fiquei meio atarantado, sem saber como dispensá-lo, mas ele foi logo falando, parado à porta; não entrou sem cerimônia do jeito que sempre fazia. Contou ter passado na banquinha do Godofredo, o velho do jogo do bicho, e fez uma fé depois de um sonho na noite anterior e... Cortei o papo furado dizendo que estava ao fone, mas o Jabá me pediu um minuto. Não, não iria entrar, também estava com pressa, depois contaria o sonho. Suspirei, incomodado, e ele percebeu.

Já vou me mandar, calma! Lembra-se daquele dinheiro que você me emprestou outro dia? Puxa, lá vem ele querendo pedir mais um empréstimo, e sou eu quem está precisando, agora, pensei.  Não tenho nem pra ir ao cinema com a minha garota! Lembra ou não lembra? Acenei que lembrava e ele completou: Pois é, vim te pagar. Fez-se silêncio. O vento parou. O tempo parou! Os movimentos se tornaram lentos como em Matrix. Me pagar?!

Sabe quanto faturei no jogo do bicho? Sabe?! Dez mil quilos de alcatra, meu amigo! Eu não ouvia som algum, só um zumbido ininterrupto em minhas orelhas, a gargalhada sem som e interminável do Jabá, que enfiou a mão no bolso e puxou um bolo de notas de cem. Quanto eu te devo? Trezentos?

Cascabulho de milho! Trezentos já cobriria o cinema. Eu ia transar! Nem lembrava quanto emprestei. Você é meu irmãozinho de todas as horas, ele estava falando, já me livrou a cara muitas vezes, então pega aí. Contou dez notas de cem e enfiou na minha mão. Até mais, depois nos falamos. E se foi, me largando ali com uma alegria absurda, que causava calafrios pelo corpo todo. O telefone! Ela estava à espera havia mais de dez minutos! Oh, não, não, por favor, não!

 
Corri para o sofá em câmera lenta, ao som de Carruagens de Fogo, agarrando o telefone e quase enfiando na orelha. Se ela tivesse cansado de esperar e desligado... Por favor, Deus, não!
Alô?! Alô?! Voltei, meu amor, perdão, eu... Apavorado, demorei a perceber a voz suave e paciente, quente e sedutora, dizendo que tudo bem, estava preparada para me esperar por toda a eternidade. Tomei fôlego, apertando a grana entre os dedos e mudei o tom de voz. Agora eu era o rei da cocada preta, o astro do amor e da flor, o garanhão vitorioso que faria amor gostosamente por toda a noite, e, de manhã ainda pagaria um café da manhã reforçado, com suco, papaia e croissant para impressioná-la.
O cinema está confirmado, querida! Saboreei o prazer dela apertando as pernas do outro lado da linha. Só que, continuei, antes de voltarmos à sua casa para a premiação deliciosa e inesquecível, insisto em levá-la ao seu restaurante preferido! Sim, sim, meu amor! Flores, champagne... Agora quem passou a falar pausadamente fui eu, com voz de locutor FM, enrouquecida pela antecipação... Ela quase teve um orgasmo ali mesmo. Uma hora ou duas depois nos despedimos, para nos prepararmos para o programa.
A noite foi perfeita. Pelo menos pela expectativa criada por mim. Ela estava linda, deslumbrante, mexendo com todos os meus sentidos a cada movimento que fazia. Aqueles sorrisos me atingiam como chicotadas, de um lado para outro do corpo.
No carro trocamos beijos ardentes, conversamos baixinho, emocionados; errei o câmbio mil vezes para descansar a mão em seu joelho. Ficamos quinze minutos no estacionamento, dando uns malhos de responsabilidade; depois fugimos do guardador de carros que circulava por ali de moto, ela ajeitando a saia, eu arrumando os cabelos. O filme que ela escolheu era um clássico iraniano que documentava a vida de um cidadão idoso com o sonho de se conectar ao mar através da alma. Quase não havia diálogos, mesmo porque o mar não falava, e ao fundo o som de bombas explodindo e de metralhadoras. Deprimente. O que foi ótimo porque me concentrei nela e mandei a droga de filme às favas. Ela assistiu ao filme como pôde, mas não reclamou dos carinhos. Eu era um verdadeiro polvo, cheio de braços, mãos e línguas. Não me pergunte, eu nem sei se polvo tem língua!
 
Depois do filme, o jantar. Eu prometi, então tinha que ser paciente. Fomos a um restaurante italiano e pedi o melhor vinho. A tarantela comia solta e meu pensamento idem. Estava inebriado pela mulher mais atenciosa e promissora do mundo! Cada gesto, cada palavra significava uma promessa implícita do que viria em seguida. A madrugada seria pequena para o que aconteceria. Quando ela piscou, bem sacana, não marquei touca; chamei a conta imediatamente. Paguei e constatei que, após a gorjeta do valete, sobraria na carteira trintão. Três notas de dez. Menos do total com o qual comecei o dia; mas estava exultante.
No elevador e no corredor do prédio dela, testamos o perigo de sermos flagrados e subimos e descemos do térreo ao último andar diversas vezes. Paramos à porta para recuperar o fôlego e a compostura, ela abriu a porta e me mandou entrar, pedindo silêncio. Obedeci e ela se retirou imediatamente.
Da sala escura vislumbrei a sala de jantar com uma luz tênue, difusa, tornando o aspecto excitante de uma casa de tolerância para milionários. Tirei o blazer, abri os botões da camisa, soltei o cinto e me livrei dos sapatos, ficando de meias, esfregando as mãos. O meu presentinho seria inesquecível! Já estava salivando, desenhando no cérebro a entrada triunfal dela, apenas com uma lingerie transparente, me convidando com um gesto para a mesa de jantar, na qual seria a minha mulher sushi!
Já não aguentava mais de ansiedade. Ouvi passos. Estava com os braços abertos, aguardando o meu tesouro quando a palavra “surpresa!”, igual àquelas festinhas de aniversário, gelou o meu sangue.
Ela continuava vestida e sorridente. Ao seu lado, um casal. O homem careca, trajando paletó escuro e com cara de poucos amigos, de braços dados com uma senhora de vestido rosa choque e excesso de maquiagem ao lado dela, sorrindo a toa.
As palavras nebulosas ditas por ela penetraram na minha cabeça ao mesmo tempo em que minha visão escurecia; a pressão caía de uma só vez.
Meu amor, começou ela docemente, achei que esse era o timing exato para, na hora da definição do nosso relacionamento, e agora sei que será eterno, fazer-lhe essa surpresa sem par! Eu engoli em seco. O ódio tomando conta do meu ser. Ela continuou o discurso, alegre, vivaz... Idiota.
 
Tenho a imensa honra de apresentar-lhe os meus pais! Os seus sogros que estarão, de agora em diante, constantemente em nossa vida. O meu pai trouxe uma garapa especial feita por ele mesmo na fazenda, para brindarmos por uma vida feliz. Aproxime-se,meu amor, esse é o minuto mais feliz de nossa vida!
Naquele momento eu quis morrer!
 
Marcelo Gomes Melo

Louco para transar, doido para amar (O início)
 

          Finalmente, depois de quinze dias afastados por causa de uma briga boba, ela telefonou. Ficamos longe, afastados, sem trocar uma palavra; ela não atendia nem aceitava conversar comigo em hipótese alguma, então era uma bandeira branca sendo acenada e eu teria que agarrar com unhas e dentes.

          A razão para o nosso desentendimento foi a seguinte: era sábado e à noite teríamos uma festa à qual deveríamos comparecer, e ela só falara nisso durante toda a semana anterior. Eu tinha um jogo de futebol à tarde, mas confirmei a presença e tranquilizei-a. Era só um jogo, haveria tempo para a festa sem problemas.

          Eu só não contava com a briga generalizada que levou ambos os times a parar na delegacia de polícia mais próxima. É claro que os ânimos se acalmaram e todos entraram em concordância, mas o delegado nos deu um chá de banco Ficamos todos sentados, como crianças na diretoria depois do sermão pelo período entre as 17h00 e as 24h00.

          O celular com a bateria descarregada impediu qualquer comunicação, e quando cheguei ao apartamento dela por volta de uma e meia da manhã, é óbvio que já havia ido e o humor não estaria muito bom na volta.

          Permaneci vestido com o uniforme do time, achando perfeito ter recebido uma cotovelada no supercílio, que estava aberto e inchado; seria uma prova real do que acontecera. Também não carreguei o celular. Eram as provas produzidas que aliviariam a fúria mortal que com certeza a alimentava.

 

          Ela voltou da festa antes das três da manhã, bonita demais, maravilhosamente cheirosa, e com disposição para a guerra. De início pareceu chocada com a minha aparência, mas não foi o suficiente. A raiva foi muito maior. Quando expliquei que não tinha como entrar em contato e mostrei o celular descarregado, ela foi irredutível: “Por que não pediu o celular do delegado emprestado? Era por uma boa causa!”. E foi blá, blá, blá, blá, sem aceitar nenhuma defesa de minha parte. Pedir o celular do delegado! Mulheres!

          Já irritado tentei usar a psicologia reversa e contra atacar. Acusei-a de ter ido bonita demais, sozinha, e que provavelmente recebera inúmeras cantadas! Isso foi pior ainda. Indignada, passou a reclamar mil vezes mais e a ficar ainda mais insuportável. Não aguentei mais; peguei minha mochila com as chuteiras e tomei o rumo de casa, profundamente nervoso.
          Agora, quinze dias depois, ouvia aquela voz delicada da minha rainha. Em princípio foi daquele jeito, meio frio, ambos desconcertados; “Tudo bem?”; “Melhorou do ferimento?”; “Sim... E você, como está?”... Depois a coisa foi melhorando. A fiz rir com uma piada sem graça, depois falei que não aguentava de saudades.

          A voz dela estava naquele tom suave, cheio de promessas, e eu naquela seca maldita, louco para transar, doido para amar! Só que as mulheres, com seu estilo peculiar, em vez de irem em uma linha reta, direto ao ponto, preferem dar uma volta desnecessária, criar um labirinto entre elas e o ponto em que desejam chegar. Essa tendência se manifestou logo. Lá vem ela “sugerindo ditatorialmente” que fôssemos ao cinema assistir a um filme sensacional que estava estreando.

          Rapidamente dei uma conferida na carteira. Eu tinha apenas quarenta paus, nada além disso. A calculadora em meu cérebro se pôs a trabalhar freneticamente, enquanto a ouvia dizer que a pegasse na entrada do prédio lá pelas 20h00. Foi aí que lembrei de que o tanque estava na reserva, o cartão de crédito estourado e meus olhos acendiam e apagavam em neon: “Sexo!”, “Sexo!”, “Sexo!”. A minha voz adquiriu um tom lamentoso e eu disse: “Meu inesquecível amor, o carro está no conserto”. E emendei: “Faz assim; vem pra cá, eu compro o filme pirata na feira, comemos pipoca e ficamos mais à vontade... Hein, hein?”.

 

          Nada disso. A Hitler de saias concluiu sensualmente: “Vamos de táxi, amor, não tem problema”. O cinema custava oitenta cada um; o táxi, ida e volta, uns duzentos; pipoca, sorvete, refrigerante mais trinta reais. Eu tinha quarenta! Já via a chance de transar indo embora. Teria que abrir o jogo e falar que estava duro. E sem grana. Assim que abri a boca para destruir minha chance sexual, a campainha tocou. Pedi a ela que aguardasse à linha e, xingando por dentro, fui atender. Era o meu vizinho, gente boa, pedindo o carro emprestado para levar a esposa ao aeroporto; voltaria em duas horas. Falei que não haveria problemas, mas que o tanque estava vazio. Ele respondeu: “Fica tranquilo, eu encho o tanque pra você”. O meu estômago se contorceu de alegria! Joguei as chaves na mão dele. E comemorei como se fosse o Pelé marcando um gol, com um soco no ar.

          Voltando ao fone, meu raciocínio sexual era maquiavélico. Nada como um homem inspirado pela vontade de transar. Chegava com o carro, parava num lugar escuro a caminho do cinema... Papo vai, papo vem, ela nem se lembraria mais do filme. O amor se faria ali, livremente, atrás de um armazém abandonado, em cima do capô do carro. Erótico. Exótico. Sensual. Do jeito que as mulheres sonham, aventura pura!
          Senti o sorriso devasso quase sem som que ela deu quando contei que era o mecânico dizendo que o carro ficaria pronto em duas horas. Mas continuou insistindo naquele malfadado filme!

          Quase iniciei a terceira guerra mundial, mas os arrepios que me apavoravam, a vontade de amassar aquela mulher macia, a febre do rato da busca pelo prazer me impediram de ficar irritado. Ainda estava sem dinheiro; se ela tivesse que pagar iria ficar bem brava, me acusando de ser insensível e nada romântico, justamente por ser o encontro da reconciliação. Não fosse por isso não teria problema algum em gastar conosco. Mulheres e seus dogmas! Como se pobreza fosse sinônimo de falta de sensibilidade! Adeus noite de prazer!

 

          Voltei o foco às minhas necessidades intrínsecas. Tenho que ser esperto, desviar a atenção dela e fato de acreditar que um motel é mais romântico e seduzi-la a querer imitar Sharon Stone na minha cozinha, Demi Moore no tapete da sala, Jennifer Lopez na lavanderia ao invés de naquela cama gigantesca, hidromassagem, cadeiras especiais, óleos e perfumes... Para a minha surpresa ela tocou nesse assunto, sorrindo com alegria travessa. Falou com aquele tom sem vergonha, lotado de promessas, espaçando as palavras, causando impacto na minha frágil estrutura que implorava por sexo brutal, cavernoso; por carícias tão leves que causavam a impressão de serem as últimas antes de morrer de amor. Tesão encalacrado fazendo coisas com a mente de um homem!

          Minha respiração sumia e voltava, inconstante. Meu coração batia e parava, parava e batia; ela finalmente concluiu o período e eu apreendi que, depois do cinema, dos beijos e carícias, do pega-pega, sussurros e dramas, voltaríamos para o apartamento dela. Lá haveria algo preparado para nós dois. Era algo maravilhoso e importante; inédito, segundo entendi. Faríamos uma comemoração...

          Eu estava realmente a ponto de ter um treco, sorrindo e apertando o fone. Comemoração,é? Sim! Algo que jamais acontecera entre nós. Eu iria adorar porque seria marcante e inesquecível nas nossas vidas. Uau! Conta, conta! O que é que eu vou ganhar? Ela apenas sorria e dava pequenos gemidos matadores. Ambos ganharíamos. Ela sempre hesitara em fazer isso,mas agora era o momento certo. Meus pés batiam no chão incessantemente, de tanta apreensão. Eu seria capaz de roubar para levá-la ao cinema naquela noite! Jamais perderia aquele prêmio fenomenal. Muitos caras matariam por isso! Eu também!

 

Continua...
                                  Marcelo Gomes Melo
 


Uma pequena reflexão sobre o amor


          Um controlador me disse uma vez
          Que aquela névoa do amor
          Se foi para sempre
          Mas eu “koi no yokan” em breve
          E não deveria fazer nada além de esperar

          Ele disse que meu fogo interior
          Seria atraente para ela
          E ela iria cuidar de mim
          Interessada em minha maneira de sentir
          Eu sei que ele é apenas um maluco
          Por controle
          Mas algo em sua voz soa como verdade
          Para a minha mente cansada e magoada

          Então eu me convenci de que
          Ela estava vindo para mim
          Antes de sair do quarto
          Ele disse mais uma coisa
 
          Não se esqueça de que ela
          Precisa ser paga por te amar
         
          Eu soube então que tudo
          A respeito do amor é confuso e falso
          Mas, oh, Senhor, é tão bom!
 
                           
·       Koi no yokan = conhecer alguém de quem é inevitável se apaixonar.
 
 
A little reflection about Love
          A control freak once said to me
          That love haze has gone for good
          But I “koi no yokan” soon
          And I should have nothing but wait for
 
          He said my fire within
          Would be attractive to her
          And she would take care of me
          Interested in my way to feel
 
 
          I know he is just a freak controller
          But something in his voice
          Sounds like true to my
          Tired and hurted mind
 
          So I convinced myself she has
          Coming to me
          Before I left the room
          He said one more thing
 
          Don’t you forget that she
          Needs to be paid for loving you
          I knew then that everything about love
          Is confused and fake
          Makes me tremble inside
          But, oh, Lord. That’s so good!
 
Marcelo Gomes Melo
 

 



 

Para ler e refletir

A vida secreta dos seres noturnos           As noites em claro que costumo passar há anos, me ensinam comportamentos novos...