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 Exponha os seus pensamentos, a palavra é uma arma quente!

 

           É importante que todo cidadão participe da vida em sociedade, cada um em seu próprio círculo de atividade e convivência, mas também que vá além disso, que se informe a respeito das questões políticas, sociais e culturais que influenciam, e muito, na sua vida diária, posicionando-se a respeito de modo claro e com firmeza.

          Se realmente o período obscuro que proibia à população de se manifestar e debater, reclamar e opinar passou, e vivemos o que se pode chamar democracia, implica o direito, e até o dever de participação, formal ou informal nas coisas que acontecem no país, no estado, no bairro ou na rua em que se reside.



 
          Mesmo nas redes sociais, em que há certa cobertura e muitos prefiram o anonimato para proferir impropérios, xingamentos e insultos  a quem pense diferente, ainda há um número pequeno de debates, troca de ideias e manifestação de opiniões em ambientes amplamente favoráveis a isso. Sem contar que a discordância é algo positivo, proporciona verificar diversos ângulos da mesma questão e com isso educa melhor, ensina mais, enriquece a cada um intelectualmente, amplia a forma de encarar o mundo e a vida.

          Exponha os seus pensamentos, compartilhe suas preciosas ideias, colabore para a formação de opiniões populares fortes e significativas, que alcance os ouvidos moucos e olhares perdidos dos políticos de bolsos cheios e modifique dogmas e atitudes perniciosas.

          Comece comentando as notícias que lhe chamem a atenção, confraternize, conheça as pessoas e suas ideias, seus ideais, inquietações. Logo perceberá que muitas das suas coincidirão com as de muitas outras pessoas, e nada como um bom debate, uma respeitosa troca de ideias para encontrar soluções viáveis que melhore o país, independentemente de seus governantes.

          A palavra é uma arma quente! Exercer a democracia encurta as distâncias e fortalece a todos, com diversão, entretenimento e principalmente ações políticas sérias. Troque ideias, comente, argumente, participe. Isso é viver!

                                            Marcelo Gomes Melo

                       O homem que comia demais



 
 

Sebastião Uirapuru de Souza era um homem intrigante. Cidadão de meia idade, alto e robusto, de conversa suave e sorriso fácil, procurava sempre andar bem vestido e perfumado e carregava consigo uma filosofia a qual defendia de maneira feroz: “Não se deve perder uma oportunidade na vida, pois no final das contas somos apenas carbono e minerais, e quando reduzidos a cinzas nosso valor é irrisório”.

Atendia pelo carinhoso apelido Sebá, mas se autodenominava “O homem que comia demais”. Isso por diversas razões. Primeiro porque era fiel à sua filosofia, então, como Bon vivant profissional, comia e bebia do melhor sempre que fosse possível, nos melhores restaurantes ou nos piores botecos de beira de estrada. E segundo, porque também se julgava um Don Juan de excelente categoria e não perdoava qualquer oportunidade sexual que lhe aparecesse, fossem suas presas empregadas domésticas, atletas, madames, pobres, ricas, jovens, maduras, transexuais, nada lhe escapava.



Sebá utilizava como persuasão o seu mote infalível; repetia incansavelmente que ninguém era mais do que carbono e minerais, e logo virariam cinzas. E virando cinzas, de nada mais valeriam... Então por que perder tempo com conflitos morais ou padrões de comportamento social se a vida é tão curta e sem propósitos?

Um homem tem que formar os seus próprios propósitos, e prazer é o melhor que um simples ser humano pode almejar num mundo tão frio e cruel. Toda forma de prazer.

E foi isso o que, ironicamente, causou a Sebá Uirapuru o desfecho mais óbvio para alguém como ele. Um cara que trabalhava como cambista, que administrava casas de prostituição, recebia suborno para deixar menores entrar em festas regadas a ecstasy e bebidas... Sabia se virar tranquilamente e fazia de tudo para morder a grana e viver em alto estilo.

Nos tempos de vacas magras Sebá se virava como podia, sem esmorecer nem perder o sorriso largo e feliz. Chegava a recolher-se ao interior das cidades grandes, o que era o pior dos terrores, a pior das punições para um homem como ele. As grandes cidades eram o sol para ele, que girava em torno delas, hipnotizado pelas inúmeras fantasias que podiam lhe proporcionar. Mas quando tudo piorava, Sebá se embrenhava mais e mais no interior, distante da boa vida urbana que lhe movia e pela qual ansiava.

E foi num desses momentos, sem dinheiro e sem prestígio que ele teve que recolher-se num local pouco habitado, no meio do mato e perto de uma fábrica de tijolos, dessas com grandes fornos antigos, local em que não se via resquícios de seres humanos.

Ao fazer o reconhecimento do local, ele notou que havia a olaria abandonada para dormir; havia bois e vacas, então teria leite de graça, e umas cabritas... Isso fez o sorriso oportunista de Sebá se alargar. Ali seria o rei por uns tempos, com leite, frutas, local para dormir, apesar do frio noturno... E cabritas!

Um metrossexual como ele podia resignar-se e aproveitar como pudesse por uns tempos. E foi assim durante uns dez dias. Para aguentar o frio da noite enfurnava-se dentro de um dos fornos e dormia pesadamente, sem sonhos. Isso foi o início do fim.

No décimo primeiro dia de seu retiro por lá, transando com as cabritas e tomando leite de vaca, homens apareceram. Dezenas deles. Assustado, Sebá manteve-se dentro do forno, deitado, com medo de que descobrissem seus apetites sexuais com os animais alheios. Em determinado momento adormeceu. Sono pesado. Nem percebeu quando acenderam o forno.

Morreu de acordo com as suas convicções: “Somos nada mais do que carbono e minerais. E no final das contas as cinzas se espalham ao vento e de nada valem...”.

Há quem se desprenda da vida a ponto de parecer um tolo.

 
                                  Marcelo Gomes Melo

Para ler e refletir

A vida secreta dos seres noturnos           As noites em claro que costumo passar há anos, me ensinam comportamentos novos...